2 de setembro de 2014

2 poemas de Natasha Felix

Clandestina

Morrem mais quatro na favela do Jacarezinho
um fazedor de pães
uma professora sem magistrado
uma criança mirando pro alto
um cachorro desavisado
Se perguntarem, foi confronto e pronto.
Metonímia crua de um todo mais que largo.
contra fatos não há retratos
há maltrato, desamparo, caco
pingo de bala no chão, silêncio na multidão
(sem um pio, eles ouvirão)
Uma flor nasce no cantinho
entre um beco e um suspiro
Drummond bem que avisou:
tenho apenas duas mãos.

Anestesia

Dois corpos nus no divã
Nus suados
suados e exasperados
Exaltados
Eufóricos
Descontrolados

Preenche-se a vasilha
que antes, vazia, não se distinguia
diante da multidão
de vasilhas tão secas
tão ''só vasilhas''

Mas já no lençol amassado
voa sutiã, bermuda, camisa
voa alma
voa o tempo
tempo tanto que já nem se sabe
o que o tempo de fato é

Fica a inconstância
fica o desapego do mundo
O aconchego da pele
Os sussurros cantados
A valsa do desejo mútuo

Fica a anestesia da vida.