Ensaio de despedida: narração e vida no romance Ressalga, de Bethânia Pires Amaro
Por Paulo Zan

(Reprodução)
Ressalga narra a história de três gerações de mulheres. Janaína (avó), Graça (filha) e Flora (neta). E durante essas três gerações, somos apresentados aos acontecimentos, em diversos cantos da Bahia, mas em especial em Cachoeira e no centro histórico de Salvador, que formaram a vida destas personagens. É uma espécie de romance de formação, pois a personagem narradora Flora passa, elaborando suas memórias, por toda a sua vida até aquele momento onde ensaia uma despedida.
Na história, Flora parece procurar alguma coisa, ou alguém, talvez a mãe?
Durante um tempo, sim, ficamos sabendo, ela procurou pela mãe, mas por que?
O que aconteceu para que elas se separassem?
A medida em que vai apresentando essas perguntas ao leitor, a narrativa de Bethânia Pires Amaro, com destreza nos envolve em cada história que contam a respeito de Janaína, que andava com uma santa debaixo dos braços, ou de Graça, que se envolveu com um rapaz que morava do outro lado da ponte do rio Paraguaçu, ou de Flora, a “filha da puta”, que cresceu entre as águas do Paraguaçu e a época de ouro dos cabarés da Ladeira da Montanha.
A autora escolhe uma narrativa em primeira pessoa que elabora as cenas sempre através da reconstrução e ressignificação de memórias. São palavras faladas. E talvez isso espante alguns leitores menos avisados, aqueles que esperam uma narrativa muito coesa e condensada, dividida em episódios muito claros, com marcas de travessão indicando as falas… Até tem capítulos assim, em momentos muito raros, quando a narrativa volta para o presente, para Flora andando à procura da história da Mulher de roxo, figura mítica de Salvador, que andava vestida de freira ou de noiva pelas ruas do centro histórico nos anos 90. O que encontramos nas palavras que compõem esta obra, no entanto, são vários episódios das vidas dessas mulheres, mostrando o que fizeram, suas escolhas, seus destinos, medos e desejos. E Flora, à medida em que a narrativa avança, passando pelos anos de formação de sua mãe, Graça, Gabriela, Gigi, Garça Preta (essa misteriosa mulher de tantos nomes), cresce e ensaia aquilo que procura desde o início, mesmo que dando voltas para chegar neste lugar.
Estas mulheres têm suas histórias marcadas por muita violência, por “destinos” escolhidos por terceiros mas que, se olharmos de perto, elas recusaram. Não é porque alguém te diz para temer o fogo que você não pode mergulhar de cabeça nele.
A minha experiência com a leitura de Ressalga foi extremamente positiva. Não queria largar o livro. De capítulo em capítulo, indo e voltando nos enredos que são as vidas das personagens. Aqui as personagens não são motor da narrativa, elas são a própria narrativa, suas vidas, suas ações, desejos, medos, as histórias que contam, tudo isso é Ressalga, é o cheiro que exala das algas do mar.
Bethânia tem referências (ou influências) muito claras: Gabriel García Márquez, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Toni Morrison, enfim, uma profusão de narradores de quem ela toma algumas ideias emprestadas, mas não deixa de ser original. Muito pelo contrário, o estilo da autora mostra o quanto ela trabalhou o texto para que ele soasse exatamente como soa, para que exalasse o cheiro que exala. É um baita trabalho poético que em raríssimos momentos vacila. Algumas poucas palavras, como “ancestralidade”, usadas por Flora já no final do livro, soam redundantes, uma vez que a narrativa é uma história de ancestralidade, de herança mas também de algumas recusas. Mas são momentos tão raros de excessos que não estragam a experiência de leitura.
E o final, que final!
Depois de toda essa “viagem” através das memórias, e das visitas a lugares onde se teve notícias da Mulher de roxo, e onde nós leitores sentimos certa ansiedade por ela, pelas possíveis e sempre incertas descobertas, Flora desce a ladeira para o mar. E envolvida por muitos sons, cheiros e sabores, a personagem parece encontrar finalmente o que procurava e, ao fechar os olhos, nos faz ver, sentir, a ressalga.
Janaína havia dito que “para fugir da beleza, [...] para fugir de qualquer coisa, minha filha, é coisa simples — basta fechar os olhos” (Amaro, 2026, p.47). Mas Flora ressignifica tudo isso. Para ela, fechar os olhos agora é a descoberta das palavras certas para uma despedida.
Referência da obra resenhada
AMARO, Bethânia Pires. Ressalga. — 1. ed. — Rio de Janeiro : Record, 2026.
Minibio autor
Paulo A. T. Freire é mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) com pesquisa sobre memória e linguagem em narrações da ditadura militar. É também escritor, já tendo publicado 4 livros, “Desaparecer” (Mondru, 2024), “Ahistória de uma busca (Urutau, 2024), “Trapaças” (Caravana, 2023) e “Linha tênue” (Margem, 2022), assinando com o nome artístico Paulo Zan.

