A poesia de Fabio Riggi
Fabio Riggi é jornalista, doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e autor de “cidade adeus” (Patuá, 2014). Os poemas a seguir integram seu próximo livro, “Faremos um pacto”, ainda inédito.
Invocação
as duas palavras malditas já estão aqui
vieram para me ver agradeço e me sento
enquanto elas em pé se apoiam contra mim
doula a musa
risca o fósforo
pois já não há lâmpadas risca o fósforo
pois já não há fósforos pois já não há sólidos fósseis
vós sede serenos sede de países do sul
vossa sede mata-se na saliva do norte
vosso urubu vossa asma vosso astuto esporte
vosso estupro vosso abrupto hino nacional
sussurra um feto risca o fóssil
arrisca tudo e passa mal passa mal
*
Origem
todos já sabiam que aconteceria
e mesmo assim acontece o tempo todo
plantas crescem
mas não te alcançam
pois sóis a luz do mundo
porque pular é muito fácil
mas o abismo é só questão de tempo
e as flores só cheiram bem
quando estão nos caules
intactos a chuva grita fininho
quase que se pode ver lá fora não chove
só dentro depois do parto
o feto espreguiçou e disse
cheguei mais cedo lá era muito apertado
aqui pelo menos
posso virar o jogo
ou o tabuleiro
*
Princípios
eu falo com poucos
e você meu riso louco
sabe que eu tô falando com você
pois quem tem aquela fagulha sabe
e sabe como poucos
no princípio é você


