O mundo do teatro
No teatro, há uma expressão muito utilizada durante o processo de criação: “Traga o olhar para fora.” Essa frase nos convida não apenas a voltar a atenção para o espaço e as pessoas ao nosso redor, mas também a permitir que o nosso olhar esteja vivo durante a cena. Sempre que repito esse exercício, imagino que estou pescando — capturando o sentimento que minha mente faz emergir lá de dentro de mim e o trazendo para fora. Ao trazer esse olhar à tona, permitimos que o público enxergue — quase como se estivessem espiando por uma janela — a vida que está sendo desenvolvida e gerada ali dentro daqueles corpos.
Fazer teatro, para mim, é isso: ter o poder da criação. E, a cada ensaio, ir moldando esse corpo, entendendo sua complexidade, seus limites e sua potência. Quase como uma mãe que gesta um filho, nós, atores, também passamos por uma espécie de gestação. Toda essa construção acontece internamente. Mas, ao contrário do bebê, que só é exposto ao mundo quando está inteiramente formado, nosso personagem vai se revelando aos poucos — se expondo um pouco mais a cada novo entendimento que temos sobre sua essência. Ser ator é ser eternamente um estudante — estudando, com honestidade, a crueza do ser.

O teatro me possibilita, assim, não apenas viver a dissociação e adentrar outras mentes, mas construir cada pequena ponte neuronal dessas mentes e cada veia pulsante desses corpos. Entendendo não só a importância do simples ato de ser, mas também a importância da minha própria existência. Eu não necessariamente preciso gostar de teatro — embora goste —, mas eu preciso dele. Há algo distinto na cabeça de um artista que o faz enxergar certas coisas no mundo que outras pessoas não conseguem. Essas coisas escapam à lógica do utilitarismo e, por isso, são frequentemente ignoradas por mentes que foram treinadas para serem assim. Porém, não existe repetição suficiente que faça com que a mente de um artista ignore essas belezas escondidas. E, com todo nosso afinco, fazemos o possível para trazê-las à vista dos menos afortunados. Não tanto por eles — eu confesso —, mas porque gostaríamos que a nossa realidade pudesse ser banhada por esses detalhes, que não são detalhes, e sim mundos inteiros presentes no mundo que já conhecemos.
Quando compreendi que o teatro me dava abertura para viver e abraçar essa diferença que por tanto tempo esteve oculta — apenas para se adequar aos padrões exigidos pela sociedade —, bati meus pés naquele tablado e proclamei, como quem assina uma sentença de vida, que não os tiraria dali. Que permaneceria com eles fincados no palco, até que fosse levada ao meu último ato, a sete palmos do chão. E desde então, vivo essas realidades que não se adequam ao significado que deram ao “real”, compartilhando com quem se sinta impelido a viajar para além dos limites do tangível, rumo aos territórios invisíveis onde a imaginação, a memória e o afeto constroem mundos tão palpáveis quanto qualquer chão que se possa pisar.
Maria Júlia Montoro, estudante de Artes Cênicas na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Atua em projetos de Escrita Criativa e desenvolvo dramaturgias voltadas à criação de espetáculos dentro da universidade. Seu trabalho busca explorar a relação entre palavra, corpo e cena na construção de narrativas teatrais.
