10 de outubro de 2025

A língua que falamos condiciona nossa visão de mundo

por Matheus Arcaro

 

Entre os linguistas, é muito conhecida a hipótese de Sapir-Whorf. Segundo ela, a linguagem atua como uma espécie de filtro através do qual experimentamos o mundo. De modo mais enfático: a língua que falamos molda de forma profunda como cada ser humano percebe e compreende o mundo. Dois exemplos simples: 

  1. a) dependendo da língua que o sujeito fala e de como ele nomeia as cores, pode ser que ele enxergue ou não determinados elementos (Na Odisseia, de Homero, o oceano é descrito como “cor de vinho escuro” porque em grego antigo não existe palavra para “azul”).
  2. b) enquanto alguns povos amazônicos não possuem sequer uma palavra para “neve”, povos esquimós possuem uma variedade imensa para nomear este fenômeno natural.

Na esteira desses estudos, o linguista norte-americano Caleb Everett publicou o livro “Uma miríade de línguas: como as línguas revelam diferenças na forma como pensamos” (tradução livre). Estudando povos amazônicos, ele constatou, por exemplo, que algumas línguas possuem apenas dois tempos verbais (o futuro e o não-futuro) enquanto outras possuem sete. 

“Em muitas línguas, temos a tendência, por exemplo, de usar metáforas em que o futuro está na nossa frente e o passado está atrás de nós. Mas existem alguns grupos na Amazônia que não falam sobre o tempo dessa forma. Há um caso famoso de língua Tupi Kawahib, onde eles nem falam sobre tempo em termos de espaço. Quando uma língua como o inglês tem três tempos, algumas línguas têm até sete tempos.”

Everett pede para pensarmos na frase: “Na segunda-feira passada eu corri por 30 minutos”. Ora, mas o que são 30 minutos? Minuto é algo definido cultural e linguisticamente, algo que vem de um sistema numérico de base 60 que remonta à Mesopotâmia. Esse exemplo simples nos mostra que a maioria das coisas que, para nós ocidentais parecem naturais, são culturalmente absorvidas, ou seja, são antinaturais para muitas pessoas.

“Reflita o quanto o seu dia é ditado olhando os relógios e pensando onde você tem que estar em um determinado horário e em determinados minutos. Isso tudo é arbitrário.”

É interessante notar que entre 1869 e 1873 (portanto há mais de 150 anos!), um jovem filólogo chamado Friedrich Nietzsche já colocava em debate esses temas. Peguemos três textos não publicados dele (que foram a fundamentação da minha dissertação de Mestrado):

Em “Da retórica”, Nietzsche afirma que as palavras são metáforas de sensações. Ao falar, transformamos experiências sensoriais em conceitos abstratos. A linguagem, portanto, não reflete a realidade objetiva, mas uma cadeia de traduções e reduções. 

Em “Sobre a origem da linguagem”, Nietzsche mostra que, ao nomear os objetos, o ser humano constrói um mundo artificial, estabelecendo categorias fixas para aquilo que é fluido e diverso na experiência real.

Por fim, em “Sobre verdade e mentira no sentido extramoral”, Nietzsche descontrói a noção de verdade, argumentando que o que chamamos de "verdade" é uma construção linguística; um acordo coletivo para facilitar a convivência. Em uma frase: a verdade são metáforas gastas, expressões que se tornaram tão habituais que esquecemos sua origem metafórica. 

Além do interesse linguístico intrínseco, essa breve reflexão pode ser um convite para refletirmos sobre:

  1. a) cada um de nós enxerga o mundo a partir de recortes bastante arbitrários. 
  2. b) para todas as coisas existem inúmeras possibilidades interpretativas. 
  3. c) tomar noção disso pode ser o ponto de partida para desconstruirmos nossos preconceitos.

 

Matheus Arcaro é mestre em Filosofia pela Unicamp. Professor de filosofia, sociologia e história da arte. Escritor com 8 livros publicados entre romance, conto, poesia, filosofia e infantil.