3 de novembro de 2014

Por escrito, de Elvira Vigna

No rastro dos escritores que começaram a tomar tom, cor e forma nos idos dos anos 90 até os dias de hoje, Elvira Vigna se situa numa posição sui generis. Primeiro porque é injusto dizer que ela começou a deixar de ser uma massa amorfa para existir nos anos 90, uma vez que a literatura parece sempre ter feito parte da vida da escritora, que começou a publicar na virada dos anos 70 para os 80 e não parou desde então. De lá pra cá, tem sido uma ativa escritora (inicialmente de livros infantis), ilustradora e tradutora. Mas apesar de um Jabuti por sua literatura infantil, tem sido desde que ela se consolidou como escritora de livros para adultos que seu nome vem sendo mais notado. Segundo porque, tal como sua obra, ela está e não está no meio literário. É um repleto perdido em lugares abstratos, onde a vida passa de maneira fugaz (e nem por isso menos atroz).
Por Escrito (Companhia das Letras, 312 páginas) não foge a esse amplo universo vigniano, que no fundo nada mais é do que o que existe de mais multifacetado dentro de nós mesmos, num juntar de peças que pode ou não resultar em alguma coisa. O que importa em sua obra - e sua mais recente traduz precisamente isto - parece ser o percurso, a trajetória, e o deserto que nos habita. 
["... eu precisava de um nome para o personagem principal que era uma mulher completamente idiota, muito fácil de ser machucada pelos outros".]* 
Por Escrito é narrado sem qualquer pacto com a linearidade. A autora abarca vários períodos (de transformação) da sua protagonista, com idas e vindas no tempo, mutações, mudanças, que exigem um leitor atento. Os personagens parecem se esconder de quem percorre olhos e dedos pelo livro. E o fazem através de uma linguagem que parece fazer de conta que é romance, que é relato, experimentando formas e caminhos de forma errática, mas nunca desviando o leitor da viagem para os recônditos dentro de si mesmo.
["... minhas histórias são sempre coisas que de fato aconteceram".]
Valderez, a narradora, é essa mulher de meia-idade que já viveu muitas vidas além da sua. Trabalha para uma empresa que lida com café, produtos de café, máquinas de café, e este emprego exige que ela esteja sempre de passagem pelos cantos-fugazes, pelos vazios abarrotados de aeroportos, carros com motorista que só se vai ver uma única vez e mais nunca, quartos de hotel, corredores e stands de eventos chatérrimos. E mais lá pra frente ela perde este bendito emprego. Até aí, sem grandes precipitações, porque 
["Nunca pude assumir tamanha fragilidade, essa facilidade com que as vezes me machuco".]


o "por escrito" que justifica o título na verdade é a forma que a narradora tem de tentar se entender. Ou não enlouquecer. Ela gosta de anotar as coisas, e resolve fazer este relato contemplativo para o amante, com quem tem uma relação de muito amor e algum desprezo. Ou de muito desprezo e algum amor, quem decide é o leitor.
["No papelzinho em que tomo nota do que se passa nessa manhã está escrito que não há pinheirinhos na Paulista em primeiros de janeiro. Também não há pinheirinhos nos outros dias do ano. Então, o que tomo nota no papelzinho é na verdade uma ausência de uma ausência. A condição de sem-pinheiro  não seria notada, não é para ser notada, já que essa ausência de pinheiros é a presença estabelecida, esperada, no cenário em questão. Mas sei por que tomo nota das ausências, eu sei. É isso, isso aqui que escrevo. É isso, isso aqui que escrevo. É uma questão do que está na nossa frente e nem notamos, o que está ausente mas presente. Qual dos ontens será o amanhã."]

Ao longo do romance, e ao unir as pontas soltas que a narradora vai deixando, podemos compreender essa imensidão dentro do não-lugar, que chega a ser quase um portal para quem está diante da hesitação, dos equívocos, do ir-ou-não-ir, do fazer-ou-não-fazer, dentre tantas outras efemérides que compõem a vida e o viver. E além disso, ou ainda dentro disso, temos também o que pode ou não ter sido um crime.  

["O Deserto Vermelho, de 1964, é um clássico do neo-realismo italiano. (...) Nele assim como no meu livro, as personagens aparecem ou desaparecem, sem que se veja exatamente quando, apesar de todos os detalhes estarem lá. (...) Em O Deserto Vermelho, como no meu livro, as pessoas estão sempre em lugares que não são os delas: de passagem, por acaso, ou simplesmente perdidas".]

Segundo a própria autora [Por Escrito] "é esse incômodo de você às vezes perceber que está vivendo algo que não está lá. Que a tua vida pode não ser o que você acha que é.".

["Tive na minha vida essas viagens que nunca acabavam nem começavam, de e para lugar nenhum, e onde eu passava a maior parte do tempo sem fazer nada, andando nas ruas, sentada em cadeiras pré-moldadas, deitada em colchas de hotéis baratos, olhando o negro das janelas de metrôs, o branco das janelas dos aviões, falando frases que não eram minhas. Desse período, tão longo, ficaram uns poucos dias. Uns porque nunca acabaram, outros porque nunca existiram, o anterior se debruçando sobre o novo que não conseguiu se instalar."]


["Tem uma coisa que aprendi trepando, porque fico bem mesmo trepando, ou seja, abrindo mão de qualquer defesa, qualquer controle, me permitindo uma integração completa com o que (quem) está perto de mim. E o que aprendi é o seguinte. Que é assim que se goza. E isso vale também para os que acham que estão no controle. Porque justamente não estão. São só mais frágeis. (...) O homem (no meu caso é homem porque trepo com homem) precisa inventar que tem o controle, o poder, que está lá dono da situação e que pode fazer o que quiser. É ele o mais frágil. É ele quem precisa de mais garantias, todas fictícias, para poder relazar e gozar. Se você fantasia o poder e o controle, você é muito, muito mais frágil. E isso serve mesmo quando não se está trepando."]

Elvira Vigna se entrega sem pedir permissão. Sem condescendência. E é por isso mesmo que seu Por Escrito invade, adentra sem antes bater. E é por isso que merece ser lido.
* Os trechos entre colchetes foram retirados do vídeo de apresentação do livro na página oficial da escritora, do texto de apresentação do romance escrito pela autora e de trechos do próprio livro.

SORTEIO

O LiteraturaBr dessa vez irá sortear o livro “Por escrito”, de Elvira Vigna, que foi editado pela Companhia das Letras. Pra participar é muito fácil, presta atenção pra saber como concorrer. Antes, alguns lembretes: a promoção é válida apenas para fan-amigos da fan page do LiteraturaBr e que têm residência no Brasil. A responsabilidade pelo envio do livro é nossa! O sorteio será realizado lá pelas 17h00m do dia 09 de novembro de 2014. O ganhador deverá entrar em contato com a fan page do LiteraturaBr para oficializar os trâmites para a entrega. 
Agora, sim, ao regulamento:
1. Curtir a fan page do LiteraturaBr<
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Este sorteio também pode ser lido aqui: 
https://www.sorteiefb.com.br/tab/promocao/400425