“Velha Roupa Colorida” e a cismundaneidade de Belchior
Por Thauan Pastrello
A canção poema intitulada “Velha Roupa Colorida”, lançada em 1976, ratificou a capacidade, criatividade e a radicalidade de seu criador, Antônio Carlos Gomes Belchior. Diante do flagelo da censura e da tortura infligida à tantos pela autocracia militar brasileira, sob as botas autoritárias e os porões e prisões do regime de inspiração fascistas que assolou o país por 21 anos intermináveis.
Embora uma análise da profundidade das letras de Belchior já seja uma espécie de clichê, pois ele caiu no gosto de uma juventude mais ou menos esclarecida, que tinha, entre muitos dos seus sonhos, a superação de um passado nefasto em que o tanto o criador quando a criatura estava inserida. Mas, de fato, a obra desse grande letrista carrega consigo uma complexidade que pode ser identificada pela constelação de sua crítica e pela superação da particularidade que lhe margeia, que ainda mais raro no meio musical atual. É como disse o velho Lukács, toda obra de arte parte tem a particularidade como categoria central, com o perdão do filosofismo, explicamos. Isso significa que o artista que se atribui a “genialidade”, supera, na limitação da particularidade de suas questões pessoais singulares e eleva, ainda que arrastando resquícios do passado, a uma universalidade na própria particularidade. Isto reafirma e retira o véu idealista que atribui socraticamente uma capacidade metafisica, um dom divino do poeta. Atualidade dos elementos da canção que reivindicam e justificam essa escrita estão presentes, ou melhor, são identificáveis, sentidos e percebidos, por todos nós que escutamos a canção na constatação de sua validade concreta, universal para nossa época.
Belchior tem profundidade, objetividade e, acima de tudo, uma cismundaneidade precisa. Vejamos o que isso significa.
A importância de referir-se a esta obra significativa vai além das razões evidentes que sustentam sua relevância no momento presente. O que torna essa referência crucial é sua capacidade de revelar e oferecer diferentes perspectivas interpretativas que, embora paradoxais, as quais merecem a atenção dos leitores e sujeitos históricos do tempo presente. Não se trata de simplesmente olhar para o passado e utilizá-lo de forma anacrônica como um modelo, o que resultaria em uma nostalgia paralisante. Pelo contrário, a abordagem adequada consiste em criticamente extrair lições daquela realidade, com os olhos firmemente fixados no futuro.
A justaposição de um viés paradoxal pode desdobrar-se em duas tendências salientes, além de outras nuances e camadas menos complexas. Ambas reivindicam pressupostos teórico e políticos que dispensam a atenção neste momento. Em poucas palavras, nessa letra, se comparada a um rio corrente da realidade social não existem dois leitos, porém duas margens que conduzem o caudal da nascente a afluente onde, de um lado a margem bruta da i) possibilidade de uma intepretação bem otimista, diante da anunciação do surgimento de algo novo: “Você não sente, não vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/que uma nova mudança em breve vai acontecer”; e, também a ii) interpretação que ressalta a penumbra poética melancólica e fatalista, aferroadas aos grilhões enferrujados, sem adornos, da barbárie da tragédia características da decadência e do autoritarismo daquela época de ditadura. Ocorre que as margens não se restringem as beiradas que lhe cerca, mas também correspondem ao côncavo fundo do rio que, via de regra, ocultam seus meandros e escondem justamente as sinuosidades, a ação da erosão e acumulam a deposição de detritos que a observação a partir do fino espelho superficial induziriam tomar a parte pelo todo, um equívoco.
Podemos supor mais do que isso, talvez seja possível uma distinta interpretação diante da vazão e da foz. Esta, por sua vez, uma ideia ainda menos difundida nas análises mais comuns apegadas ao cientificismo, ao pragmatismo e até mesmo as interpretações supostamente dialéticas e autoproclamadas críticas.
Parece posto para o autor que haja a necessidade de uma superação – não como esperançar do subjetivismo fenomenológico e abstrato, do passado –, mas que novo precisa acontecer À força, de que seja preciso ser arrancado do futuro, caso contrário, não sairemos jamais do atoleiro do passado, como na canção “Como Nossos Pais” em que “na parede da memória essa lembrança é um quadro que dói mais”. E que, apesar de “termos feito tudo” não superamos o passado. Belchior anseia não apenas pela necessidade de que o novo venha, mas também pela certeza de que ele virá, independente da nossa vontade. Não significar que o novo será bom, mas um acontecimento imperativo.
É sabido também que a obra de Belchior trata, acima de tudo, da trajetória do migrante, que vem do Norte (até então a denominação era de um grande norte que o hoje nordeste faz parte), e vem pro Sul, cidade grande, como em “Fotografia 3x4”, “Galos Noite e Quintais”, e tantas outras canções do poeta sobralense. Então, ao afirmarmos que as diversas referências na canção se confundem com aquilo que é autoral, e mesmo assim mantem a originalidade perfeita e intacta”, significa afirmar que Belchior conseguiu, justamente isso, transmitir, por meio da sua particularidade, não mais centrada no seu ser individual, mas numa particularidade que reflete significativamente uma generidade que está presente em muitos outros indivíduos, mesmo aquelas que não saíram do Norte e foram pra cidade grande, como disse Belchior “eu sou como você, que me ouve agora”. Aí reside, talvez a complexidade da obra. De ser uma singularidade e uma universalidade conservadas no particular, gerando uma identificação quase imediata de todo jovem que passa por todos os processos de mudança, sobretudo em contextos de crises, guerras e revoluções.
Chegamos num ponto que julgamos essencial, a mudança. Acima de tudo Belchior é o poeta da mudança, ou da dialética, se preferirem. Belchior denuncia, com o seu “canto torto”, que a mudança é necessária, e não só, que, apesar de tudo, ela virá, independente da vontade individual, como dissemos acima. Portanto, é a captura da realidade o aspecto fundamental da obra, de que “tudo muda e com toda razão”. Basta saber o que faremos com isso, aproveitemos o conhecimento de que “tudo muda”, ou continuemos a nos conformar, resignar. Esse é o realismo característico de Belchior. E realismo não entendido como estilo da arte, mas como tema, mesmo que subjacente, sempre está presente em suas canções. Belchior, repetimos, é o poeta da mudança, do novo, e esse novo não significa necessariamente a melhoria ou o avanço. Pode ser, e normalmente é, uma piora, uma complexificação mais decadente da situação atual. Mas nada será como era antes, isso é uma certeza.
Isso dita “piora” é expressa na relação de Belchior com o horror do seu tempo. Este aspecto sempre se fez presente em sua obra, mas tal como “profeta do terror que a laranja mecânica anuncia”, esta é a realidade em que se vive. Nesse caso, talvez, Belchior só esteja sendo, novamente, realista: “A vida, é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”.
Mais uma vez, as múltiplas referências se confundem com o autoral, mantendo a originalidade. Começando por “She's Leaving Home” dos Beatles (1967) e a referência à partida de seu pai, mas, ao mesmo tempo, fala de si, que agora também “meteu o pé na estrada” e de sua própria partida. E diz: “Ela está saindo de casa depois de ter vivido sozinha. Por tantos anos.” Escolhe o trecho que encerra uma dualidade e contradição melancolicamente bela.
Vai até “Like a Rolling Stone”, título de uma canção de Bob Dylan (1965) se valendo da poética novamente para retratar a decisão, a despedida, a decisão e, fatalmente, a solidão: “Qual é a sensação? Ah, qual é a sensação? De estar sozinha. Sem direção para casa.” Mas Belchior mesmo diz: “E precisamos todos rejuvenescer”. Por anos, pensamos que se tratava de uma canção otimista, com doses de voluntarismo militante e igualmente messiânico, mas já deve ter ficado claro que não se trata disso, embora trate.
Mas desconhecendo minimamente a poesia de Edgar Allan Poe, citado no clímax da música é difícil ver a dimensão realista e a canção ganha contornos utópicos. Além disso, é certo que o Assum Preto não surge na métrica apenas em razão do poeta americano. Antes disso, Belchior é o próprio Assum Preto. E usa a melhor definição para compor exatamente sua dor exposta na canção. Não foi preciso escrever sobre o pássaro, já havia feito isso - com brilhantismo - Luiz Gonzaga, em 1950, com “Assum Preto”'. Aí entra o instigante fato que denuncia o pessimismo, a melancolia e o fatalismo do autor. A poesia de Gonzagão é a própria tristeza, isto porque, para cantar (tal qual os dois poetas nordestinos) o pássaro tem os olhos furados, assim que enclausurados nas gaiolas de aço, me permita a correlação weberiana. De longe, até parece que a partida é sinônimo de “liberdade” e, a mudança, é apreciada indiscriminadamente pelo autor. Mas veja que ao utilizar a poesia de Gonzagão, está falando de si e, para isto, recorre a explícita metáfora do pássaro.
Para que o canto torto de Belchior cortasse ainda mais a carne de quem o ouve, o autor escolhe justamente o pássaro preto que, na perversa tradição, tem os olhos perfurados, tortura que, supostamente, serviria para que o pássaro cantasse mais e melhor.
A solidão da distância justamente para que cantasse mais e melhor na cidade grande furava sua carne. Está nítido que se trata da busca do seu devir de cantar e, que, essa procura incessante o corta feito a faca que cega os olhos do black bird. Num dilema quase kantiano, a partida é sinônimo da violenta cegueira que lhe tira das vistas e da presença de seus amores. Sendo assim, para Gonzaga e também para Belchior, apesar de forte e intenso o “Assum Preto, tem “o meu cantar” que “É tão triste como o teu”.
Sendo assim, a estrofe final é também o fechamento fatalista do enredo e da própria vida do autor. O poema de Allan Poe, escrito em 1845 e traduzido tanto por Machado de Assis, quanto por Fernando Pessoa, este último no ano de 1924, é a síntese da saudade e tristeza de um homem prestes ao desatino. O protagonista passa a ouvir e conversar com um corvo (black bird) que adentra sua janela. O poeta utiliza meticulosamente de um tipo de aliteração para marcar a repetição da sentença: “Nunca mais”, que indica textualmente o processo de adoecimento mental e da loucura que o estava sucumbindo.
O poema, é romântico e sombrio, dado ao estilo de Poe, além de ser agravado em razão da sua situação concreta diante da eminência da perda de sua esposa levada pela tuberculose. A anáfora ou a aliteração condena: “E o Corvo disse: “Nunca mais”. Mas podemos observar que, do ponto de vista sonoro, ela ainda é uma canção “alegre” (aliás a música está em tom maior). A versão de Elis Regina é ainda mais “alegre”. Mas, ao contrário, num contexto de autocracia e solidão atravessada pela distância, a afirmação de si e as escolhas pela cidade grande eram, ao mesmo tempo, a negação e a impossibilidade de viver livre. Neste sentido, trata-se de uma compreensão complexa sobre as mudanças da e na vida e, se engana quem crê que a “Velha Roupa Colorida” bifurca em presságio da fé em tempos melhores ou pessimismo catastrófico irreversível da barbárie. Ao perguntar ao black bird do louco poeta e ao Assum preto cego do sertão “o que se faz” sem nenhuma projeção afirmar o que não quer, pois “tudo já ficou lá atrás”, se repete o questionamento ao pássaro até ouvir resposta insipidamente realista: “o passado “Nunca mais””.
Sem nenhuma sentença teleológica de futuro, com aversão ao passado só pode, pela força da vontade, apresentar uma direção a ser construída coletivamente rompendo com o individualismo alienado e alienante: “você não sente nem vê, mas eu não posso deixar de dizer meu amigo uma nova mudança em breve vai acontecer”. A camisa tingida pelo método milenar, também americano, Tie Dye, “os dedos em V”, “amor e flor” é uma crítica ao pacifismo do movimento Hippie da sua época, sem muitas esperanças, mas quis mostrar que a realidade é muito mais dura do que as teorias, as fantasias ou algo mais. Aliás toda a crítica que ao tropicalismo também remonta esta direção estética do autor. Nem tudo são flores, ou melhor, “nada é divino, nada é misterioso”. A realidade sempre bate na porta e Belchior sabia disso.
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Thauan Pastrello - Pesquisador e escritor / autor. Assistente Social. Mestre e doutor em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nasceu no em São Paulo e fez da circulação entre cidades, instituições e vidas comuns matéria de observação e escrita. Sua trajetória atravessa a universidade, a gestão pública e o trabalho com políticas sociais, experiências que alimentam uma literatura interessada nas contradições do cotidiano, na memória, no trabalho, nos afetos e nas formas pelas quais a vida insiste em escapar das instituições que procuram organizá-la. Entre a pesquisa e a literatura, escreve sobre aquilo que permanece quando os documentos terminam: pessoas, lugares, perdas, encontros e histórias que quase nunca chegam aos registros oficiais.

