Clubes de leitura como espaço de reflexão e diálogo
Por Thaís Gurgel
O poder da conversa em encontros literários
Ler é uma atividade individual por natureza, pede concentração para compreender e refletir sobre um livro. No entanto, torna-se coletiva em espaços que promovem o diálogo e amplificam as interpretações da obra, como acontece em clubes de leitura.
Nesse tipo de encontro, presencial ou online, um grupo se reúne para trocar ideias sobre um livro específico. Mas de que maneira transformá-lo em espaço propício à reflexão? Como estimular as pessoas a expressar seus pensamentos e estar abertas a ouvir opiniões diferentes da sua? Como promover um diálogo, e não um monólogo?
A participação em um clube de leitura pode ser motivada pelo desejo de compartilhar impressões, criar ou manter o hábito de ler, fazer parte de um grupo, conhecer novas pessoas, entre outras razões. O que há em comum é o desejo de expandir a leitura para além de uma atividade individual.
Enquanto lemos, podem surgir pensamentos e reflexões que nos arrebatam:
Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com frequência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de ideias, excitações, associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler levantando a cabeça? (BARTHES, 2004, p. 26).
Essa reflexão individual com o livro pode criar o desejo de dividir suas percepções com alguém, participando de um clube de leitura, seja ele independente ou associado a instituições de ensino, bibliotecas, livrarias, editoras, entre outras entidades.
Nesse sentido, vale identificar se o grupo escolhido contribui para o objetivo de troca de experiências, ou se na verdade é um espaço mais voltado à palestra ou aula acerca do livro, em que apenas uma pessoa detém a palavra.
Mais do que ler, participar de um clube é também um exercício de escuta. Geralmente, durante uma ou duas horas, a palavra circula para além das páginas que a autora ou autor escreveu, e ganha novos sentidos nas vozes das pessoas. Para ajudar nessa dinâmica, é interessante que haja uma mediação.
Janine Durand e Luciana Gerbovic são mediadoras de clubes de leitura, um papel que pede atenção aos elos fundamentais de um clube: livros, experiência de leitura, pessoas e compartilhamento coletivo, como revelam em seu livro Clubes de leitura - uma aposta nas pequenas revoluções:
Na mediação, a ideia é sempre passar a palavra, trançar ideias e posicionamentos, equilibrar as falas e não dar aulas ou monopolizar o tempo disponível no encontro. Em um clube de leitura, o protagonismo é do grupo, e não da mediadora. (DURAND, GERBOVIC, 2024, p. 67).
Desse modo, o respeito à individualidade de cada leitor(a) passa pelo reconhecimento de seu repertório e entendimento de que há múltiplas interpretações do texto quando compartilhado.
A mediação estimula o diálogo, provoca questionamentos e mantém o foco da discussão durante o encontro. Mas antes disso, vale lembrar outro papel fundamental: o da curadoria. Escolher os livros com base na bibliodiversidade, perfil de participantes, mediação e tempo hábil de leitura, são fatores importantes para a melhor experiência do grupo.
Pensando na bibliodiversidade, mesmo num clube onde haja um eixo temático - por exemplo, livros de autoras brasileiras -, é possível diversificar os gêneros literários, temas, editoras e características das autoras como suas culturas, etnias, realidades sociais, etc. Isso amplia as vozes e o repertório de quem participa.
Conhecer histórias diferentes é fundamental para desenvolver pensamento crítico e evitar a perpetuação de estereótipos, como destaca a autora nigeriana Chimamanda Adichie em seu discurso no TED Talk em 2009, que posteriormente tornou-se livro também:
Eu amava aqueles livros americanos e britânicos que lia. Eles despertaram minha imaginação. Abriram mundos novos para mim, mas a consequência não prevista foi que eu não sabia que pessoas iguais a mim podiam existir na literatura. O que a descoberta de escritores africanos fez por mim foi isto: salvou-me de ter uma história única sobre o que são os livros. (ADICHIE, 2009, p. 9).
Ao ler ou ouvir uma história, podemos aprender com ela sem exatamente vivê-la. Já ao compartilhar com outras pessoas, a narrativa adquire novos sentidos a partir do repertório de cada pessoa.
A troca de experiências possibilita autoconhecimento (ao falar de si, de suas impressões, de como se sentiu ao ler), conhecimento do outro (ao ouvir suas percepções) e conhecimento do mundo (ao ler o livro que alguém escreveu e compartilhar saberes).
Assim, um clube de leitura com múltiplas vozes (de autoras/autores e participantes) contribui para o autoconhecimento, pensamento crítico, empatia e laços sociais, como destaca o artigo “Leitura e bem-estar: o papel dos clubes de leitura na saúde mental”:
A prática regular de leitura nesses clubes está associada ao aumento do prazer e da frequência de leitura, o que contribui para reduzir o estresse e proporcionar momentos de relaxamento. O ambiente social desses encontros, onde os participantes podem trocar ideias e experiências sobre os livros, ajuda a criar conexões sociais, fortalecendo o apoio emocional e combatendo a solidão. (PEIXOTO PEREIRA MARTINS, H. et al., 2024, p. 4562).
O ambiente e o tempo adequados também propiciam maior engajamento. Seja num ambiente online com ferramentas para cada pessoa falar (abrir o microfone, levantar a mão, criar salas de conversa simultâneas) ou presencial (roda de conversa em um lugar acolhedor e confortável), os encontros frequentes (geralmente mensais, com 1 ou 2 horas cada) criam um rito e favorecem a conexão do grupo.
Encontros bem conduzidos podem até transmitir a sensação de que o tempo passou rápido e que conhecimentos de diferentes épocas se reuniram no mesmo lugar. Essa é uma das características da heterotopia segundo Michael Foucault: um espaço-tempo que funciona com suas próprias regras. Para ele, bibliotecas se enquadram nesse conceito (2013, p.37), e é possível crer que clubes de leitura correspondem à mesma ideia.
Para finalizar, é importante observar que num mundo cada vez mais individualista e fragmentado, espaços de convivência que promovam a reflexão e o diálogo são fundamentais para manter nossa humanidade.
O autor Ailton Krenak fala sobre isso em Ideias para adiar o fim do mundo.
Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim. (KRENAK, 2019, p. 26-27).
Por fim, o autor Daniel Munduruku diz que o bom encontro é aquele do qual saímos melhor do que quando chegamos. Requer abertura e disponibilidade para troca de experiências, é onde a gente fala, ouve, aprende, ensina e se humaniza. Que este breve ensaio, a literatura e os clubes de leitura, sejam encontros como esse.
Referências
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Tradução Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
BARTHES, Roland. O rumor da língua. Tradução de Mário Laranjeira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
DURAND, Janine; GERBOVIC, Luciana. Clubes de leitura - uma aposta nas pequenas revoluções. Lauro de Freitas: Solisluna Editora, 2024.
FOUCAULT, Michael. O corpo utópico, as heterotopias. Tradução de Salma
Tannus Muchail. São Paulo: n-1 Edições, 2013.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
PEIXOTO PEREIRA MARTINS, Hermelinda et al. Leitura e bem-estar: o papel dos clubes de leitura na saúde mental. Revista Sociedade Científica, v. 7, n. 1, p. 4562, 2024. Disponível em: https://journal.scientificsociety.net/index.php/sobre/article/view/778 Acesso em: 25 mar. 2026.
Thaís Gurgel acredita que ler, escrever e conversar são caminhos de conexão entre as pessoas. Escritora e mediadora de leitura, é formada em Comunicação Social e pós-graduada em Filosofia, Artes e Literatura pela PUCRS. Autora do livro “O amor acaba nos almoços de domingo” (Patuá, 2024) e da newsletter “Tha escrito” no Substack.

