As máscaras de Nietzsche, de Matheus Arcaro
Em "As máscaras de Nietzsche", publicado pela editora Patuá, Matheus Arcaro cria um romance em que forma e história se entrelaçam para nos apresentar, ao mesmo tempo, o filósofo e o homem Nietzsche; suas ideias, paixões, sonhos, amores, angústias e contradições.
Como o ator que, em cena, constrói um personagem para falar com seu público coisas que só os personagens podem dizer, o autor, através das máscaras/cartas de Nietzsche que o filósofo supostamente teria escrito a Apolo e Dioniso durante sua internação na clínica em Jena, intercala realidade e ficção. E assim, nos obriga a depararmos com a complexidade das questões humanas que permeiam nossas vidas, as relações amorosas e conturbadas, a fronteira tênue entre saúde e doença, sanidade e loucura.
Nas cartas, um pedido desesperado aos deuses para escrever uma ópera, se misturam desabafos, confissões e delicadas histórias de Nietzsche com a mãe, a irmã, Lou Salomé e sua conturbada relação com Wagner.
No decorrer da leitura, Matheus também nos brinda com frases e pensamentos primorosos tais como: "Você (Apolo) é máscara para que o horror seja palatável aos olhos". Ou somos presenteados ao ouvir Zaratustra ora a gargalhar enquanto caminha sobre o fio da navalha, ora a cantar sua ode à vida!
Para além do texto, há no romance um silêncio. Um silêncio estranho, cheio de ranhuras, como se algo pudesse ser revelado, mas escapa no umbral da revelação.
Talvez, como afirmou Baudelaire, a arte seja a única centelha divina a que somos permitidos. O resto é silêncio.
Andreia Fernandes, escritora.

