os nomes dos buracos de dentro
Nomear é dar existência à alguma coisa. Não à toa, muitas vezes, antes de uma criança existir, os pais já escolhem um nome. É verdade que conheci alguns casais que deixaram para escolher quando a criança nasceu, porque queriam vê-la primeiro e decidir qual cara ela tinha. Mas nomear é juntar uma palavra a uma ideia, e nesse caso, é inaugurar o ser nascido que não sabe nada ainda do mundo que o cerca. O nome, ainda que não seja destino, é a projeção de um. Nossos nomes são o desejo dos pais transmutado em homenagens, em invenções fonéticas… ou ainda em esperança. O poeta e escritor chileno Alejandro Zambra disse que escolher o nome de um filho é o primeiro ato literário dos pais, é dar nome ao livro que ainda será escrito.
Eu, enquanto escritor, tenho um profundo interesse pelas palavras e de onde elas vêm. Dia desses, me peguei procurando a etimologia da palavra “madrugada”, porque ao tentar me expressar em inglês, descobri que, nessa língua, esse período de tempo não existe. Você tem “tarde da noite”, mas não tem A madrugada, essa entidade que existe entre a noite e a manhã, e onde tudo pode acontecer. Meu ponto é que a palavra cria a possibilidade da experiência. Essa relação entre os nomes que damos e a experiência que criamos é o que me levou a refletir sobre alguns nomes próprios.
Vitor, Raquel, Júlia, Henrique e Jorge. Eles são os personagens do romance “Buraco de Dentro” da jornalista e escritora cearense Ana Márcia Diógenes, publicado pela editora Patuá em 2024 e que foi finalista do Prêmio Oceanos 2025. A história retrata a fuga de Vitor junto com a família para dentro de um bueiro para tentar fugir da retaliação de um traficante da região onde eles moravam. Todo o livro vai ser narrado em primeira pessoa, inicialmente com relatos da vida do personagem dentro do bueiro. A pressão do confinamento empurra Vitor de volta para a própria vida, e o romance se abre em camadas de memória e ajuste de contas.

Vitor vem do latim e significa vitorioso, aquele que venceu, mas a sensação lendo o livro é de que ele só perde. Essa perda, narrada em primeira pessoa, confere ao leitor uma visão crua e íntima do abismo entre o nome e a realidade vivida. Desde cedo, perde o direito de ser criança para trabalhar catando lixo e sentindo a dor da fome. Perde a saúde e a dignidade que deixam marcas no próprio corpo, com os dentes que apodrecem, a unha encravada que nunca sara. Perde progressivamente a família de origem, e perde até o direito de ser reconhecido como um ser humano, retirando dele qualquer chance de se sentir um vencedor.
Ele sobrevive através da vontade de proteger a família, e conta com o apoio da companheira Raquel, cujo nome de origem hebraica significa ovelha. No esconderijo, ela vive aterrorizada, como um animal ferido, tremendo e se arranhando de pavor das baratas e ratos do local, passando os dias e as noites rezando incessantemente, balançando o corpo e acreditando que um anjo de asas cuidaria da família. No desespero da fome dentro da boca de lobo, ela abdica de quase toda a sua comida para entregar aos filhos. Seu corpo sofre calado pelo seu rebanho, permitindo que o caçula continue sugando seus peitos já murchos e sem leite, mesmo quando os dentes da criança a ferem e a fazem sangrar: o sangue do cordeiro, o sacrifício que ecoa sua intensa religiosidade, o significado de seu nome reforçam a tragicidade de quem nunca foi visto como gente.
Os filhos, Júlia, Henrique e Jorge, carregam nomes igualmente irônicos diante da tragédia que os cerca. Júlia vem do latim e significa jovem, cheia de juventude, e é exatamente a sua juventude que atrai a maldade de Pezão, o traficante que tenta aliciá-la com pulseiras e anéis de plástico, estopim de toda a fuga e quer pisar, esmagar a família. Henrique, de origem germânica, significa senhor do lar, governante da casa, mas ele nunca teve casa alguma: nasceu na calçada, amparado por uma moradora em situação de rua, porque os pais não tinham dinheiro para chegar até a maternidade, e cresceu para ser aprisionado nas paredes imundas de um bueiro. Jorge, do grego, é aquele que trabalha a terra, mas a única terra que ele conhece é o asfalto quente sob o qual está enterrado vivo, e o único contato que tem com o chão resulta no desespero da fome, que o leva a mastigar as baratas que dividem o esconderijo com a família na primeira cena do livro.

Ana Márcia Diógenes
Volto a Vitor, o derrotado. No andar de baixo das cidades, onde sobreviver já é uma luta brutal, as vitórias têm outra medida. Ele nunca aceita passivamente as agressões à família: briga quando é humilhado, tenta salvar a filha do assédio e, no ato de maior coragem, ateia fogo no esconderijo de Pezão para proteger Júlia, mesmo sabendo o que isso custaria. O seu maior troféu, ele mesmo declara, é a união deles: “Meu orgulho é continuar junto, os cinco. Minha maior certeza é que pra onde a gente for, vai ser junto. Não tem destino separado. No bom e no ruim. Se tem mermo esse negócio de destino, o nosso é tá junto pra sempre”. A maior vitória é a família junta até o final.
Parece uma provocação, ou melhor, uma convocação, da autora para que encaremos a invisibilidade social, a miséria, a fome e o trauma geracional que moldam corpos e destinos antes mesmo que qualquer escolha seja possível. Vitor duvida do destino, mas destino também é um nome que a gente coloca na forma como nossas vidas se desenrolam, alheias à nossa vontade, e quando a sociedade se recusa a nomear certas pessoas, está, na prática, decidindo o destino delas por omissão. Raquel sangrou em silêncio, Vitor perdeu tudo que um homem pode perder, e os filhos cresceram sem chão.
Não é um livro simples de ser lido. Apesar da escrita clara e coesa da autora, ela decidiu não nos poupar. São poucos os momentos de respiro, e o mergulho é fundo. Mas se você conseguir voltar à superfície, vai carregar o incômodo do que viu, e ele vai continuar te puxando para baixo. Talvez seja esse o ponto: a literatura que não incomoda não cumpre o seu papel de nos fazer enxergar o que preferimos não ver.
Se Zambra tem razão, e nomear um filho é o primeiro ato literário, Ana Márcia Diógenes fez isso por pessoas que o mundo preferiu deixar sem nome. Ao dar nomes a esses sem-nome, conferiu existência aos personagens e as histórias reais que estão por aí no mundo. Esse livro é, antes de tudo, um ato de nomeação, para tudo que há no buraco de dentro.

