6 de novembro de 2026

Mercado Livre vende mais livros na Argentina enquanto livrarias enfrentam crise

Entre janeiro e agosto de 2026, o Mercado Libre vendeu 3,2 milhões de livros impressos na Argentina. No mesmo período de 2025, haviam sido 2,6 milhões. O crescimento de 23% chama atenção porque ocorre enquanto as livrarias argentinas relatam queda nas vendas e declaram estado de emergência.

Os números foram reunidos por Germán Echeverría, diretor da plataforma de autopublicação Editorial Autores de Argentina, a partir de relatórios mensais que o marketplace disponibiliza a vendedores de determinado porte. Segundo ele, a quantidade de anúncios que registraram ao menos uma venda chegou a 194 mil em agosto, 40% acima do mesmo mês do ano anterior. O número de vendedores ativos cresceu cerca de 20%.

Outro dado ajuda a entender o tipo de circulação que a plataforma favorece. Os cem anúncios mais vendidos responderam por apenas 3,8% dos exemplares. Em vez de uma concentração quase total em poucos best-sellers, existe uma cauda longa formada por milhares de títulos que encontram algum comprador. Nessa oferta podem estar novidades, obras de catálogo, livros usados, importados e publicações independentes.

A leitura exige cuidado. A série foi organizada por um profissional do próprio mercado a partir de informações da plataforma, mas não passou por auditoria independente. Os dados também não separam com precisão livros novos, usados e importados. Há ainda denúncias públicas de vendedores sobre exemplares piratas anunciados no marketplace como se fossem originais. Portanto, o crescimento mede livros físicos comercializados na categoria, não necessariamente a expansão equivalente do mercado editorial legal.

Também não é possível afirmar que cada venda conquistada pelo Mercado Libre tenha sido retirada de uma livraria. A Federação Argentina de Livrarias, Papelarias e Afins aponta uma queda de 25% nas unidades vendidas pelo varejo livreiro em dois anos, mas as duas séries possuem origens e metodologias diferentes. O contraste indica uma mudança estrutural nos canais, não uma transferência direta já comprovada.

A vantagem do marketplace está menos numa fórmula secreta do que na possibilidade de reunir um catálogo que não caberia em nenhuma loja. Uma livraria física precisa escolher o que expor, negociar consignações, administrar devoluções e renovar as mesas. Na plataforma, um título de fundo pode continuar localizável durante meses ou anos, mesmo que venda apenas algumas unidades.

Essa disponibilidade altera a relação entre estoque e visibilidade. No sistema tradicional, estar presente na livraria depende de espaço, giro e distribuição. No comércio eletrônico, a ficha do livro pode permanecer ativa por tempo indeterminado. A promessa de catálogo quase infinito, porém, vem acompanhada de outras dependências: logística, comissão, publicidade interna, qualidade do cadastro e regras definidas por uma empresa que controla a busca e o acesso ao consumidor.

Para editoras que vendem diretamente, o marketplace pode reduzir devoluções e acelerar o recebimento. Echeverría estima que a parcela do preço retida pelo vendedor pode chegar a 65% ou 75%, acima do que costuma permanecer com a editora em operações mediadas por distribuidoras e livrarias. Isso não significa margem líquida nessa proporção. Ainda precisam ser descontados tarifa, frete, embalagem, tributos, equipe, estoque e investimento para que o anúncio apareça.

No Brasil, o comércio eletrônico já ocupa posição central. A pesquisa Panorama do Consumo de Livros 2025, realizada pela NielsenIQ BookData para a Câmara Brasileira do Livro, mostra que Amazon, Shopee e Mercado Livre reuniram 87,6% das respostas sobre o site ou aplicativo da última compra de livro impresso feita on-line. A Amazon apareceu com 59,1%, a Shopee com 15,3% e o Mercado Livre com 13,2%.

O dado brasileiro reforça a concentração da descoberta e da compra em poucas plataformas, mas também impede uma oposição simples entre internet e livraria. Livrarias vendem em marketplaces, editoras operam lojas próprias, sebos utilizam plataformas e o leitor nem sempre identifica quem está por trás do anúncio. O canal digital pode ampliar a vida comercial de títulos de nicho e, ao mesmo tempo, tornar o setor mais dependente de intermediários tecnológicos.

A pergunta, portanto, não é apenas se o Mercado Livre está vendendo mais livros. É quais livros circulam, quem consegue aparecer, quanto sobra depois de todos os custos e o que acontece com a rede de livrarias quando preço, conveniência e variedade passam a ser organizados por marketplaces. O crescimento argentino oferece um sinal importante, mas ainda não uma resposta pronta.

Fontes consultadas

Germán Echeverría, “Venta de libros en MercadoLibre: qué está cambiando en el mercado editorial argentino”

Publishing Perspectives, “In Argentina, Mercado Libre’s Growth Exposes a Bookselling Divide”

Câmara Brasileira do Livro e NielsenIQ BookData, “Panorama do Consumo de Livros 2025”

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