14 de outubro de 2026

Entrevista de Luciana Moraes para Maria Emanuelle Cardoso

Entrevista por Maria Emanuelle Cardoso • Entrevistada: Luciana Moraes

Ilustração botânica de flores vermelhas e folhas verdes sobre fundo escuro.

Lelie (1775). Rijksmuseum / Europeana, via Unsplash. Domínio público.

1. Inaugurando um corpo-linguagem: como escreve Luciana Moraes?

Luciana, estive por dentro de sua produção artística (já que mais do que poesia, seu trabalho perpassa universos da performance, do ensaio, da colagem e da interpretação) e não pude deixar de notar a imensa articulação entre referências presentes em suas expressões. Por exemplo, em sua performance ”Poética da fresta” (primeira versão do Manifesto Neurodivergente), há referências Lyhnchianas, com o aparecimento do cavalo branco, e místicas, relacionadas à figura do oráculo, além de uma subversão da noção de fronteira, entre o corpo e o seu interior ou o corpo e outros corpos. Sua proposta evoca discussões filosóficas a respeito da linguagem, da escrita do corpo como idioma, por si só. Há ainda citações literárias, ao citar autoras como Virginia Woolf, Jarid Arraes e Marguerite Duras e psíquicas, ao retratar a experiência de um corpo neurodiverso. Percebo, aqui, um essencial passo na abertura de uma luta política pela existência, principalmente de corpos femininos e psicodiversos. Gostaria que falasse um pouco sobre o processo de produção desta intervenção. Surgiu de maneira espontânea? Ou foi planejado?

Nós mulheres sempre ansiamos por mais reconhecimento, ao longo da História, seja como artistas ou cientistas, a fim de expormos, de fato, nossa voz, apresentando a realidade opressora, omitida tantas vezes, pela manipulação de massas.

E não por acaso, minha intenção foi mesmo criar, de modo espontâneo, algo que pudesse reverberar minhas palavras, em questionamento sobre o “ir e vir” da vida com a presença da neurodiversidade. No momento em que eu aguardava com Betine para assistir a uma peça no centro do Rio, “Latitude de cavalos”, estávamos pensando e dialogando sobre as experiências, sensações, estranhamentos e desejos que atravessam nossa linguagem com o mundo afora. A partir disso, minha parte inicial foi delineada no Manifesto: “Autopermissão / Investigação / Combate ao reducionismo (...)”, para depois costurarmos nossos versos em sintonia. “Cavalo branco” de Lynch foi uma parte composta pela Betine, e compreendo o que há de místico e erótico em nossas composições, nessas escolhas simbólicas da poesia, em manifesto, que guardam cenas de nossas vidas, em combate diário.

Em relação às suas referências teóricas, gostaria que falasse mais sobre elas. Que autores, quais pessoas, cidades, músicas e paisagens foram essenciais para a formação da sua escrevivência?

Na minha vida, Hilda Hilst, com “Cantares” serve até hoje de acesso ritualístico à poesia. A vivência corporal de sua escrita só me faz confirmar como é envolvente aquilo que há de multilinguagem na língua e no fazer poético. A sinestesia de um verso, “verso escuro”, com outro, “barcas carregando a vida”. A imersão em sua obra me coloca diante de experiências sensórias variadas, reverberando associações entre: nascimento, paixão, cumplicidade, desespero, admiração, fugacidade e consciência do “ser-mortal”.

E nesse sentido, sempre me recordo de Kafka também – escritor mais que especial, pela peculiaridade e desconcerto de suas palavras – que me marcou desde o ensino fundamental, com seu livro “Metamorfose”. A poesia vive, para mim, nesse “desmembramento” ou “desdobramento”, pelas tentativas de reescrita narrativa, bem como ele dizia, em resistência: “Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós”.

Partindo da ideia de “desnudamento da escrita”, com a crueza da voz urgente de Hilda Hilst, que diz ao leitor para olhá-la com menos altivez e com mais atenção, posso realmente sentir essa outra vida líquida, se descortinando na poesia, desentranhada, em diálogo com a fome de viver em presença, entre texturas, palavras, línguas e aromas. Sua trama poética guarda cantos e desencantos, de eros em movimento e questionamento, nos diferentes estados do eu-lírico. Por isso, me vejo envolvida e dialogando com sua escrita, principalmente com meus poemas “Recomeço portátil ou derivação kintsugi” e “Sim”, imersos nessas “grandes espirais” do desejo de renovação.

Deste modo, pensando numa poética de renascimentos, desde a visão fabular da infância (com Ruth Rocha, Maria Clara Machado, entre outras) até o existencialismo lírico de Paul Celan e Orides Fontela, presente em meus livros, percebo em minhas memórias diferentes passagens, trajetos, guardados em diferentes ciclos da minha vida. Imagens do bairro da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, paisagens de bairros da zona norte, onde passei muito tempo da minha infância. Muito do que guardo em mim vem das trilhas de MPB, em diferentes estações de rádio, Skank, Marisa Monte, Cássia Eller, que eu ouvia nesses trajetos cotidianos. Contudo meu gosto é amplo, variando do experimentalismo de Pink Floyd, Queen, indo do rock progressivo, do jazz, blues até o samba de raiz, à bossa nova, Novos Baianos etc. A diversidade cultural sempre me fascinou, e nesse sentido, com um olhar antropológico, comparo ritmos e composições, a fim de incorporar em minha poética o que mais gosto – ou o que mais me incomoda.

Percebo que há, em sua escrita, uma proposta de reorientação. Enfrentamos um cenário de crise socioecológica onde as incertezas nos deixam aflitos. Você articula a confluência do filósofo quilombola Antônio Bispo dos Santos, e propõe uma nova bússola. O que você acha da emergência de novas expressões artísticas, propositivas de um novo olhar para o mundo? Onde você acredita que a sua escrita se encaixa (ou desencaixa), nesse sentido de contribuir para um gesto de transmutação? Ou como a escrita de corpos marginalizados pode sugerir alternativas para adiar a queda do céu?

Para mim, a escrita vive nessa reconstrução, com a solitude, mas também com o ânimo do próprio sopro (em diálogo com a “Vida das plantas”, de Emanuele Coccia”), se fazendo presente quando nos desabituamos de alguma rotina e habitamos em outro ''espaço''. Este outro “espaço” é uma memória que se reinventa com a linguagem no mundo. Por exemplo, pelo escavamento dos arquétipos da Mulher selvagem, com o livro da Clarissa Pínkola (“Mulheres que correm com os lobos”), percebo a multiplicidade de formas que a mulher pode assumir, desde os primórdios da história do inconsciente, como mulher-loba e mulher-árvore: “Ela é a força da vida-morte-vida; é a incubadora (...) Ela estimula os humanos a continuarem a ser multilíngües”. É nesse sentido de multilinguagem e metalinguagem que persisto em minha memória-escrita, onde recomponho o passado e o presente, fissurando a cronologia e linearidade das noções humanas. As potências fêmeas perpassam o meu registro poético e permanecem nas elaborações do meu amor pela linguagem (e pela admiração da força materna). As histórias particular e coletiva vivem em constante movimento, e as vejo como pássaros transitantes na ventania, pairando entre a revolta e a resiliência, porque somos seres atravessados pelas mais variadas emoções diante daquilo que nos é inesquecível, por ser também paradoxal.

Quando você menciona Antônio Bispo dos Santos, logo me vem à memória sua arte em trançados e cores simbólicas, similar à experiência que tive com o teatro-ritual, no Instituto Nise da Silveira, mais especificamente no Hotel da Loucura, espaço artístico que fora idealizado por Vitor Pordeus. Sob meu ponto de vista, a escrita também surge como uma vivência performática e arteterapêutica, entranhada/ gerada pelo afeto catalisador dos Coletivos, na luta antimanicomial, pela saúde mental e diversidade humana.

Milena Martins Moura, Carla Diacov, Raquel Gaio, Bruna Mitrano, além de tantas outras poetas presentes nas periferias do sistema capitalista, seguem cultivando um caminho poético-cênico-antropofágico que me agrada, muito provavelmente por serem também neurodivergentes e extrapolarem o senso comum dos sentidos da criação verbal na poesia. A emergência de novas expressões artísticas, mais atentas ao nosso contexto desumano em escala global, não ocorrem com muita constância como necessitamos, pelo menos assim acredito não haver tanta força nas megalópoles ainda, onde a máxima “olho por olho dente por dente” impera.

Suponho que a minha escrita perpassa diferentes experiências nos meus trajetos pela cidade, e, com muito empenho em querer desconstruir as certezas da sociedade capitalista e patriarcal. E nesse sentido de investigação sonora e imagética, com o corpo feminino neurodivergente, pelo centro urbano e adjacências busco contribuir para um gesto de transmutação do nosso olhar, como seres viventes e cidadãos. Lembro de versos do meu primeiro livro mencionando a densidade do egocentrismo que prevalece em nossa sociedade:

“Olhar es cor tantes / Atingir am esta cr osta / R etir a r am este chãoAquele menino mor r eu

/ e você sabe quem o matou / Um homem também / que mor r eu”

(do primeiro livro: “Tentei chegar aqui com estas mãos”)

Se pensarmos nos espaços culturais, como o Museus de Arte do Rio, entre outros, como o Centro cultural Rio-África, em breve, abrindo aqui, construídos na região da “pequena áfrica'' do Rio, a conhecida zona portuária, onde os negros escravizados chegavam, podemos compreender nosso momento com alguns avanços sociais para os corpos marginalizados. Ao menos algumas pessoas que estão envolvidas com os projetos culturais no entorno da comunidade (além de artistas de rua muito interessantes que venho conhecendo), imersos em programas educativos diversos, já nos apontam suas alternativas para adiar a queda do céu, por meio de suas obras visuais (entre camadas ancestrais, antropofágicas e afrofuturistas) , performances, mediações arte-educativas, continuamente desenvolvidas e divulgadas, com sua autenticidade e acidez crítica, apresentadas ao grande público.

Portanto, para mim, esse processo de transmutação pessoal e coletiva só pode se propagar de modo mais efetivo com o reconhecimento de nossos trabalhos (a contrapelo da História dos vencedores, como defendera Walter Benjamin), por um público mais interessado, engajado, participativo nestes debates.

E, ainda tratando de referências, quais são os principais artistas que atuam como faróis para a sua produção? Quais foram as cinco obras mais transformadoras em sua trajetória de vida e exercício de criação literária?

Sobre os principais artistas que atuam como faróis para a minha produção:

Clarice Lispector, Walt Whitman, Hilda Hilst, Franz Kafka e Carlos Drummond.

Sobre as cinco obras mais transformadoras:

-“Contos e lendas do Egito Antigo” – Brigitte Évano: me encantou quando pequena, até hoje me encantando, por ver a beleza, as desventuras dos seres antropomórficos, com uma verdadeira poesia, múltipla em cores, gestos, elementos semióticos na linguagem da mitologia egípcia.

-“Rosa do Povo” – CDA: é tocante, desconcertante, por diferentes emoções que me provoca ao ver e rever, sentindo a filosofia drummondiana da rosa no asfalto, ao mesmo tempo do corpo vivo. CDA deixando o grito silencioso de seus versos, como quem ainda solicita as mãos dadas com a vida presente.

- “Morte e vida severina” – João Cabral: um longo percurso pelo Capibaribe e outros rios, sua poética é corte na escolha das palavras, mas também um corte, um deslocamento do rio para dentro de quem lê, vendo a fome do homem na seca, juntos andamos numa via espessa de questionamento, entre a vida e a morte, desejando criar, em cada passo, o “sim” na sala negativa - do real vigente.

-“A metamorfose” – Franz Kafka – tenho a impressão de que o sufocamento de Kafka sempre me mostrou alguma força de extrema sensibilidade, pelo olhar do indivíduo, que mesmo sendo condicionado a viver como um “inseto” da sociedade hostil, pela lógica do consumo, desejou mostrar uma voz diferenciada, em escolhas vocabulares bem provocativas, reforçando a miséria principal, contida nos indivíduos supostamente mais livres, que ostentam e sustentam o poder dominante (e escravizador em si também). A sua força, em prosa poética, entre aspectos linguísticos informais, arquétipos de clown e de anjo maldito, indiferente ao estilo de vida comum, ousa falar numa linguagem diversa, menor, que sempre pode atravessar muitas frestas desconhecidas.

-“Eu” – Augusto dos Anjos: da sua poética orgânica, inorgânica, mística e misteriosa, muitas provocações me vieram, tocando no fundo, desde sempre, nessa busca do eu que se multiplica em movências sutis.

Por falar em práticas poéticas, você possui alguma rotina ou ritual de escrita? Ou seu trabalho segue diretrizes mais espontâneas e surgem nas brechas da rotina?

Não existe uma rotina realmente. Nas brechas, no desejo de dialogar com o que há de possível e impossível do cotidiano, é que a poesia vem se colocando comigo.

2. A escrita em flores de sangue: quando digo que a seiva é sangue, vegetalizo o humano, e não humanizo as plantas.

Bate-volta:

1. Use cinco adjetivos para definir sua escrita

Renitente, magmática, transitante, observadora e sinestésica.

2. Por que você escreve?

Principalmente para ver, para poder ler aquilo que seja movência afinal.

3. Quando você começou a escrever?

Quando pequena, ainda, no ensino fundamental, mas a escrita era embrionária, num misto de manifesto musical com catalogação do dia. Com o passar do tempo, com diferentes leituras, a poesia se tornou mais forte para mim, nesse processo de estar no mundo. Por querer ressignificar as experiências, estando mais atenta à necessidade da individuação.

4. Quais são os seus objetivos com a escrita?

Talvez o que existe de mais precioso seja o não saber. A escrita seria um modo de conclamar nosso olhar mais sensível, mais orgânico da vida, para além da visão cartesiana, visando o próprio bem-viver.

5. Qual a influência de outras artes (música, cinema, artes plásticas) em sua poética?

Artes que percorrem um olhar transversal, buscando uma “poética da fresta’’, neurodivergente, com intenção de tangenciar universos para além do “Falogocentrismo’’. Por exemplo, me interesso pelo tom debochado de suposta prestatividade, deferência do autor Robert Walser em geral, inclusive de um personagem seu, no microconto “A solicitação de emprego”, que poderia ser uma esquete teatral. Termina com o nome “Wenzel”, “cordialmente” assinado no final. Sob o meu olhar, Robert Walser parece ter composto muitos “heterônimos” em suas prosas poéticas.

Frida Kahlo, também, seguindo o fluxo fora das obviedades no campo das artes. Ela que estava compondo seu quadro “Mi nacimiento” (1932), num momento delicado, quando sua mãe veio a falecer. A pintura, para Frida, não era uma prática de externalização de uma “suprarrealidade” (como André Breton pensava), pois como ela afirmara: “nunca pintei meus sonhos, só pintei minha própria realidade”. A neurodivergência, acredito, está em tudo isso. Naquele outro universo que se faz tangível conforme muitos artistas vivenciam e assim nos expõem, nua e cruamente: as suas composições materializadas, diversificadamente, entre seus desenredos e realizações, na realidade em que vivem e nas realidades com as quais dialogam.

Nesse sentido, num viés interartes, meu poema “Komorebi”, além de outros (do livro “Flor de sangue”) vai dialogar com a experiência que tive após assistir o filme “Perfect days”, de Win Wenders. Tanto a fresta luminosa nas árvores quanto as “paisagens sonoras” (trilha sonora maravilhosa em cada cena) presentes no filme me trazem esta ideia de deslumbramento com o simples, de querer o encanto, apesar de tudo que sabemos do desencanto.

 

 

Luciana Moraes (1993) é poeta carioca, graduada em Letras pela Unirio. Integra a equipe do portal “Fazia Poesia” e o coletivo “Escreviventes”, pesquisa o figurativo do inominável e o hibridismo nas artes extemporâneas, além de atuar como revisora e tradutora literária. Foi tardiamente diagnosticada, no final de 2023, com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Participou do coletivo “Oficina Experimental de Poesia” (2017-2018). Tem poemas publicados em revistas como “Mallarmargens”, “Capivara”, “Aboio”, “Caxangá”, “Torquato”, “Cassandra”, “Letras Salvajes”, “Zunái”, “diversosafins”, “O Navalhista”, entre outras. Há traduções de sua autoria nas revistas “Athena” e “Cronopio” , no portal “Fazia Poesia” e na editora Fictícia, além de suas traduções para o Jornal RelevO. Também está presente em diferentes projetos poéticos, antologias e coletâneas, como na “Versão brasileira: a voz da mulher” – coletânea digital de poesia, baseada na Independência do Brasil sob a perspectiva da mulher (2023, Prefeitura - RJ) – , “Coletânea Off Flip de Literatura –Poesia” (2023, Paraty - RJ), “Coletânea 100 poetas vivos” (2024, pelas editoras TAUP e Comala) e “Antologia de Poesia Latino-Americana Contemporânea” (2025, editora Peabiru). Em outubro de 2025, participou do Diálogo poético (virtual) “Intercâmbio de Sementes'', ao lado dos escritores Santiago Espinosa e Alexandre Lerma, dentro do Festival Internacional de Poesia de Cali, Colômbia. No final de 2025, também teve seus livros em circulação na Mostra de Arte da Espanha, pela Galleryspt.
Seus livros de poesia são: Tentei chegar aqui com estas mãos (Isto edições, 2022), Flor de sangue (Ed. Libertinagem, 2024), Desvelo(s), (Mercador e Caravana editorial, 2025) e Dia-longo (Ed. Minimalismos, 2026).

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