3 de junho de 2026

O diabo na caixa de comentários

Já não lembro mais sobre qual era a notícia principal, mas lembro bem que era um blog. De alguma editora, talvez? Vamos dizer que sim. Era certamente sobre alguma publicação literária, isso eu tenho por (quase) certo. Talvez minha memória tenha apagado a informação sobre isso por causa do que ficou, e ela anda tendo o hábito de guardar unicamente o que importa, e isso pode tanto ser uma bênção quanto uma maldição. 

É um hábito corriqueiro, isso de depois de lida a matéria, buscar saber o que os outros que também a leram – supostamente – têm a dizer. É uma maneira inventada para que a gente tenha a sensação de que, ainda que virtualmente, possamos nos sentir em comunidade, trocando ideias, como se fazia antigamente em muitas cidades do Brasil, quando as pessoas colocavam cadeiras na calçada e ficam sentadas conversando banalidades ou nem tanto com seus vizinhos, familiares, amigos. Claro que dar a oportunidade para que o outro “fale” também soa como um gesto democrático, ao permitir a interação e a pluralidade de pensamentos. E sim, faz com que as pessoas compartilhem mais o texto, o que gera mais visualizações, mais engajamento etc – as razões não são todas benevolentes, por certo.

Antigamente, nos jornais e revistas impressos, existia uma seção para isso. Dava-se muitos nomes, mas havia o tal lugar, tanto para quem queria se expressar quanto para quem queria ter um pequeno apanhado do que leitores e leitoras queriam dizer sobre assuntos publicados na edição anterior. Costumava ser pequeno, continha opiniões concordantes e dissonantes, e geralmente ficava ao final do exemplar. 

Quando surgiram os portais de notícias, os blogs e vlogs (meu deus, como isso já faz parecer um outro mundo!, dito hoje em dia – e em muitos sentidos é mesmo), ainda não havia o espaço para comentários. Mas havia um outro, que era o espaço para você colocar seu nome, e-mail, e logo mais uma caixa aberta onde você podia escrever para a pessoa que havia escrito o texto. Era um começo. Depois alguém achou que isso poderia se desdobrar em uma espécie de conversa em que todos poderiam participar praticamente em tempo real, e com o avanço tecnológico, chegamos à possibilidade que esses espaços têm de fazer com que mais pessoas visitem a página com o artigo/reportagem/publicação, enfim, despejem o que têm ou acham que têm a dizer e criar um ambiente que pode representar de tudo: da animosidade à solidariedade, ou de todas essas coisas juntas.

Houve um período na história recente do país em que a caixa de comentários das publicações online passaram a ser espaços para a disseminação do medo, da intolerância, de mentiras e opiniões digamos, no mínimo, problemáticas, porque misóginas, preconceituosas, racistas – ou seja, criminosas, vamos dar nome ao que precisa ter nome – inclusive eram atitudes também estimuladas e praticadas por pessoas que estavam no poder – e isso fez com que diversos meios de comunicação online fechassem a caixa de comentários, deixando o espaço disponível apenas para aqueles que assinassem a publicação – conseguindo, assim, responsabilizar aqueles que iam lá dizer coisas pelas quais pudessem ser chamados à justiça.

Mas nem tudo é desgraça, claro.

Logo no começo dos vendavais que começaram a mudar tudo, como eu dizia lá no início, eu fui justamente ler os comentários de uma publicação sobre um livro, e alguém sugeriu que o livro (ou autor) sobre o qual falava o texto da matéria, dialogava diretamente com a obra de Hanif Kureishi, um escritor que (depois fiquei sabendo) nasceu na Inglaterra, de ascendência paquistanesa. A pessoa recomendava uma breve novela chamada Intimidade, além de outros títulos. Fiquei (sou) curioso, e fui atrás do livro, que recebi em uns quinze dias e comecei a ler imediatamente. Foi uma das experiências literárias mais poderosas que tive à época. O livro, uma espécie de Crime e castigo sobre o relacionamento amoroso, condensa em apenas cem páginas toda uma gigantesca reflexão sobre o amor, a convivência a dois, e o ímpeto por liberdade e mudança. Vale a pena.

E não só: ao longo dos anos, fiz dois amigos – amigos mesmo, desses de saberem os meus gostos, medos e as coisas que me fazem feliz, de me mandar áudios de meia hora no WhatsApp e de viajarmos para nos vermos de vez em quando – ao comentar algo a partir do comentário deles. Sim, eu também acho isso inusitado, mas se tem uma coisa que sigo tendo é o espírito aberto, e me permito fazer da surpresa uma constante por aqui.

E sim, sigo descobrindo bons livros, bons filmes, boa música, a partir de comentários deixados nas inúmeras publicações que leio ao longo dos dias. Mas isso não me torna menos atento ao resto entorno. E o que se mostra bem posto ao nosso lado, ao nosso redor, é muito mais um aterro sanitário do que qualquer outra coisa. Eu sou muitas vezes salvo porque, como já deve ter ficado claro, os comentários sobre os diversos meios culturais que consumo estão dentro da minha bolha. Não são, em geral, locais onde as pessoas vão para deixar ódio – pelo contrário, é onde há o interesse pela partilha, por deixar algo a mais, que possa contribuir. Chega a ser quase ilusório, quando nos deparamos com a tosca realidade do que lemos nesses espaços abertos ao público.

E a realidade é que as caixas de comentários são, em sua imensa maioria, um lugar adoecedor, para o qual só deveríamos ir se estivermos com o equilíbrio das emoções em dia. 

Nos biscoitos chineses contamos com a sorte. A gente quebra e vê a mensagem que está dentro dele, e podemos interpretar o que lermos na tirinha de papel com humor, sem levar tão à sério. Podemos tentar fazer o mesmo se vamos de fato nos aproximar do que o Outro, escondido por trás de uma tela, tem a dizer. Com a carga pesada do dia, que por vezes nos torna dispostos a uma briga (que não teríamos se fosse cara a cara), com a forma como a internet tem se desenvolvido e sido mais e mais permissiva – conseguiremos?

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