18 de outubro de 2026

O elemento e o que ainda vive debaixo da cidade

É possível enterrar o passado? Talvez seja essa uma das perguntas que atravessam O elemento, quadrinho escrito e desenhado por Fido Nesti, publicado pela Quadrinhos na Cia. Não falo apenas de esconder documentos, silenciar pessoas ou recontar a história de acordo com os interesses de quem está no poder. Falo de colocar tudo debaixo da terra e seguir caminhando sobre os mortos como se nada tivesse acontecido.

Estamos em 1979. Enquanto parte do mundo olha para o céu à espera da queda da estação espacial Skylab, o jornalista Arsênio precisa olhar para baixo. É no bairro da Liberdade, em São Paulo, que a descoberta de ossadas abre o caminho para uma investigação na qual realidade, memória e delírio passam a ocupar o mesmo espaço.

A escolha da Liberdade não acontece por acaso. O bairro que hoje costuma ser reconhecido por sua ligação com a cultura japonesa também guarda uma história anterior, marcada pela presença negra, pelo antigo Cemitério dos Aflitos e pelos corpos de pessoas escravizadas e condenadas que foram enterrados naquela região. Fido Nesti transforma esse passado soterrado em parte da própria cidade. São Paulo deixa de ser apenas o cenário da narrativa e passa a agir sobre os personagens, escondendo, confundindo e, vez ou outra, devolvendo aquilo que tentaram apagar.


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Arsênio também parece carregar algo que não consegue organizar. Seu nome, evidentemente, não é gratuito. O arsênio é um elemento químico, mas também uma substância associada ao veneno. A partir dele, Fido constrói uma história na qual cada elemento pode assumir mais de um significado. A química organiza a matéria, a tabela periódica tenta classificar o mundo, mas a experiência humana resiste às divisões tão bem arrumadas.

Talvez esteja aí uma das ideias mais interessantes do quadrinho. O ser humano sente necessidade de nomear, separar e colocar cada coisa em seu devido lugar. Contudo, o passado não respeita nossas classificações. Os mortos reaparecem. As vozes permanecem. O que parecia enterrado contamina o presente. Mesmo quando sabemos o nome de um elemento, ainda precisamos descobrir como ele reage ao entrar em contato com os demais.

A narrativa policial oferece ao leitor a expectativa de que alguma ordem será restabelecida. Há ossadas, perseguições, militares, uma cantora desaparecida e um repórter tentando compreender o que acontece. Esperamos que a investigação organize os fatos e nos entregue uma resposta. Fido Nesti, porém, parece mais interessado em aumentar nossa desconfiança. Em um país no qual a própria realidade era controlada, censurada e falsificada, como saber se aquilo que Arsênio vê aconteceu de fato?

Essa dúvida não diminui a força da narrativa. Ao contrário, ela nos coloca dentro da experiência do personagem. Arsênio não é um investigador que observa tudo de maneira segura. Ele está envolvido, acuado e, em muitos momentos, parece não confiar nem mesmo nos próprios sentidos. A paranoia deixa de ser apenas uma característica individual para se tornar uma forma de viver em uma sociedade autoritária.

É importante lembrar que 1979 não representa o fim da ditadura. A Lei da Anistia havia sido aprovada, havia alguma abertura política e o país parecia caminhar para outra direção. Mas os militares continuavam nas ruas, as estruturas de repressão permaneciam e as feridas estavam longe de ser reconhecidas. O quadrinho ocupa justamente esse intervalo estranho no qual alguma coisa parece terminar, embora continue presente em quase tudo.

Fido Nesti poderia contar essa história de maneira grave, escura e realista. Escolhe outro caminho. As cores, as alterações gráficas, as referências musicais, os anúncios publicitários, os punks e as imagens que parecem sair do controle fazem com que a leitura adquira um ritmo próprio. O delírio não serve para fugir da história brasileira. É por meio dele que a violência daquele período se torna visível.


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Isso me parece fundamental em O elemento. A ditadura não surge somente quando aparecem homens fardados. Ela está na maneira como as pessoas ocupam a cidade, no medo de falar, na insegurança diante do que se vê e na sensação de que qualquer caminho pode levar a uma emboscada. A opressão aparece menos como uma explicação histórica e mais como uma atmosfera.

Os quadrinhos permitem que tudo isso aconteça simultaneamente. Texto, imagem, cor e composição não estão ali para repetir a mesma informação. Muitas vezes, o desenho contradiz a aparente segurança das palavras. Em outras, a página se desorganiza como se o próprio mundo de Arsênio estivesse perdendo sua forma. Ler também exige atenção aos elementos escondidos, às mudanças de ritmo e ao que surge nas margens.

Depois de adaptar 1984, de George Orwell, Fido Nesti retorna ao autoritarismo, mas agora olha diretamente para o Brasil. Se na obra de Orwell o poder procura controlar a linguagem e a memória, em O elemento encontramos um país que aprendeu a esconder seus mortos e a desconfiar de quem tenta procurá-los.

Talvez por isso as ossadas sejam tão importantes. Um corpo enterrado é uma prova, mas também é uma história interrompida. Quando reaparece, obriga os vivos a responderem por aquilo que fizeram ou permitiram que fosse feito. O problema é que nem toda sociedade deseja conhecer seus mortos. Algumas preferem construir ruas, prédios e discursos sobre eles.

No fim, O elemento não trata apenas do que aconteceu em 1979. Trata daquilo que ainda reage entre nós. Como na química, certas combinações produzem efeitos mesmo quando seus componentes parecem separados. A violência da escravidão, o apagamento da presença negra, a repressão militar e a cidade contemporânea não pertencem a compartimentos completamente distintos.

Fido Nesti mistura esses elementos e produz uma obra estranha, colorida, acelerada e inquietante. Uma narrativa que olha para o céu, mas sabe que as respostas, ou pelo menos as perguntas mais difíceis, continuam enterradas debaixo dos nossos pés.

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