6 de novembro de 2026

João Varella sobre a Miolo(s): “A cena se conecta nas feiras”

“A cena se conecta nas feiras”, diz João Varella, editor da Lote 42 e um dos organizadores da Miolo(s). Às vésperas da 13ª edição, ele conversa com o LiteraturaBr sobre experimentação gráfica, circulação de publicações independentes e os vínculos que esses encontros constroem entre leitores, artistas e editores.

A Miolo(s) 2026 acontece em 7 e 8 de novembro, das 11h às 19h, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, com 300 expositores e entrada gratuita. Nesta sexta-feira, 6, a Miolo(s) Chiquita antecipa o encontro com participantes internacionais, das 12h às 19h, na entrada da Avenida São Luís.

Nas respostas enviadas por e-mail, Varella fala da formação de um acervo de publicações independentes na biblioteca, das relações com a América Latina e das dificuldades de sustentabilidade do setor. Também questiona a ideia de que a busca por resultados comerciais seja uma novidade no mercado editorial.

Entrevista com João Varella

LBR: A Miolo(s) chega à sua 13ª edição reunindo 300 expositores e participantes de diferentes países da América Latina. Quando vocês olham para a trajetória da feira desde 2014, o que mais mudou no universo das publicações independentes no Brasil? E o que continua sendo um desafio para quem produz e faz circular essas publicações?

João Varella: É uma ótima pergunta e já adianto que minha opinião muda de tempos em tempos. Se eu responder amanhã, pode ser que diga outra coisa. Feito este alerta, eu apontaria duas coisas. A primeira é um pouco óbvia, que é a consolidação das redes sociais na vida de todos os publicadores.

A segunda é que as feiras deixaram de ser entendidas como meros pontos de venda esporádicos. Nós já sabíamos disso desde o princípio, mas está mais espraiado o entendimento de que as feiras são espaços de articulação política e afetiva: os publicadores formam uma comunidade, com amigos, contatos e parceiros criativos e comerciais. A cena se conecta nas feiras.

Quanto à segunda parte, eu apontaria a circulação como o desafio mais antigo e constante para os independentes. Com a plataformização da internet, isso ficou mais difícil para alguns, mais fácil para quem se adaptou (ou seria "se submeteu", talvez).

LBR: Uma das características da Miolo(s) é reunir projetos que experimentam diferentes formatos, técnicas de impressão e maneiras de pensar o livro. Em um mercado editorial cada vez mais preocupado com resultados comerciais, qual é a importância de preservar espaços em que a experimentação possa existir sem necessariamente responder a essa lógica?

João Varella: Eu não sei se concordo com a premissa da questão, de que o "mercado editorial [está] cada vez mais preocupado com resultados". Afinal, a busca pela viabilidade financeira faz parte da história da edição há séculos.

A diferença é que os publicadores independentes operam em outra escala, com outras premissas de sustentabilidade.

A experimentação gráfica, o cuidado com a materialidade e a liberdade de formatos existem também como uma resposta ao tratamento industrial dado na maior parte das casas editoriais brasileiras. Tudo é muito igual, como se houvesse uma lei obrigando as convenções livrescas.

É em espaços como a Miolo(s) que o livro enquanto linguagem e objeto de arte integral, sem a obrigação de se adequar aos moldes industriais, cresce e se desenvolve.

Preservar esses lugares de encontro e liberdade é fundamental porque é neles que a arte do livro se oxigena, onde surgem novos caminhos estéticos e éticos. A Miolo(s) prova, na prática, que existe um público ávido por artes gráficas, disposto a apoiar projetos editoriais originais.

LBR: Nesta edição, a feira reúne participantes de diferentes estados brasileiros e de outros países latino-americanos. Como vocês têm pensado essa aproximação entre diferentes cenas editoriais? E de que maneira esses encontros podem continuar produzindo resultados depois que a feira termina?

João Varella: A Lote 42, editora que criou e produz a Miolo(s) junto com a Biblioteca Mário de Andrade, tem a argentina Cecilia Arbolave (minha companheira de vida também, diga-se) como uma de suas proprietárias.

Mantemos um esforço de participar da cena de países vizinhos. Neste ano, estivemos em eventos na Argentina e Colômbia. Ainda em 2026 estaremos no Uruguai.

Também ajudamos duas editoras argentinas a participar de eventos no Brasil: a Ampersand na Feira do Livro de São Paulo e a Hotel de las Ideas, que está no FIQ (que vai até domingo; quem for de Belo Horizonte, não perca).

A Miolo(s) faz um esforço na contramão, de receber da melhor maneira possível esses publicadores que vêm de longe. Neste ano, estreamos a Miolo(s) Chiquita na sexta-feira, uma feira só com os estrangeiros. Estamos torcendo para que eles tenham uma ótima experiência e queiram voltar.

Acreditamos que a aproximação do Brasil com seus irmãos latinos é algo vital do ponto de vista macro do país. A Miolo(s) é uma contribuição, pequena, chiquita, é verdade, mas que aponta para a direção certa. Temos muito a aprender com nossos compañeros, incluindo do ponto de vista editorial.

Outra ação que realizamos neste ano na Miolo(s) é um evento para estimular os contatos entre profissionais do livro. Quem sabe a gente não estimula uma maior fluidez internacional de profissionais, prestadores de serviço, direitos de publicação e até mesmo de livros.

LBR: A Miolo(s) acontece na Biblioteca Mário de Andrade, um espaço público, e mantém a entrada gratuita. Qual é a importância dessa relação entre uma feira de publicações independentes e uma biblioteca pública? Vocês percebem que a feira consegue alcançar leitores que normalmente não frequentariam eventos desse tipo?

João Varella: A Miolo(s) é gratuita para todos, público e expositores. Para isso acontecer, é preciso exaltar a parceria mantida entre a Lote 42 e a Biblioteca Mário de Andrade, que por sua vez é parte da Prefeitura de São Paulo. Um evento que já passou por diversos governos e contextos difíceis (pandemia, por exemplo) e ainda assim se mantém anualmente sem grandes percalços. Isso merece ser comemorado.

A razão de ser da Miolo(s) é a criação de um acervo de publicações independentes. No início, parecia algo pouco óbvio, mas hoje somamos milhares de doações. Algumas das publicações não estão nem mais em poder dos próprios publicadores. Quer dizer, a biblioteca hoje tem um tesouro precioso, um recorte rico de algumas das publicações mais criativas do período histórico da Miolo(s).

Em razão de a Miolo(s) abraçar uma pluralidade de publicadores e formatos, como zine, fotolivro, livro de artista, livro ilustrado e periódicos, acaba que atraímos um público realmente amplo.

Curiosamente, várias figuras carimbadas de outros circuitos, como o literário, pouco frequentam a Miolo(s). O meio literário tem como marca o conservadorismo formal e a Miolo(s) é o polo oposto disso. Torço para que um dia tenhamos maior presença desse pessoal, que não vá apenas no conhecido e seguro. Quase arrisco dizer que somos antiliterários, mas há leitores que, sim, não estão nem aí se é livro códice ou zine, estão abertos a serem tomados pela experiência do vivido.

LBR: Além da comercialização de publicações, a programação inclui oficinas, debates e encontros entre profissionais do setor. Até que ponto a Miolo(s) também se tornou um espaço de formação e articulação para quem está começando a publicar? Existe uma preocupação em ajudar esses projetos a se manterem ativos para além dos dias de feira?

João Varella: Sem dúvida, a formação do público e dos profissionais é uma questão que norteia boa parte da produção da Miolo(s). O ideal é que todos que quisessem viver de publicar conseguissem.

Apresentamos todas as ferramentas possíveis dentro do guarda-chuva da Miolo(s), mas é algo que vai além. Neste ano, concluímos a 11ª turma do Curso Tatuí de Publicação, que ensina a todos os interessados o passo a passo da publicação de arte gráfica. O catálogo da Lote 42 tem livros formativos, como O livro de fazer livros, de Cecilia Arbolave. Nas redes sociais há muito conteúdo gratuito nesse sentido. Em suma, é algo que fazemos no nosso dia a dia e, especialmente, na Miolo(s).

LBR: A produção editorial independente brasileira tem demonstrado uma vitalidade enorme, mas sabemos que produzir um livro e conseguir fazê-lo chegar aos leitores são desafios bastante diferentes. Ao chegar à 13ª edição da Miolo(s), o que vocês acreditam que ainda falta para que essa produção tenha melhores condições de circulação e sustentabilidade no país?

João Varella: Em uma Miolo(s), a pesquisadora Tina Merz resumiu a situação: “Hoje é fácil publicar, difícil vender”. Essa síntese é algo importantíssimo de se ter em conta por todos nós que vivemos do livro.

Há possibilidades de melhorias estruturais, que afetariam a todos os negócios brasileiros, como uma facilitação das burocracias cotidianas de quem toca uma empresa.

A circulação seria muito melhorada se tivéssemos um mercado mais organizado. E isso começa pela aprovação do preço fixo, seja por lei (mais difícil) ou autorregulamentação. Infelizmente, hoje o publicador precisa se desdobrar em muitos papéis. É o malabarista que no intervalo vira o pipoqueiro, o bilheteiro que vira domador, o palhaço que também anda na corda bamba.

Aliás, a identidade visual da Miolo(s) deste ano, criada por Gustavo Piqueira, tem algo de circense. Todos os publicadores independentes se identificaram.

Serviço

Evento: 13ª Feira Miolo(s)
Datas: 7 e 8 de novembro de 2026
Horário: das 11h às 19h
Local: Biblioteca Mário de Andrade
Endereço: Rua da Consolação, 94, São Paulo
Entrada: gratuita
Miolo(s) Chiquita: 6 de novembro, das 12h às 19h, na entrada da Avenida São Luís, 235
Informações e programação: site oficial da Miolo(s)

Leia também: Feira Miolo(s) reúne 300 expositores na Biblioteca Mário de Andrade.

Imagem: divulgação/Feira Miolo(s).

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