4 de novembro de 2026

Moacir Fio: “O Brasil morre de medo da memória”

O romance “Aranha Movediça”, de Moacir Fio, publicado pela Editora Moinhos, chegou à final do Prêmio Jabuti 2026 na categoria Romance de Entretenimento, depois de alcançar a semifinal do Prêmio Oceanos. Entre o horror, a investigação e as memórias do Ceará, o livro articula diferentes vozes e tempos para contar uma história atravessada pela violência e pelo esquecimento.

Nesta entrevista ao LiteraturaBr, Moacir fala sobre a construção do romance, o lugar do horror na literatura brasileira, as dificuldades de circulação fora dos grandes centros e os caminhos que pretende explorar em seus próximos livros.

LiteraturaBr: Aranha Movediça reúne quatro linhas narrativas, entre elas um podcast investigativo sobre Jota do Lixo, os diários de uma personagem e uma história gótica ambientada no sertão colonial. Como você encontrou uma estrutura capaz de reunir vozes, tempos e formas narrativas tão diferentes sem perder a tensão que conduz o leitor?

Moacir Fio: A estrutura veio quase junto com a história, ou melhor, com as personagens, pois são elas que me movem. Mas primeiro eu tive a ideia do podcast. Desde a pandemia, queria escrever um thriller em formato de podcast true crime, apenas uma intenção, nada demais. Em geral, não dou muita atenção a esses meus desejos de escrita, sou bombardeado por inúmeros o tempo todo, e eles vêm e vão, mas tenho o cuidado de anotá-los. Era isso: um thriller sobre qualquer coisa escrito como um podcast. Quando me apareceu a Maca, a primeira personagem do livro, uma adolescente cheia de sonhos traída pela vida, desenterrei a ideia do podcast, e com ela vieram os diários, os cadernos e o Carlos Eduardo, um personagem tão gravitacional que precisava de seu próprio ponto de vista. Quanto à tensão, acredito que seja fruto do meu próprio envolvimento com essas personagens, que foi muito intenso. Embora eu soubesse o final de antemão, claro, o processo de escrita foi tenso, pois tenho essa loucura de compartilhar o estado de espírito de minhas personagens. Acho que isso acaba naturalmente passando para o resultado final.

LiteraturaBr: A investigação sobre Jota do Lixo acaba revelando também uma história de violência, silenciamento e esquecimento. Em determinado momento, parece que descobrir o que aconteceu com um personagem importa tanto quanto compreender aquilo que uma sociedade escolhe apagar. O horror pode ser também uma maneira de investigar a memória brasileira?

Moacir Fio: A ficção não serve para nada, a não ser para tudo. No que diz respeito à memória, então, a literatura é onde guardamos e damos forma aos nossos fantasmas. É por isso que, quando um historiador tenta compreender quais temas foram interditados por determinada sociedade, e como se dava essa interdição, é sobre a literatura que ele se debruça. Dentro dessa representação do não-dito, penso que o horror oferece uma possibilidade talvez mais radical, pois trabalha com o medo e o abjeto, com sentimentos que tentamos controlar e temas que buscamos evitar. Se o horror pode investigar a memória brasileira? Claro. Todo mundo sabe que o Brasil morre de medo da memória, isso quando não tem nojo. Afinal, este é o país do futuro, né? Este é o país onde um presidente da república, diante de um museu incendiado, diz: Já pegou fogo, quer que faça o quê?

LiteraturaBr: Aranha Movediça é seu primeiro romance e já chega à final de um dos principais prêmios literários do país, depois de também alcançar a semifinal do Oceanos. Para um escritor que estreia no romance, quais foram as maiores dificuldades entre concluir o original, encontrar uma editora e fazer o livro chegar aos leitores? E o que muda quando esse trabalho passa a receber reconhecimento nacional?

Moacir Fio: Escrever é a parte mais fácil. Adoraria apenas escrever, não me preocupar com redes sociais, eventos etc. Queria ser o Vampiro de Fortaleza, como Dalton foi o de Curitiba, mas me falta o talento, e os tempos são outros. Em todo caso, integro um coletivo de escritores e leitores, o Coletivo Escambau, que já garante uma certa circulação da obra. Além disso, consegui entrar numa editora que, embora independente, tem um catálogo de muito prestígio, de modo que o selo da Moinhos na capa certamente garante a atenção do público e da crítica. Sendo muito sincero, não espero nada da literatura. Minhas expectativas sempre foram baixas. Escrevo porque gosto e porque preciso, há um pouco de necessidade fisiológica, penso. Então, continuaria escrevendo meus livrinhos com ou sem esse reconhecimento, ou, pelo menos, trabalhando com literatura, coisa que faço há mais ou menos uma década. Dito isso, fico absolutamente encantado quando as pessoas se envolvem com essas personagens da forma como eu também me envolvi. Porque eu amo essa história, então é como encontrar outras pessoas que passaram a gostar de uma banda super underground que você descobriu. Acho que é a única forma de traduzir esse sentimento de ver tanta gente compreendendo o meu universo. Parando pra pensar, também é um pouco assustador, confesso.

Capa do romance Aranha Movediça, de Moacir Fio, publicado pela Editora Moinhos.

LiteraturaBr: O mercado editorial brasileiro costuma concentrar a atenção em autores já conhecidos e em livros publicados pelos grandes grupos. Você chega à final do Jabuti com uma editora independente, a Moinhos, e com um romance que parte de referências culturais e históricas do Ceará. Essa trajetória faz você enxergar de outra maneira as possibilidades e os obstáculos para quem escreve fora dos principais centros editoriais?

Moacir Fio: Eu fiquei muito surpreso com tudo. Tudo bem que um livro como Gótico Nordestino, do Cristhiano Aguiar, já tinha ganhado o prêmio da Biblioteca Nacional em 2022, e que autores nordestinos de horror têm chamado atenção, como os meus queridos Márcio Benjamin, Bruno Ribeiro, Mylena Queiroz, Lucas Santana. Ainda assim, eu jamais esperaria uma final de Jabuti, uma vez que o Aranha, além de ser um livro estranhíssimo, também é fruto do mercado independente, embora a Moinhos, como eu já disse, seja uma editora respeitada. A gente sabe como funcionam as coisas, né? Eu gostaria de dizer que isso me faz enxergar o mercado de forma diferente, mas não, continuo achando tudo muito difícil e muito dependente dos grandes centros editoriais. Como diria a Rachel de Queiroz, apesar dessa minha cara redonda, eu sou um pessimista. Desejo que as coisas mudem, mas vejo um mercado cada vez mais concentrado. O que eu comemoro é termos cada vez mais diversidade nas premiações. Mas ainda dá pra melhorar: na categoria em que Aranha concorre, dos dez livros semifinalistas, apenas dois foram escritos por mulheres, isso num ano em que publicaram romances Verena Cavalcante e Dia Nobre, para ficarmos em poucos exemplos.

LiteraturaBr: O Jabuti separa Romance Literário e Romance de Entretenimento, categoria na qual Aranha Movediça concorre. Seu livro, no entanto, utiliza elementos do horror, do suspense e da investigação policial para tratar de questões históricas e sociais bastante complexas. Como você vê essa divisão? Ela ajuda a reconhecer diferentes tradições narrativas ou ainda reproduz uma hierarquia entre obras consideradas literárias e aquelas associadas ao entretenimento?

Moacir Fio: Já fui muito contra. Pesquiso e ensino literatura, então, para mim, forma é conteúdo e vice-versa. Hoje, compreendo que é uma necessidade de mercado, e o Jabuti, gigantesco como é, precisava disso. Acredito que era mais fácil criar essa nova categoria, a do Romance de Entretenimento, do que fazer um ajuste de rota nesse transatlântico de quase setenta anos, especialmente em um país que historicamente blinda o cânone contra os chamados “livros de gênero”. Em todo caso, acho a nomenclatura ruim. Não para o Romance de Entretenimento, mas para o Romance Literário. Imagina só, ser premiado como um livro de ficção que não entretém? Deus me livre! Eu quero entreter meus leitores. Se não quisesse, escreveria manuais. Agora, saberemos se a coisa é pra valer mesmo se algum premiado no Entretenimento eventualmente vencer o Livro do Ano, que é o prêmio máximo do Jabuti. A ver.

LiteraturaBr: O horror brasileiro tem encontrado novas maneiras de explorar nossos próprios medos, em vez de simplesmente reproduzir modelos estrangeiros. Em Aranha Movediça, o sertão, a violência colonial e a cultura punk se encontram numa narrativa de terror. O que essas referências brasileiras permitem contar que talvez não fosse possível por meio das convenções mais conhecidas do gênero?

Moacir Fio: O horror é muito diverso, e há muito tempo se faz horror de qualidade aqui no Brasil, apesar da falta de reconhecimento. De modo semelhante à questão da forma e do conteúdo, acredito que as referências são inseparáveis da narrativa em si. Aranha é uma história de horror também por uma imposição do espaço onde têm lugar seus acontecimentos. Não sei se isso faz do livro um horror particularmente “brasileiro”, ou “nordestino”, ou “cearense”, como categoria, mas sei com certeza que é um horror particular de Maca, Jota do Lixo, Josefa, Carlos Eduardo, Alessandra e todas as personagens do romance. Tenho dito por aí que é um livro muitíssimo cearense, porque é, de fato, nisso de mergulhar em nossa história e nosso jeito de falar, mas o truque maior da literatura é aproximar o diferente.

LiteraturaBr: Desde a publicação, Aranha Movediça passou a circular entre leitores, críticos e agora jurados de dois grandes prêmios literários. Houve alguma interpretação ou reação ao romance que surpreendeu você ou que tenha revelado uma dimensão da história que não estava tão evidente durante a escrita?

Moacir Fio: Toda nova interpretação me surpreende, mas uma em especial foi uma verdadeira revelação. O livro tinha sido lançado há pouco tempo quando fui convidado a participar dos Encontros Literários Moreira Campos, na Universidade Federal do Ceará. Foi uma roda de conversa muito bem conduzida pela minha amiga e pesquisadora Larissa Monteiro. Nisso, estava eu elencando minhas preocupações justamente a respeito da recepção do livro por leitores de fora do Ceará. Compreenderiam as nuances da oralidade que tento retratar? Ficariam interessados pelos aspectos mais históricos? Conseguiriam se envolver com uma narrativa que fala tanto de bairros periféricos de Fortaleza? Então, a professora e poeta Mariana Ruggieri, paulista, se saiu com essa: “Aranha Movediça tem todas essas particularidades, mas acima de tudo é um romance de crescimento, uma história sobre um grupo de jovens claudicando nessa passagem tão difícil e tenebrosa que é a adolescência para a vida adulta. Isso me marcou de tal forma que tenho usado para explicar o sucesso de Maca, Jota e companhia.

LiteraturaBr: Você já mencionou que trabalha em outras narrativas que retomam as relações entre Fortaleza, o sertão e os fantasmas do passado colonial. Depois da experiência de Aranha Movediça e da chegada à final do Jabuti, o que você sente que ainda precisa investigar literariamente nesse universo?

Moacir Fio: Ainda há muito do patriarca Feitosa que me interessa tratar, mas sob outras perspectivas, e especialmente em relação a outras personagens. Se por “universo” a gente entende o passado colonial do Ceará, tenho me interessado muito por uma personagem indígena, do povo Jucá, que foi massacrado durante a invasão e as guerras dos colonizadores. Ela estará em meu próximo romance. Ou não. Como disse antes, meus desejos de escrita são absolutamente voláteis.

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