Você deu certo na vida?
Minha mãe sempre sonhou em ter um filho médico, e embora utilizasse o discurso do “que ele/ela seja feliz com a carreira que escolher”, de vez em quando deixava claro que a coisa não era bem assim. Eu nunca topei essa área. Admiro, acho bonita, essencial, mas não é pra mim, e isso estava pacificado em mim, não importando quantas vezes eu tenha ouvido que era bom ter um médico para cuidar dela na velhice.
Encontrado em duas carreiras que lidam diretamente com a palavra, sinto de maneira intensa que cuido profusamente das pessoas: educar é a forma mais profunda de espalhar um legado, e a herança do conhecimento é o bem imaterial que carrega em sua essência o que pode haver de mais significativo num ser humano.
Antes disso vieram as ameaças veladas: Que você não invente de ser filósofo, cientista social, professor, que no Brasil ainda corre o risco de apanhar dos alunos, fora que o salário é de fome, me diziam. Quando foi justamente pela carreira de professor que optei, as pessoas ao meu redor queriam um alento qualquer: pelo menos seja professor universitário. Ou então, faça um concurso pra ser professor do município ou do estado.
Por fora, eu ria, mas por dentro, aquelas pressões me chateavam. Quem essas pessoas achavam que eram para me empurrar em direção a caminhos que cabia a mim descobrir? Não seria eu que deveria agir de acordo com meus próprios ditames?
O certo é que a possibilidade de uma carreira no serviço público me seduziu durante muito pouco tempo, e depois de trabalhar durante anos em diversos empregos ao mesmo tempo, assumi a minha tendência para a falta de status: não quero mais conversa com algo em que eu não esteja completamente livre (o que não significa, evidentemente, que eu não defenda a carteira de trabalho e os direitos dos trabalhadores, é claro. Eu mesmo adoraria ter todos esses direitos assegurados, mas aí está um dos ônus da liberdade).
E claro, vez ou outra tem aquela pessoa que antes estava na mídia e agora está fazendo algo anônimo, geralmente menos glamouroso, e a imprensa vai lá e diz que fulano foi “flagrado” vendendo sanduíche/água de coco/carros – seja o que for, está longe da carreira anterior, quando podia ser visto nas telas ou tocando nas rádios (ou quando tinha mais “plays” nos streamings).
Que uso cretino do verbo flagrar. Rita Lee já havia ensinado que flagra é algo que causa um certo embaraço, além de também poder ser utilizado para uma atitude vexatória, ou para quem for pego fazendo algo ilícito, não para quem está, simplesmente, trabalhando.
Isso quando não querem dar conta da vida íntima, pessoal e instransferível dos outros. Uma jornalista famosa namorando um jovem político de um estado diferente do dela? Que flagra! E que escândalo!
Há alguns anos foi noticiado que jovens de uma escola particular organizaram uma festa cujo tema era “se nada der certo”. Os convidados foram para o evento vestidos de garis, de atendentes do McDonald’s, de vendedores, cozinheiros. Profissões não apenas dignas e importantíssimas, mas que os jovens em questão julgavam ser inferiores.
Caminhamos para tempos em que grande parte da sociedade acredita que pode mesmo ser milionária através das dicas que os coaches financeiros ensinam. Que se você estudar enquanto eles dormem ou estão em festas, você será bem sucedido. Que trabalhar doze, catorze horas por dia, sem direito a descanso, é o que te levará ao primeiro milhão – de muitos! Que a meritocracia existe e que, portanto, basta você se esforçar que o sucesso vem.
A mediocridade do pensamento, do argumento que coloca em xeque a importância de estudar numa universidade diante da grandeza do trabalho incessante sim, é que pode ser considerado o que deu errado. Dar certo afinal, significa o quê? Para qual grupo social?
Sigo dando aulas e escrevendo, sem perspectiva alguma de riqueza financeira, mas com as contas em dia e poupando um pouco para o futuro, que a cada dia vai caminhando para se tornar presente. Nesse mesmo tempo, o mundo parece valorizar mais aqueles que estão marcando horário até para se coçar. Quando as coisas vão dar certo eu não sei, mas por ora, parece que tá dando tudo meio errado.

