1 de novembro de 2026

Basta de nos queimar!: a armadilha da violência em “As coisas que perdemos no fogo"

Por Mariana Perin

Corpo, resistência e crítica à violência como estratégia política

O conto “As coisas que perdemos no fogo”, de Mariana Enriquez, nos apresenta uma distopia feminista: mulheres passam a queimar seus próprios corpos em protesto contra os crescentes casos de feminicídio nos quais homens queimam suas parceiras vivas. Diante da brutalidade desses crimes, as mulheres iniciam o movimento das "queimadas", onde elas se ateiam em fogueiras e, ao sobreviverem, ressignificam suas cicatrizes. Esse movimento, além de desafiar o patriarcado, tenta denunciar o horror da violência de gênero.

Em uma leitura inicial, partindo da perspectiva das “Mulheres Ardentes”, nome do grupo que pratica as queimadas, esse ato pode ser visto como uma libertação: as mulheres tomam para si o controle de seus corpos e destinos, subvertendo a lógica patriarcal. A frase "Agora nós mesmas nos queimamos. Mas não vamos morrer; vamos mostrar nossas cicatrizes" (Enriquez, 2017) evidencia essa visão. No entanto, a narrativa não necessariamente celebra essa escolha, já que, mesmo reivindicando a autonomia sobre seus corpos, a violência continua sendo o elemento central da ação política das Mulheres Ardentes. A resistência continua operando dentro dos limites impostos pelo patriarcado, ao invés de superá-los.

Diante desse cenário, emerge a questão que orienta este artigo: será que, ao assumir a dor como identidade, as mulheres estão mesmo se libertando? Defende-se, neste estudo, que a resistência baseada na automutilação tende a tornar-se uma armadilha que reproduz, em vez de romper, as estruturas de dominação.

O conto As coisas que perdemos no fogo constrói uma narrativa em que o corpo feminino se torna simultaneamente instrumento de denúncia e alvo de violência. O ato das Mulheres Ardentes surge como resposta ao feminicídio, mas, ao fazê-lo, transforma o próprio corpo em palco de dor e sacrifício. A princípio, esse movimento parece subverter a lógica patriarcal, pois desloca o controle da violência para as próprias mulheres. Contudo, ao longo da narrativa, torna-se evidente que essa estratégia carrega contradições.

Como argumenta Rita Laura Segato (2016), a história da esfera pública é também a história do patriarcado, e por isso não é possível compreender a organização social sem colocar o corpo feminino no centro da reflexão. Sua alegoria da pirâmide invertida, em que todo o edifício da sociedade se sustenta sobre o corpo de uma mulher, não deve ser entendida apenas como imagem simbólica, mas como formulação política que evidencia a centralidade do corpo feminin

Capa do livro As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enriquez, publicado pela Intrínseca.

o na manutenção das hierarquias sociais. Nesse sentido, a violência contra mulheres deixa de ser percebida como evento isolado e passa a ser compreendida como mecanismo estruturante do sistema, colocando-as na base de uma pirâmide social sustentada pelo sacrifício de seus corpos. O corpo feminino atua, historicamente, como campo de batalha simbólico e material, por isso, Segato afirma que a violência contra a mulher possui função pedagógica: não apenas resulta da opressão, mas atua como instrumento que a reforça continuamente. Assim, as Mulheres Ardentes transformam a denúncia em metáfora, alegoria social e repetição daquilo que se pretendia combater.

O nome do conto, homônimo ao título do livro, sugere perdas inevitáveis no processo de resistência. O que se perde no fogo não é apenas a integridade física, mas também a possibilidade de imaginar outras formas de enfrentamento da violência. Nesse contexto, a afirmação de Audre Lorde (1988) “Cuidar de mim mesma não é auto indulgência, é autopreservação, e isso é um ato de guerra política” ganha muita relevância. Reivindicar o cuidado e a integridade do corpo feminino é um ato radical, dado que vivemos em uma sociedade que utiliza nossos próprios corpos como recurso sistemático de dominação. A proposta de Lorde estabelece uma lógica oposta àquela observada no movimento das queimadas: enquanto a autora defende a preservação do corpo como forma de resistência, o gesto das mulheres no conto desloca a luta para o terreno da autodestruição.

Seguindo essa linha de raciocínio, Angela Davis (2016), em Mulheres, raça e classe, questiona a ideia de que “a mera adesão a uma lógica punitivista traria soluções efetivas para o combate à violência”. Embora sua análise se concentre na violência institucional, sua crítica permite pensar como respostas baseadas na dor e na punição tendem a fortalecer as estruturas que produzem a violência, em vez de transformá-las. No conto de Enriquez, as cicatrizes que as mulheres exibem como símbolo de luta, mesmo após uma tentativa de ressignificação, continuam sendo marcas da violência patriarcal, pois ao adotarem uma resistência violenta baseada em uma lógica punitivista, elas podem inadvertidamente estar reafirmando as relações de poder que pretendem erradicar. Assim, a automutilação revela-se uma armadilha na busca pela emancipação.

Além disso, em As coisas que perdemos no fogo, as mulheres que participam do movimento passam a ser criminalizadas, sendo abordadas nas ruas e revistadas sob suspeita de portar fósforos ou líquidos inflamáveis. Esse cenário revela como o gesto de resistência é rapidamente absorvido por estruturas de controle social, transformando práticas dissidentes em ameaças à ordem pública. Na passagem em que se afirma “O problema é que não acreditam em nós. Dizemos que nos queimamos porque queremos e não acreditam” (Enriquez, 2017), evidencia-se a descredibilização da palavra feminina: o gesto passa a ser interpretado como loucura ou irracionalidade. Nessa perspectiva, a violência patriarcal também opera na esfera discursiva, desautorizando as narrativas femininas e questionando a credibilidade da denúncia das mulheres. Trata-se de um processo que, como observa Segato (2016), corresponde à “guetificação” da questão da mulher, isto é, ao seu isolamento como problema restrito ao gênero, quando na realidade envolve intrinsecamente a todas as formas de poder: estatais, raciais, culturais e de classe. Ao considerar o gênero como um “termômetro” da cena histórica, Segato mostra que a posição de vulnerabilidade crescente das mulheres não se explica por falhas pontuais nas leis de proteção, mas pela maneira como o patriarcado se articula estruturalmente. Nesse sentido, o que no conto é uma ação política coletiva, passa a ser enquadrado pelo olhar social como loucura e irracionalidade, estratégia que historicamente enfraquece e “guetifica” movimentos de resistência feminina, mantendo as mulheres no lugar de subalternidade.

Baseada nessas leituras, é possível percebermos a armadilha na qual as mulheres acabam caindo: ao recorrerem à mesma lógica de violência que denunciam, tornam-se suas próprias algozes. Afinal, que tipo de luta é essa em que as vítimas ferem a si mesmas para atingir seus agressores?

Portanto, o corpo feminino continua sendo moldado pela opressão e é usado como mecanismo para perpetuar a violência patriarcal. Como aponta Paulo Freire (2019), “os oprimidos, internalizando a imagem do opressor e adotando seus critérios, são ambíguos: desejam ser como o opressor e a ele imitar”. Essa ambiguidade expressa o que o educador chama de dualidade existencial do oprimido: uma condição em que o sujeito, mesmo desejando libertar-se, internaliza valores e práticas do opressor, reproduzindo-os em suas próprias ações. No conto de Mariana Enriquez, as mulheres que se queimam acreditam estar transformando a violência em protesto, mas, ao adotar a mesma arma do patriarcado, o corpo como campo de batalha, parecem reforçar justamente os mecanismos de dominação que pretendiam combater.

Freire (2019) também aponta que os oprimidos vivem sob prescrição cultural, tendo suas ações ditadas por referenciais impostos pelo opressor. É o que vemos nas “queimadas”: ao invés de criar novas formas de resistência, as mulheres se conformam às lógicas já prescritas da violência, acreditando que podem subvertê-la a seu favor. É necessário, portanto, romper com os instrumentos do opressor para que a resistência não caia em armadilhas ou auto sabotagem. O sofrimento não pode permanecer como a única gramática da ação política; é preciso inscrever, sobretudo para as mulheres, outras linguagens políticas que escapem à lógica da dor e apontem para a liberdade e a emancipação genuínas.

 

REFERÊNCIAS

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
ENRIQUEZ, Mariana. As coisas que perdemos no fogo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
LORDE, Audre. A burst of light: Essays. Ithaca, NY: Firebrand Books, 1988.
SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.

 

Mariana Perin Latina, professora e apaixonada por idiomas, livros e pelas possibilidades que existem do outro lado do mundo. Sonha em viajar, conhecer lugares, ouvir histórias e se deixar atravessar por outras culturas. Escreve porque gosta de observar o mundo com atenção e transformar em palavras aquilo que encontra pelo caminho. Graduanda de Letras Português-Espanhol na UFRJ e Relações Internacionais na Mackenzie, tem um olhar humanitário para as questões políticas e se interessa pelos direitos humanos, questões de gênero e, principalmente, pela luta por trás de tudo.

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