28 de setembro de 2026

Viver como se quer é egoísmo?

Todo sábado, sem falta, Evaldo estava no samba perto da Praça dos Mártires. Começava ali pelo horário do almoço e só Deus sabia o horário que terminava. Todo mundo conhecia o dono do local, que ia esticando enquanto tivesse cerveja gelada e a raspa do último tacho cheio de feijão temperado.

Quando começou a vida boêmia, bem mais jovem, tinha mais samba no pé. Pesava menos, demorava mais a se cansar, ainda que colocasse para dentro um número indizível de cervejas. Indizível porque ele mesmo perdia as contas, então era impossível afirmar com certeza. Com o passar dos anos, foi precisando sentar-se com mais frequência em uma daquelas cadeiras brancas de plástico perto das mesas, da mesma cor e material, utilizadas por todos e que ocupava o recinto inteiro, até a calçada, quando as lojas do Centro já estavam fechadas e ocupar o espaço público aparentemente não incomodava ninguém. Não muito mais tempo adiante, uma dessas cadeiras quebrou-se quando ele foi afastá-la de um lugar para o outro sem deixar de colocar seu peso sobre ela, e a partir daí preferia ficar de pé pelo tempo em que estava no samba.

O dia fatídico não demorou: entre goles na cerveja, um samba meio desajeitado e muita feijoada, torresmo, e uma vida sedentária, Evaldo finalmente caiu sem que reflexo algum o acudisse. A ambulância veio, o diagnóstico também. As palavras do médico foram: ou o senhor para com essa vida desregrada agora ou a gente marca a data para fazermos a cirurgia na qual colocaremos um marcapasso aí dentro – disse, apontando para o peito do paciente. Evaldo, ainda na cama do hospital, se recuperando, disse, Qual a sua data livre para fazer a cirurgia?

Algum tempo depois disso vi, numa rede social, uma postagem emocionada, mas lúcida, de uma amiga minha dos tempos da universidade, a respeito da morte do pai. No texto abaixo da foto que a mostrava brincando com ele ainda criança, ela dizia que ele só não viveu mais porque levou a vida como quis, e mencionava seus hábitos, todos condenados em qualquer guia de orientação da Organização Mundial da Saúde.

Sinatra canta sobre isso em My way. Na letra deste que é um de seus clássicos, ele incorpora um homem que sabe que a vida está chegando ao fim e resolve passá-la a limpo. Ao longo da música ficamos sabendo dos seus feitos, dos seus arrependimentos (poucos) e de suas aventuras e desventuras (superlativos). Ao final, o arremate: eu fiz tudo do jeito que eu quis.

Essas são algumas das coisas que me fazem pensar: viver a vida plenamente como se deseja, sem pensar nas consequências, é egoísmo?

Outro dia, num desses que parece que o algoritmo não apenas age de acordo com o nosso comportamento online mas também parece que anda lendo os nossos pensamentos, apareceu pra mim um vídeo do Dr. Dráuzio Varella no YouTube. Nele, o médico resolve “dar um sermão” em quem não se cuida. Não lembro bem as palavras, mas eram algo como: ... e você fica dizendo que não se importa se morrer hoje ou amanhã, que não está nem aí porque o que importa é viver intensamente e que do dia seguinte ninguém sabe, como se você pudesse fazer essa escolha. E se não morrer? Se ao invés disso tiver um AVC, um infarto, e ficar prostrado em cima de uma cama só dando trabalho aos outros? É justo você fazer sua filha, seus pais, irmãos, que têm uma vida, uma rotina, uma dinâmica estabelecida de vida precisar modificar tudo para passar a cuidar de um vegetal? Você acha isso certo?

Da mesma maneira, também me pergunto, quando a pessoa, não tendo nenhuma questão psiquiátrica, apenas decide deixar de existir no mundo por não suportá-lo, por achar que a vida é algo superestimado, que não é essas coisas todas mesmo, isso é também egoísmo? Ou, se pensarmos na dor do outro, dos que ficam, torna-se importante viver – ou ir apenas existindo, que seja?

A pergunta que me faço é: o que torna a vida “vivível”? Até que ponto estar no mundo preocupado com a dor que deixará nos outros é um obstáculo para a própria felicidade, uma vez que a pessoa passaria a agir de modo diverso ao que realmente deseja por medo de causar sofrimento aos que estão ao seu redor?

Não esperem que eu tenha a audácia para tentar elaborar uma resposta pra nada disso, é claro. O que estou compartilhando são algumas reflexões que me ocorreram a partir do olhar para este mundo que nos completa e nos devora.

Até porque, da mesma forma, alguém poderá dizer que ninguém vive a vida que deseja, ainda que tenha dinheiro e outras condições para isso. Existe a sociedade, as leis predeterminadas para as quais viver coletivamente são imprescindíveis – isso para não mencionar o simples fato de que por melhor que se planeje, as coisas podem dar errado.

Mas claro que o que me refiro aqui é ao viver o que se deseja apesar do que disserem, apesar das convenções, dos medos, das regras. Quantos não foram assim, ao longo da história, e abriram caminhos para muitos que vieram depois? Mata Hari, Marlene Dietrich, Anais Nïn, Madonna... Isso só para mencionar quatro mulheres sobre as quais não se poderá dizer o contrário. E não que o caminho delas tenha sido fácil: viveram, e sofreram as consequências das suas escolhas, ou daquilo que acreditavam ser o único caminho possível.

Depois de uma certa idade, penso que prolongar a vida com qualidade pode ser também uma maneira de ver ou fazer mais daquilo que se deseja. Por isso, olho para frente sabendo o tanto que já caminhei, mas ligeiramente mais preocupado em fazer muito do que gostaria de fazer – tudo seria impossível, e eu, que sei da minha ínfima condição humana, não teria essa pretensão.

Por agora, sigo com a pergunta de Caetano: Existir: a que será que se destina?

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