1 de julho de 2026

As salvações diárias

Era ainda no começo dos anos 2000 quando uma campanha do supermercado Pão de Açúcar perguntando “O que faz você feliz?” fez um enorme sucesso. Naquelas letras que são uma das marcas do cantor e compositor Arnaldo Antunes, ele faz a pergunta enquanto lista um sem-número de possibilidades: a lua, a praia, a rua, um beijo, chocolate, paixão, dormir cedo, arroz com feijão, matar a saudade, dormir na rede, viver um romance, ler, uma conversa boa, um cafuné, um pássaro, a pausa pra pensar, sentir o vento etc etc. Em sessenta segundos, recortes de uma vida, de nossas vidas, das mais simples às mais privilegiadas. Com sua genialidade, Arnaldo contemplou todo mundo. 

Lembro que na época tornou-se comum ouvir as pessoas se perguntando umas às outras nas escolas, faculdades, locais de trabalho o que as faziam felizes. De repente, algo que poderia ser tão íntimo tomou ares de pergunta comum, daquelas que abrem portas para a dimensão do outro. Em lugares onde poucos entravam, em invólucros bem protegidos, agora se fazia o acesso, como se de repente estivesse liberado que as pessoas nos conhecessem no mais profundo de nós mesmos. Afinal, revelar aquilo que faz cada um de nós feliz é também dar permissão para que olhem para dentro de nós para muito além de uma porta entreaberta: é permitir que alguém caminhe pelas estradas onde fazemos nossas próprias buscas. E o que será que encontramos? Muitas vezes a gente ainda está no processo de descobrimento, como então permitir que alguém saia nos perguntando sobre algo que talvez não tenhamos uma resposta firme, determinada, clara, nem para nós mesmos? Pois foi o que aconteceu, quase sem pudor. Também suscitou diversos debates filosóficos sobre o significado da felicidade na vida individual e na vida coletiva, enquanto seres sociais, e o que o conceito de felicidade propriamente poderia significar, se é que felicidade existe enquanto conceito – e se existe, como se dava, e se não existe, o que se poderia entender como tal. Foi uma época bonita que, aliado ao período histórico de otimismo que o país vivia, desconfio que tenha ajudado muita gente a sair de si mesmo para conhecer mais profundamente a si e aos outros.

Gosto das alegrias que vão nos salvando os dias. 

No meio das muitas mensagens pra responder, das preocupações, das dificuldades para desanuviar a mente e o coração em tempos complexos, no meio de uma conversa com uma amiga surge o comentário: E esse ano tem livro novo da Rosa Montero, não é? Eu sabia que ela estava escrevendo, mas não sabia que já era para esse ano. Durante a conversa, pesquisei. Achei. O livro já está em pré-venda, inclusive. E vi por acaso que tem livro novo da Yasmina Reza também. E da Inês Pedrosa. Por aí o ano já está salvo.

Durante uma ida a um restaurante para celebrar a presença de uma amiga na cidade onde moro, o telefone dela toca e um amigo escritor a convida para um evento onde está rolando boa música, boa comida, e onde estão artistas do Brasil inteiro por conta de uma Bienal de artes. Ela menciona quem está com ela à mesa. Traga todos, ele disse. E aquela noite, numa instalação no alto de um morro dentro da minha própria cidade, torna-se uma noite memorável de muitos risos, muita dança, conversas com pessoas que até então estavam presentes na minha vida através da arte que produziam agora ali, olho no olho. Inesquecível.

Claro que há dias que nos salvam que são mais prosaicos, nem tudo é festa e nem precisa ser. 

Aproveitei os primeiros dias de férias e saí para resolver uma lista de coisas, em diversos lugares da cidade. Voltei para casa com tudo resolvido. À noite, fiz uma sopa de feijão que me trouxe a memória do mesmo gosto da infância, a alegria de saber que através de um alimento cuja lembrança ainda habita tanto em mim como algo bom foi reproduzido agora na minha casa, décadas depois, e que me levou direto para aquela época da vida.

Num outro dia, ir para a praia, caminhar com o pé na areia, ouvindo o barulho do mar e do vento, contemplar o azul infinito.

Uma amiga mandar um áudio de mais de trinta minutos falando sobre seus planos para novos livros, a vida financeira que está conseguindo organizar, as viagens que pretende fazer. Uma outra, que estava preocupada com um diagnóstico compartilha, durante um café, que foi só um susto. O suposto problema está descartado.

E claro, há a música. 

Depois de um longo dia de trabalho, a felicidade que existe em sentar-se diante de um tocador de discos e ouvir os dois lados de um vinil apenas sentindo a música que ouve, sem se preocupar com nenhuma outra obrigação, é uma felicidade capaz de nos reenergizar para o dia seguinte.

A vida se faz, sobretudo, nos percursos em que não somos absorvidos pelas demandas, pelas obrigações, muitas das quais nos impomos por um sentimento de autocobrança que o ritmo frenético da vida parece exigir da gente. É preciso manter a mente aberta, a espinha ereta e um coração razoavelmente tranquilo para perceber que as pequenas alegrias diárias é que pavimentam a estrada com dias felizes.

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