Os 15 centímetros de Bukowski – O realismo sujo de amores em decadência
Por Bruna Esteves

Foto – Pinterest
Calma, antes que você conclua o pensamento, saiba que esta medida não se refere ao que está pensando! Na verdade, “15 Centímetros” é um dos contos que compõem a obra “Crônica de Um Amor Louco” (L&PM POCKET, 2024), e apesar de ter sido escrito por Charles Bukowski – o que nos levaria a pensar em algum tipo de safadeza – o título é uma metáfora para algo muito maior do que a genitália masculina quando estimulada pelo desejo e erotismo.
O conto narra a história de Henry Chinaski, um homem que se deslumbra com a beleza encantadora de Sarah, uma colega de trabalho. E mesmo tendo sido advertido sobre o fato de não ser uma mulher confiável, se entrega rapidamente neste relacionamento amoroso, casando-se com ela em poucos meses. À priori, Henry pensa que se casara com a mulher ideal: bonita e fogosa. Mas com o passar do tempo, vai percebendo que ela esconde uma faceta sombria e misteriosa.
Acontece que Sarah fica descontente com a aparência física do marido que engordou alguns quilos consideráveis durante o início do casamento, razão pela qual passa a ridicularizá-lo. Além de humilhá-lo diariamente, também o obriga a fazer dietas radicais e a deixar de fazer várias coisas que gostava. O único prazer que se recusou a abandonar foi a bebida e, mesmo assim, Sarah controla o dia e a quantidade que ele pode beber sua cerveja gelada.
A cada parágrafo do texto, Henry vai perdendo peso e emagrecendo numa velocidade extraordinária. O surreal da história é que, ao mesmo tempo em que emagrece, o personagem também vai diminuindo de tamanho! Quanto mais Henry Chinaski acata as ordens da esposa, vai diminuindo até obter a estatura de meros quinze centímetros. Tão pequeno que até os insetos se tornam criaturas gigantes e assustadoras!
Ao mergulhar no realismo sujo desta obra, este maravilhoso conto fala sobre relacionamentos tóxicos e o quanto nos diminuímos para caber na vida de outra pessoa. O quanto deixamos de fazer o que nos agrada e nos faz bem, para fazer o que agrada ao outro, principalmente para suprir suas expectativas com relação à nossa pessoa. Para mim, a mensagem é clara: nos tornamos insignificantes e quase invisíveis ao mundo quando nos diminuímos para caber nas expectativas de alguém. Deste modo, perdemos a capacidade de sustentar nossos próprios valores, desejos e virtudes a tal ponto de começarmos a desaparecer sem deixar rastros da nossa existência.
E não só isso, acostumamos a nos contentar com o mínimo que nos é oferecido de amor, afeto, atenção etc., acreditando ser algo grandioso e fantástico – quando, na verdade, também perdemos o senso crítico e a capacidade de mensurar o tipo de tratamento que nos é dado em nome desse amor. Subdimensionamos o sentimento, aceitando migalhas pensando que é amor verdadeiro. No fim, Bukowski tinha razão ao afirmar que o amor é tudo o que nós dissemos que não era.
O plano de Sarah, ao casar-se com Henry, era o de transformá-lo em um vibrador ambulante. Para além desta distopia bizarra, podemos interpretá-la como uma tentativa de dominação pelo sexo, em que muitos parceiros só pensam em satisfazer o próprio prazer, sem levar em consideração os sentimentos, os desejos e o prazer do outro. O parceiro ou a parceira é incapaz de verdadeiramente enxergar a pessoa amada, pois o que se ama é apenas uma idealização e a busca pela satisfação do ego.
A validação física se torna uma arma de poder dentro de uma relação amorosa, pelo fato de o parceiro ditar as regras de como a pessoa deve aparentar, comer e até se vestir. É uma manipulação psicológica, muitas das vezes, sutil em que o outro se submete às ordens ou aos “pedidos mais inofensivos” para não ser rejeitado. Nestes relacionamentos abusivos, o amor acaba se tornando uma moeda de barganha e prêmio pela pessoa ter se comportado da maneira esperada ou almejada. Tudo gira em torno de interesses pessoais, e não do casal.
Retornando ao título, a medida citada também retrata a insegurança masculina e o complexo de inferioridade com que muitos homens lidam com sua sexualidade, atrelando virilidade e desempenho sexual com o tamanho do pênis. Em outras palavras, a mentalidade é a de que só é bom de cama, quem tem o pênis mais avantajado (lembrando que o tamanho de quinze centímetros está na média ou um pouco acima dela). Dito isso, meu caro leitor(a), acredito que tinha razão ao cogitar este pensamento logo no primeiro parágrafo deste texto.
O velho safado não sabia pensar em outra coisa além de sexo. Deve ter encontrado uma mulher que fez pouco caso de sua virilidade, vai saber. Agora, quinze centímetros não são desprezíveis. Se ele estava se gabando de algo inverídico, também não quero saber. Vamos nos ater tão somente a ideia de que não devemos nos diminuir para agradar ninguém.
Bruna Esteves, jornalista, escritora e poeta baiana.
Formada em Jornalismo pela Unijorge e em Direito pela Faculdade Ruy Barbosa. Publicou o livro “As Nuances do Amor” (2023) e o e-book “Vidas Baianas” (2025).
Finalista no 2º Concurso Arpillera de Poesia.
Também já publicou mais de cinquenta textos em diversas coletâneas, antologias e revistas literárias do país. Lançou o podcast “Entre Linhas Breves” (2026), para refletir sobre os mais variados temas já escritos por poetas clássicos e contemporâneos.


