17 de agosto de 2026

não voltemos sem nenhum deles

Minha avó nasceu em 1924, no sítio Canto, em Cariús. Em 1932, quando ela tinha oito anos, o campo de concentração dos flagelados da seca, ali mesmo, possuía 28.648 pessoas. Ela viveu cem anos, e nunca mencionou nada sobre isso. Ela tinha um senso prático da vida, e sendo católica de manhã até a noite, levava a máxima do evangelho de Mateus à risca: a cada dia basta o seu mal. Não falava do passado. Pelo menos não comigo.

Em 2010, em um bar do centro de Fortaleza, a historiadora e escritora cearense Andréa Saraiva (autora do dicionário Orélio Cearense) depois de um gole de cerveja, criticando uma ação do governo da época, disse: "estão querendo recriar os campos de concentração da seca". Como assim? Campo de concentração? No Ceará? Como os alemães? Não, antes deles. Eu já tinha vinte e cinco anos e lembro de como o cigarro ficou por acender na minha boca enquanto eu ouvia Andréa falar. Fui dormir com essa informação na cabeça. Mas 2010 foi um ano caótico. Eu trabalhava no sistema penal, via minha própria versão de campo de concentração todo dia. Esqueci dos currais do governo, ocupado com os presídios do Estado.

Memória é um problema na juventude e na velhice, mas também é uma questão para a historiografia. Pode ser que o esforço pra lembrar seja um pouco mais do que a vontade de esquecer. Ao contar a história oficial, o esforço foi dirigido para o esquecimento. É necessário que alguém queira, e que não seja proibido, lembrar. Antonio Candido dizia que a literatura organiza a experiência confusa do mundo, e por isso é um direito, não um luxo. Muitas outras pessoas como a Andréa foram cascavilhar, abrir brechas e ampliar vozes através de produções acadêmicas, cinematográficas e literárias.

Não volte sem ele

Uma delas é Rafael Caneca, que em seu primeiro romance fala do campo do Patu, em Senador Pompeu: "Não volte sem ele" (Mondru Editora). Nele, Tomás sai atrás do irmão Antônio, que sumiu em Fortaleza. O pai manda um recado antes da partida, que também dá título ao livro. A busca atravessa os currais do governo, os campos de concentração da seca. Com uma prosa que recorre ao símile, talvez pela urgência do relato, talvez pela existência metafórica do sertão, entramos num vórtice que só termina com o fim do livro. Minto, caímos em um abismo.

O livro apresenta uma visão fracassada e histórica acerca do semiárido sertanejo. Tudo começa pela palavra: combate. Como se fosse possível vencer a seca em vez de conviver com ela. A seca como adversária fez com que a prática política e todas as relações de poder e dominação aparecessem o tempo todo como pano de fundo da história. Na impossibilidade de vencer a inevitabilidade da seca, o governo decide vencer a população.

Em determinado momento da narrativa, o trabalho forçado na construção de um açude para barrar a estiagem surge como alternativa, e Tomás é um dos corpos que se obriga a carregar pedras por um pouco mais de comida e água. Esse Sísifo sertanejo se vê obrigado a lidar com a repetição da história: violência, higienização social, trabalho por comida, morte anunciada por tifo, por desidratação. Morte desavisada, porém desejada. Essa lógica permaneceu por décadas, até virar outra coisa: Políticas de Convivência com a Seca. Tarde demais para as mais de 70 mil pessoas.

A literatura organiza o que sem ela fica em desordem. Tomás sai atrás do irmão porque um corpo desaparecido é a desordem mais insuportável que existe. Não ter onde enterrar, não ter para onde escrever, não ter resposta. O livro inventa um fim pra essa busca. A vida raramente inventa. Contado, o caos ganha capítulo, personagem, arco. Isso é ordem. Como eu disse, a palavra nomeia o mundo. Por esses dias, perguntei aos meus tios, tentando achar algum fio que me conduzisse pelo menos a um “acho que ouvi falar”, mas eles também nada sabiam. As coisas não existem quando não são faladas, e minha avó nunca me falou do curral de Cariús. Ela morreu aos cem anos.

O livro deu nome ao que ela nunca nomeou. Toda ficção histórica é um empréstimo consignado de palavras a quem não as teve, e por isso é importante devolvê-las. Não é uma posse. O autor não esteve lá em 1932, mas resgata a história de quem esteve.Esse tipo de literatura não ressuscita os mortos, mas tem uma dívida com eles. O autor inventou palavras e uma história para que o Patu não seja só uma fábula. O livro pode se tornar aquilo que faltou a tantas gerações: nomear o inominável. Enquanto não temos as palavras exatas para dizer, toda sombra continuará acontecendo, disfarçada de rotina, nas margens onde se insiste em não olhar.

Lembrei aqui de Cortázar, que nas aulas de Berkeley em 1980, falando da função da literatura, partiu para uma discussão sobre a política impressa nos seus escritos. Disse, naquela aula, que percebeu dois momentos: no primeiro, se via como um 'escritor latino-americano', mas isso era apenas carregar o continente como adjetivo, e adjetivos podem ser cortados. No segundo, se viu como um 'latino-americano escritor', e isso inverte a ordem: a escrita nasce da identidade, não a decora. Identidade é processo. De alguma forma, “Não volte sem ele” assume essa segunda posição. Nomeia o que os flagelados não puderam dizer. Não voltemos sem nenhum deles.

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