5 de novembro de 2026

A indústria da solidão

Para mim parece bizarro, mas no Japão existe há anos toda uma indústria através da qual é possível alugar “membros da família” através de agências especializadas para diversas situações sociais.

Através de um contato telefônico, ou através de um site, é possível conseguir alguém que foi treinado para acompanhar você em um evento e fingir ser seu pai ou mãe, um irmão, filho, avó, namorado, amigo. A opção é ampla, assim como os valores, e os fins podem ser desde evitar constrangimentos públicos até o mais óbvio: preencher a solidão. Ao contratar o serviço, pode-se escolher a idade, a aparência, o estilo de roupas e até o tipo de comportamento que se espera do ator ou atriz. Afinal, o serviço é amplo e vai além da performance como membro da família. É possível contratar alguém para ir fazer compras num supermercado, acompanhá-lo a um restaurante, ou para comunicar demissões em nome do cliente, por exemplo.

Que um serviço como esse tenha surgido na sociedade japonesa não me surpreende. Extremamente reservados, os japoneses estão dentro de uma cultura que valoriza a imagem da estabilidade, e dentro de um contexto de pressão social as aparências são importantes.

Em História da solidão e dos solitários, de Georges Minois, aprendemos sobre como a solidão foi percebida e construída cultural e historicamente, desde a Antiguidade até a contemporaneidade, e mostra que ela já foi vista como maldição, mas também como virtude, explorando o contraste entre o ser social e o isolamento. Como percebemos figuras como monges, eremitas e solitários modernos em um mundo cada vez mais conectado?

Tudo passa pelo olhar do Tempo, essa entidade que está dentro e fora de nós. No livro, Minois traça a solidão desde a Grécia Antiga, quando o homem, um “animal social”, se isolado era visto como alguém doente, era uma anomalia. Havia os de visão menos intolerante, como Sêneca e Epicuro, mas em geral, a sociedade precisava ser vivida.

Na literatura, já foi considerada uma maldição (basta lembrarmos de Victor Frankenstein e sua maneira de lidar com o mundo), mas também como um caminho para a espiritualidade, quando o estar-só era um refúgio que levava ao encontro com o divino.

E quanto ao solitário moderno? Chegamos à época do herói da liberdade individual no liberalismo, em tempos de demonização de atitudes coletivas, numa época em que “tendo pouca farinha, meu pirão primeiro”, mas travestido de vontade sobrehumana. Recentemente, quando das enchentes que assolaram o sul do Brasil, alguns indivíduos, munidos de seus interesses, fizeram vídeos mostrando que o país não precisava do governo, que tendo vontade individual era possível salvar a vida de muitas pessoas, colocando culpas no Estado – que não existiam – e reduzindo, ou até mesmo demonizando, a presença de agentes governamentais no período da tragédia.

A sociedade hiperconectada nos deixa confusos. Não sabemos o que é ou não verdade, e o surgimento, aperfeiçoamento e ampla utilização da inteligência artificial é um exemplo disso. Discernir cores é fácil, difícil é discernir as matizes entre elas. Apesar da possibilidade de falarmos com pessoas em toda parte, estamos paradoxalmente mais solitários. Apesar das possibilidades, estudos mostram que nunca nos sentimos tão sós. Já se pode falar em uma epidemia da solidão.

É claro que esse é um fenômeno complexo, e falar sobre a solidão suscita questões profundas, que demandam discussões em outros espaços. Mas enquanto estamos aqui, o que podemos fazer para que o sentimento de estar só, ainda que rodeado de pessoas, alavancado ainda mais na contemporaneidade por conta das múltiplas possibilidades de conexão, possa ser aplacado? Não deve ser fácil sentir que falhou até mesmo em conectar-se virtualmente. Alguns, como o rapaz que processou o Tinder, aplicativo para promover encontros, alegando que durante os vários meses em que utilizou o aplicativo não fez combinação com ninguém, portanto, o aplicativo não cumpriu sua promessa, conseguem fazer da topada um passo de dança – o rapaz ganhou a causa, notoriedade e, quem sabe, alguém para encontrar para além das telas.

Nos dias de hoje, no entanto, é nítida a cultura do bloco do eu sozinho. Da disseminação da ideia de que você se basta. Estamos nos tornando cada vez mais áridos e individualistas, menos impactados pela presença e pelo toque humanos – ou substituindo o contato profundo por reproduções casuais e mecânicas, correndo feito o Coelho de Alice, que afirmava de modo irritado que não há tempo, que estava atrasado. Não há tempo a perder, logo, não há tempo para o outro. Ignoramos que essa ausência do Outro é algo que nos flagela, não algo que nos eleva ou nos redime. Daí voltamos, exaustos, a reclamar das ausências de tudo, quando não parecemos dispostos a um compartilhar humano profundo. Por medo de nos vulnerabilizar, nos brutalizamos.

Então é isso, estamos atrasados para nós mesmos?

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