28 de outubro de 2026

Território e erotismo em Florbela Espanca e Mariana Ianelli: linhas e diálogos

Por Clarissa Mäcedo

Antúrios de diferentes cores entre folhas verdes.

Antúrio. Retirado do Google. Crédito: iStock.

O feminino, no transcurso do tempo, vem sendo associado a um erotismo profano, à sedução, ao uso do corpo como moeda de troca, até mesmo ao monstruoso, entre outras conotações. Em civilizações antigas, como a mesopotâmica, a deusa Ishtar, ou Innana, detinha múltipla representação: divindade da guerra, da atração sexual, da fertilidade e do amor. Vale indicar que muitas foram as divindades femininas em diferentes culturas e períodos históricos vinculadas ao exercício da sexualidade e da afetividade em sentido amplo.

Com o advento das religiões monoteístas, com relevo para o cristianismo, o culto às divindades femininas perdeu força, sendo suprimidas em detrimento da imagem masculina do divino, também castrador, nalguns momentos, do sexo pleno das mulheres — lembremos da figura de Maria Madalena da era cristã, uma das poucas mulheres que detêm algum tipo de proeminência na narrativa bíblica e cujo ofício é o da prostituição.

Vênus, como deusa da mitologia romana, também aparece ligada à imagem do amor, do sexo e da fecundidade. No que concerne a ela, adiciona-se o componente da beleza como aspecto integrante de sua sacralidade. Em relação à Afrodite, Vênus dista de sua especular grega pela associação à vitória bélica, precisamente, característica que a aproxima de Ishtar.

Nota-se, a partir deste pequeníssimo e despretensioso panorama, que o sexo, na esfera do divino, por muito esteve representado por figuras femininas, demonizadas pelo raiar do cristianismo institucionalizado pela Igreja Católica e depois adensado pelo protestantismo, tomado pela burguesia como justificativa para diversas arbitrariedades.

Por volta de meados da primeira metade do século XX, Charneca em flor, de Florbela Espanca, chega a público, um mês após o suicídio da poeta portuguesa. Injustamente intitulada de “moralmente perniciosa” (Dal Farra, 2002), cuja vida privada foi um “péssimo exemplo” segundo seus detratores, animados pela Igreja Portuguesa, Espanca explorou, com profundidade, vasto imaginário sobre o erotismo nalgumas de suas vertentes, a exemplo da sedução, da volúpia e do amor, carnal e sagrado.

Guardadas as proporções, Florbela, cuja biografia, quase sempre deturpada, amalgamou-se, segundo leitores do Estado português, à sua poética, sofreu um apagamento, ainda que provisório, reproduzindo o rechaço das divindades, personalidades e figuras femininas “eróticas”.

De refinado erotismo, a obra florbeliana nos apresenta poemas como “Realidade”, mencionado a seguir:

Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho…
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho…

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo da Espanha, em taça cinzelada…
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho…

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que nasci…

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei… se te perdi…

(Espanca, 2015, p. 96).

O notável e sugestivo apelo erótico se desenha nos versos de “Realidade”, cujo título anuncia a concretude da vontade em oferta delineada nas estrofes do poema. As cores quentes, “rubra”, “morena” e “verbena”, caracterizam partes do corpo do eu lírico, que se entrega em paixão ao ser amado.

A voz, a cabeleira e o beijo são dispositivos de força do acirramento do desejo, posto em dúvida quando supostamente saciado, materializado. O uso da conjunção condicional “se” e das reticências — suspensão, interdição, abertura — no verso que encerra o poema, enlanguescem a matriz solar que é alicerce do “real” florbeliano.

A realidade que nomeia o poema em foco contrapõe-se à dúvida que o remata, “Não sei se te encontrei… se te perdi…”. O vinho que a embriaga e o elemento do ninho cintilam perdição e abrigo, torneando o vigor erótico do texto.

Poemas como “Nervos d’oiro”, “Se tu viesses ver-me...” e “Mais alto”, também de Charneca em flor, dialogam com “Realidade”, conformando silhuetas do erotismo, esbatido, entre outros espaços, no corpo.

Um sofisticado e alusivo erotismo habita também a obra de Mariana Ianelli, sob a pele de um eu lírico localizado na contemporaneidade. A poeta brasileira — cuja obra, reconhecida e volumosa, para alegria das leitoras e leitores — em Vida dupla, livro tomado para a produção do corrente texto, enfatiza “[...] a beleza e o jogo [...]”. Simone de Andrade Neves (2022, p. 8) afirma que há “[...] no limiar das partes apresentadas em fendas” “uma direção para ler o poema.”.

O jogo da realidade que ultrapassa o real acampado em si mesmo, possibilita, entre outras conjecturas, acercar-se de um corpo que subjaz quando se funde ao erótico da palavra que clarifica a matéria.

Em “dois”,

Havemos de nos tocar

também assim

os olhos de um onde

os olhos do outro

o corpo de um onde

o corpo do outro

havemos de nos penetrar assim

um na fabulação do outro

havemos de ser às vezes esses dois

foragidos da solidão

(Ianelli, 2022, p. 13).

Em Georges Bataille (2017), n’O erotismo, esta categoria é perseguida sob inúmeros contornos. Indaga o autor:

Que significa o erotismo dos corpos senão uma violação do ser dos parceiros? Uma violação que confina com a morte? Que confina com o assassinato?

Toda a operação do erotismo tem por fim atingir o ser nos mais íntimo, no ponto em que o coração desfalece. A passagem do estado normal ao de desejo erótico supõe em nós a dissolução relativa do ser constituído na ordem descontínua. Esse termo, dissolução, corresponde à expressão familiar vida dissoluta, ligada à atividade erótica (Bataille, 2017, p. 41, grifo do autor).

A violação do corpo poder se dar através da comunhão: um ser que adentra o outro — uma só carne, um só corpo, alude a Bíblia. Violá-lo é transpô-lo, é chegar ao mais íntimo, tocá-lo de maneira incisiva; é também o descobrir (tirando o que antes o encobria), invadi-lo, devassá-lo por fim. Receber um ao outro, entrar um no outro, tornam-se, assim, atos de transgressão.

O assassínio do desejo e a morte, a pequena morte tão posta em evidência na literatura, confundem-se na conflagração do erotismo, desaguando na altura em que esfalece o coração — alma, espírito; a Ânima dos antigos. A descontinuidade e a dissolução do ser no ofício erótico têm que ver com a união de anseios e do corpo e da alma. O erotismo, então, como se pode verificar, é uma cartografia dilatada em que impera uma conjugação de alteridades, numa quebra consentida.

Quando o duplo de Ianelli (2022) aponta o toque, o corpo, a fabulação e a solidão em fuga, estabelece linhas que transcendem a culpa, a máquina e o negócio, restaurando o caráter de festa do corpo, como sentenciou Eduardo Galeano.

O ente corpóreo, erótico por excelência, quando no exercício do erotismo, opera uma desterritorialização, acepção mais profunda que o fato de negar, separar ou mesmo findar um espaço, como expressa o prefixo des-. Desterritorializar, neste campo semântico, que é sempre político, implica desalojar significados, sem a necessidade de se “[...] deixar efetivamente o território [...] mas aquilo que há pouco era uma função constituída no agenciamento territorial, torna-se agora o elemento constituinte de um outro agenciamento, o elemento de passagem a um outro agenciamento” (Deleuze; Guattari, 1997, p. 116).

Quando se tem a passagem a outra coisa, diferente da primeira, tem-se algo outro que constituirá um dado território, em perene movimento. No que concerne à Ianelli e Espanca, ambas conversam, sob a tônica do erótico, por meio de desterritorializações do corpo, sacando-o da interrupção instituída do prazer feminino e movendo-o ao território acidentado do deleite profundo dos sentidos em franca atividade erótica.

As autoras, de tempos distintos, de construção poética diferente, mas cuja linguagem se aproxima pelo acentuado primor estético e, por vezes, pela cifra da paisagem erótica, acionam elementos que nos permitem fruir, questionar e nos apropriar de uma erótica feminina, tão violentada, cerceada e punida ao longo da História.

Referências

BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução: Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução: Suely Rolnik. São Paulo: Editora 34, 1997. v. 4.

DAL FARRA, Maria Lúcia. Florbela erótica. Cadernos Pagu, v. 19, p. 91-112, 2002.

ESPANCA, Florbela. Charneca em flor. Antologia poética de Florbela Espanca. São Paulo: Martin Claret, 2015.

IANELLI, Mariana. Vida dupla. São Paulo: Peirópolis, 2022.

NEVES, Simone de Andrade. Prefácio. In: IANELLI, Mariana. Vida dupla. São Paulo: Peirópolis, 2022.

 

 

Clarissa Mäcedo (Salvador/BA), doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, agente cultural, pesquisadora e professora da UNEB. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e exterior. Integra coletâneas, revistas, blogs e sites. Publicou O trem vermelho que partiu das cinzas, Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, traduzido ao espanhol — Espanha e Peru), O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição, A casa mais alta do teu coração (Prêmio Biblioteca do Paraná) e Missal ou o livro das falenas. Integrou o Circuito de Autores, do Sesc. É a idealizadora da Feira Literária de Autoras Baianas e do Sarau Cartografias. Edita a bangüê.

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