19 de outubro de 2026

Migração e mobilidade na capital do futuro em Por cima do mar de Deborah Dornellas

Por Marcella Granatiere

Livro aberto sobre uma mesa de madeira, com marcações coloridas nas páginas.

Foto Fabrizia Granatiere

Por cima do mar (2018), título do romance de Deborah Dornellas, evoca o movimento de deslocamento. A migração, por vezes temporária, outras definitiva, pode ser motivada por um desejo pessoal ou forçada por circunstâncias sociopolíticas. O duo promessa-desencanto entrecruza as experiências de deslocamento: o silêncio de um acontecimento aparentemente ocorrido sem testemunhas e sem deixar vestígios, inserido no dia a dia dos centros urbanos, como no caso do movimento de ir do ponto A ao B, ou do deslocamento forçado causado por guerras, falta de oportunidade de trabalho, crises financeiras e/ou políticas nas temporalidades do presente.

No romance, a circulação de pessoas pelos espaços públicos e privados do Distrito Federal, em funções profissionais “invisíveis” – trabalhadores da construção civil, empregadas domésticas, cozinheiras –, e o contraste entre os monumentos do Plano Central e a precária urbanização da Ceilândia são inscritos em uma temporalidade que entrecruza futuro e passado. A protagonista e narradora, Lígia, usa a metáfora do amor não correspondido para descrever a relação cotidiana entre os trabalhadores e a cidade durante a construção e após a inauguração de seu Plano Piloto:

Uma jovem senhora que nunca amou de verdade.

Se a gente quiser alguma coisa com ela,

tem que deixar o orgulho de lado,

ir atrás, seduzir com os olhos, as mãos, a língua,

ligar várias vezes depois do primeiro encontro,

mandar flores toda semana,

de preferência sempre-vivas do cerrado.

É muito fácil se apaixonar por ela,

mas não espere ser correspondido.

Enquanto você agoniza e chora,

Brasília entardece.

(Dornellas, 2018, p. 105)

Brasília, a capital política e ícone da arquitetura modernista, faz parte do plano de desenvolvimento do interior do Brasil e é a única cidade moderna considerada patrimônio histórico da humanidade pela Unesco. A cidade foi projetada pelos arquitetos modernistas Oscar Niemeyer, responsável pela construção, e Lúcio Costa, realizador do plano urbanístico, para ser o símbolo do projeto de modernização e desenvolvimento do presidente Juscelino Kubitschek (JK). A política do governo de JK volta seu olhar para o futuro – “cinquenta anos em cinco”.

Um futuro construído em meio aos espectros do passado. Os operários, em sua maioria migrantes do Nordeste, além de Minas Gerais e Goiás, conhecidos como candangos, viviam e trabalhavam marcados pelo sistema de continuidade do tempo passado. A narrativa de Dornellas descreve o cotidiano duro da construção do Distrito Federal do ponto de vista dos candangos, mediado pela protagonista/historiadora Lígia, filha do candango Serafim Bemol Brasil. A escuta cuidadosa da historiadora para o relato do companheiro de trabalho de seu pai, o candango Jorge Preto, inscreve a invasão da Guarda Especial de Brasília (GEB) ao acampamento da Construtora Pacheco Fernandes Dantas sob a perspectiva de Jorge:

A GEB tinha sido chamada ao acampamento da Pacheco no sábado, para conter uma revolta dos trabalhadores, que reclamavam da péssima qualidade da comida, às vezes servida estragada, segundo eles, e das más condições, da jornada incessante de trabalho. Os ânimos estavam exaltados. Os candangos, em muito maior número, tocaram os guardas para fora do acampamento. Um destacamento voltou, com mais homens, armas e viaturas. Entraram atirando. Um candango foi morto enquanto dormia. Tudo indica que foi retaliação. O episódio nunca foi esclarecido, há diferentes versões. A das autoridades, a da construtora, as dos candangos. (Dornellas, 2018, p. 85)

Esses acampamentos não demoraram a se tornar residências fixas dos operários. Após a inauguração da capital, não há lugar para os que ajudaram a construí-la. Para os candangos que foram ficando no DF, “depois dos primeiros tempos, começou a faltar trabalho, assistência e, por incrível que pareça, moradia” (Dornellas, 2018, p. 85). A capital modernista é uma cidade partida, compartimentada. Os locais ocupados pelas famílias dos candangos, nomeados favelas ou invasões, são removidos para as cidades satélites. No início de 1971, o governo do DF criou uma campanha de remoção de todos os moradores da Vila IAPI e de outras comunidades. Deram o nome à ação de Campanha de Erradicação de Invasões, CEI. “A sigla virou prefixo, que deu o nome para a nova cidade. Ceilândia nasceu como um lugar de desterro. Hoje, mais de quarenta anos, é a cidade mais populosa do DF”. (Dornellas, 2018, p. 88)

As famílias de Serafim Brasil e Jorge Preto fizeram parte do grupo de moradores removidos da Villa IAPI para Ceilândia. O caminho migratório, de Minas Gerais a Brasília, percorrido por Jorge Preto no início da construção da capital, trazendo na mala o sonho de construir uma cidade onde poderiam viver melhor, é o mesmo caminho de retorno. Após anos de trabalho e remoção compulsória de IAPI, que na perspectiva do candango foi para “tirar nós da vista deles”, e alguns anos vivendo na ausência de melhores condições de vida, Jorge resolve voltar para sua terra natal. Ele leva na mala as memórias atravessadas por um sentimento ambíguo: “Doíam, mas ao mesmo tempo tinha saudade. Talvez de ser jovem de novo, de voltar a sonhar” (Dornellas, 2018, p. 89).

Serafim Brasil e a família ficam em Ceilândia, vivendo entre o excesso e a ausência – o Plano Piloto e a Ceilândia. A reação de Serafim à remoção é uma tristeza silenciosa; posteriormente, a voz da memória sobre os tempos da construção da capital ocupa o lugar do silêncio. As vivências do pai de Lígia são, por vezes, contadas como recordações por Serafim para a filha; outras vezes, são fragmentos das memórias de infância da protagonista: “Ele gostava de contar detalhes sobre a construção do Planalto, do Congresso, e do prédio do Supremo Tribunal Federal” (Dornellas, 2018, p. 98).

Para além de ser um dos cenários da narrativa de Por cima do mar, Brasília pode ser entendida enquanto personagem. À luz de Frantz Fanon, a cidade/personagem se divide entre o excesso – o Plano Piloto “é uma cidade empanturrada, preguiçosa, seu ventre está cheio de coisas boas” – e a falta – Ceilândia “é uma cidade faminta, esfomeada de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz”. As figuras do colonizador e colonizado não mais existem como na antiga estrutura colonial-escravista. Porém, na cidade/personagem, o colonialismo se infiltrou com os seus modos de pensamento (Fanon, 2015, p. 62).

Na cidade/personagem, a migração, a mobilidade e a remoção compulsória configuram as relações de afeto entre os candangos e Brasília – esperança, pertencimento, ressentimento e desencanto. A migração para os candangos significa a esperança de participar, seja da construção da Capital, seja do futuro idealizado por sua arquitetura modernista. A mobilidade em meio às estruturas de ferro da cidade/personagem, que se presentifica, constrói o desejo de pertencimento à nação por ela imaginada. A remoção compulsória, exigida pela Brasília edificada, exclui o seu ‘outro’ - o candango. Um cotidiano marcado pelo ‘amor não correspondido’, violência, ressentimento e desencanto. A relação entre o candango e a capital Brasília se inscreve “a partir dela-mesma e nela-mesma, se explode” (Glissant, 2021, p. 54) em um tempo futuro marcado pelo passado.

Referencias:

DORNELLAS, Deborah. Por cima do mar. São Paulo: Patuá, 2018.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução: Enilce Albergaria Rocha e Lucy Magalhães. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2015.

GLISSANT, Édouard. Poética da relação. Tradução: Marcela Vieira e Eduardo Jorge Oliveira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

 

 

Marcella Granatiere- Sou carioca, moradora da cidade do Rio. Doutora em Literatura, Cultura e Contemporaneidade (PUC-Rio, 2024). Atuou como pesquisadora visitante no instituto WiSER/Wits University, em Johannesburgo (África do Sul, 2022) e leitora incondicional.

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