A língua que falamos condiciona nossa visão de mundo
por Matheus Arcaro
Entre os linguistas, é muito conhecida a hipótese de Sapir-Whorf. Segundo ela, a linguagem atua como uma espécie de filtro através do qual experimentamos o mundo. De modo mais enfático: a língua que falamos molda de forma profunda como cada ser humano percebe e compreende o mundo. Dois exemplos simples:
- a) dependendo da língua que o sujeito fala e de como ele nomeia as cores, pode ser que ele enxergue ou não determinados elementos (Na Odisseia, de Homero, o oceano é descrito como “cor de vinho escuro” porque em grego antigo não existe palavra para “azul”).
- b) enquanto alguns povos amazônicos não possuem sequer uma palavra para “neve”, povos esquimós possuem uma variedade imensa para nomear este fenômeno natural.
Na esteira desses estudos, o linguista norte-americano Caleb Everett publicou o livro “Uma miríade de línguas: como as línguas revelam diferenças na forma como pensamos” (tradução livre). Estudando povos amazônicos, ele constatou, por exemplo, que algumas línguas possuem apenas dois tempos verbais (o futuro e o não-futuro) enquanto outras possuem sete.
“Em muitas línguas, temos a tendência, por exemplo, de usar metáforas em que o futuro está na nossa frente e o passado está atrás de nós. Mas existem alguns grupos na Amazônia que não falam sobre o tempo dessa forma. Há um caso famoso de língua Tupi Kawahib, onde eles nem falam sobre tempo em termos de espaço. Quando uma língua como o inglês tem três tempos, algumas línguas têm até sete tempos.”
Everett pede para pensarmos na frase: “Na segunda-feira passada eu corri por 30 minutos”. Ora, mas o que são 30 minutos? Minuto é algo definido cultural e linguisticamente, algo que vem de um sistema numérico de base 60 que remonta à Mesopotâmia. Esse exemplo simples nos mostra que a maioria das coisas que, para nós ocidentais parecem naturais, são culturalmente absorvidas, ou seja, são antinaturais para muitas pessoas.
“Reflita o quanto o seu dia é ditado olhando os relógios e pensando onde você tem que estar em um determinado horário e em determinados minutos. Isso tudo é arbitrário.”
É interessante notar que entre 1869 e 1873 (portanto há mais de 150 anos!), um jovem filólogo chamado Friedrich Nietzsche já colocava em debate esses temas. Peguemos três textos não publicados dele (que foram a fundamentação da minha dissertação de Mestrado):
Em “Da retórica”, Nietzsche afirma que as palavras são metáforas de sensações. Ao falar, transformamos experiências sensoriais em conceitos abstratos. A linguagem, portanto, não reflete a realidade objetiva, mas uma cadeia de traduções e reduções.
Em “Sobre a origem da linguagem”, Nietzsche mostra que, ao nomear os objetos, o ser humano constrói um mundo artificial, estabelecendo categorias fixas para aquilo que é fluido e diverso na experiência real.
Por fim, em “Sobre verdade e mentira no sentido extramoral”, Nietzsche descontrói a noção de verdade, argumentando que o que chamamos de "verdade" é uma construção linguística; um acordo coletivo para facilitar a convivência. Em uma frase: a verdade são metáforas gastas, expressões que se tornaram tão habituais que esquecemos sua origem metafórica.
Além do interesse linguístico intrínseco, essa breve reflexão pode ser um convite para refletirmos sobre:
- a) cada um de nós enxerga o mundo a partir de recortes bastante arbitrários.
- b) para todas as coisas existem inúmeras possibilidades interpretativas.
- c) tomar noção disso pode ser o ponto de partida para desconstruirmos nossos preconceitos.
Matheus Arcaro é mestre em Filosofia pela Unicamp. Professor de filosofia, sociologia e história da arte. Escritor com 8 livros publicados entre romance, conto, poesia, filosofia e infantil.
