2 de maio de 2026

O nascer do sol de Isa

No vidro traseiro do carro parado no semáforo, o reflexo de um prédio. A imagem, vista pelo retrovistor, deixa o prédio meio ondulado. Mas em toda parte, uma explosão dourada – são as primeiras do dia – tentando escapar pelas laterais do enorme monumento que tapa o volume imenso do sol e que, daquele ângulo, nasce por trás dele, como tentáculos brotando de um corpo inerte e cuja enormidade projetava uma sombra volumosa, que pelo pouco tempo que durava abarcava tudo de uma completa ausência de luz.

Dentro do veículo estava Isa, que morava na cobertura do prédio, de onde ela acabara de sair para ir ao trabalho. Era preciso sair cedo porque o profissional anterior a ela saía às 7h, horário no qual ela já precisava estar lá para colocar a digital no aparelho que registraria sua presença; de modo que ela acordava às 4 e pouco, tomava café sozinha na mesa da cozinha com a luz ligada, tomava banho e depois seguia para o subsolo: o trânsito ficava ainda pior se ela saísse de casa depois das 5h:30, e podia ser quem nem desse tempo de chegar no horário, daí a correria.

O sonho do apartamento vinha da origem: os pais só tiveram uma casa própria quando ela pôde dar uma para eles, que lhes coube bem para a vida que pretendiam ter. Estava feito o primeiro milagre. Em seguida, para ela, a necessidade de alguém que providenciasse alguns milagres a mais. No seu caso, eram os plantões, sempre negociados através de grupos de contratos com colegas em hospitais que ela não conhecia bem, com equipes nas quais não havia intimidade – mas havia uma boa oferta. Isa não era namorada, esposa, nem mãe. Empilhava as horas, que se transformavam em dividendos. Tratava o exagero como trivial, e colocou na cabeça que cada real ganho era mais um tijolo na sua moradia própria, e ela precisaria de muitos: para ela o que cabia era a cobertura.

Foram alguns anos nessa prioridade, mas conseguiu. Comprou o apartamento na planta, e já o deixou praticamente pago. Agora sim estava pronta para começar uma vida pessoal que incluísse outras pessoas de forma mais próxima. Mais próxima no sentido de íntimas, porque amigos ela tinha, ou gostava de pensar que sim, apesar da falta de tempo de todos os dias. Fazia o que podia. Respondia sempre nos grupos, marcava algo em pelo menos um dos finais de semana de cada mês ou dois. Jogou para o alto um dos plantões, não precisava mais daquele dinheiro, ufa. Mas agora que se achava pronta, quem disse que era fácil? Não foi, não poderia ter sido. As construções afetivas se demonstravam frágeis, descontinuadas, avessas às possibilidades de sonho.

Sua alegria era saber que o prédio em construção crescia, crescia. Acompanhava aos poucos, pelas filmagens que a construtora ia disponibilizando, pelas fotos dos outros compradores em mais outro grupo no celular. Entre uma coisa e outra, geralmente aos domingos, ia ela mesma até onde o prédio era erguido para ver no local o que em imagens parecia algo quase pertencente a uma outra pessoa. Era como tomar as rédeas de um sonho. Quando a cobertura começou a ganhar forma e cor, sentiu pela primeira vez a ansiedade como algo insidioso. Ainda lembrava quando era criança e alguém dizia que estava ansioso pelo lançamento do novo filme dos Trapalhões, ou ansioso pelas férias, pelo novo livro do Pedro Bandeira ou da série Vaga-lume, e ninguém medicalizava a ansiedade. O que não significa que ela não precisasse ser observada com a devida importância, mas há apenas alguns anos antes, dizer que estava ansioso ou ansiosa não fazia quem ouvisse imediatamente arregalar os olhos demonstrando preocupação. Ou surpresa. Ou ambas. Estava-se ansioso ante a possibilidade da alegria que vinha, não de uma doença. 

Quando a data para mudança foi anunciada, os moradores iniciais já quiseram marcar uma data para irem abrir uma champagne no salão de festas, faziam promessas de melhores amigos e pareciam dispostos a se chamarem de família, até que alguém um pouco mais lúcido disse, Calma, gente, vamos primeiro nos instalar nas nossas novas casas. A que seria uma das vizinhas de Isa no andar de baixo disse, Mas será que a gente não pode combinar nem um brinde? Depois cada qual vai para o seu apartamento e continuamos as celebrações pelo WhatsApp. Assim fizeram. Vai que alguém resolvia sair do novo “grupo de família” antes mesmo da família nascer de fato. E era bom mesmo que conhecessem uns aos outros, como faziam antigamente as pessoas no interior, pensou Isa.

Nos primeiros finais de semana, Isa não conseguia se conter de alegria. Chamou as amigas, os pais, o irmão mais novo. Satisfeitas as curiosidades alheias e as suas necessidades de mostrar o que tinha, ainda passou mais alguns sábados e domingos contemplando o mar e o nascer do dia da sua sacada, onde tudo parecia grandioso, infinito até, e livre. Deitava-se numa cadeira reclinável ao lado da piscina, colocava um chapéu para amenizar a intensidade da luz e ali mesmo tomava algo antes de ir aproveitar o resto do dia. Estava se sentindo, pela primeira vez, num estado total de conexão consigo mesma, e isso era inexplicável.

Um ano e alguns meses depois, acabou-se a alegria. Na verdade, pouco mais de dois anos depois, porque nas correrias Isa só seu deu conta do que ia acontecer quase seis meses depois que a nova construção começou a surgir, bem ao lado do seu prédio. Perguntou e lhe disseram. Um prédio de dezenas de andares. Vários andares além do seu, e o que isso significava? Que sua vista livre do mar seria perdida. Nunca se deu conta do outro terreno bem ao lado do seu, achava que era um estacionamento, um terreno baldio, sabe-se lá o que ela achava. Talvez Isa só não tenha pensado muito a respeito, ocupada com outros pensamentos. Pensou em rebelar-se, foi buscar o que as leis diziam: estava tudo dentro do previsto, não havia o que fazer. 

Quando o prédio ficou pronto, todo mundo dizia que parecia Dubai, que era inovador, uma estética futurista. Isa não sabia, não conseguia pensar sobre aquilo. Só sabia que era a esses novos inquilinos que o sol pertencia. Acabou-se sua visão iluminada. 

Algumas semanas depois ela soube que o prédio era comercial. Ninguém moraria ali. Quando o sol surgisse não haveria ninguém que pudesse contemplá-lo. Seria sol só, pensou Isa, enquanto via o sinal abrir e pisava no acelerador rumo a mais um dia de trabalho.

O sinal abre e Isa parte rumo ao primeiro plantão da semana, para onde vai cedo todos os dias.

A leitura foi boa?

Ajude a fortalecer a literatura e o jornalismo cultural no Brasil!