9 de maio de 2017

Percepção

Eulália ouvia tudo, não perdia uma palavra. Aquele era o seu professor favorito; mais que isso, era o amor platônico dela. E na aula de francês, ela se deliciava quando ele recitava poemas de memória, com aquele francês perfeito, levemente alongado, mas sem sotaque.
O homem era ruivo, deveria ter uns quarenta e cinco anos, e ela, vinte e cinco. Mesmo com a diferença de idade, a paixão dela era incendiária, e quando ele citava sentenças com uma voz tonitruante, quase ia ao céu. Como ele era bonito, tão branco, olhos verdes, os cabelos avermelhados ficando grisalhos! Que mãos longas, de dedos fortes; como era alto e imponente! O sonho dela era se apaixonar de verdade, e despertar nele a mesma paixão. Mas ela nem sabia por onde começar.
Resolveu que iria observá-lo, descobrir se tomava café na cantina durante os intervalos, se almoçava no restaurante universitário; enfim, entender seus hábitos e imiscuir-se neles, encontrando-o "por acaso" na biblioteca, por exemplo. Mas de que assunto falar? Ela não era tímida, isso não, mas numa situação de paixão ardente era muito difícil falar sem parecer idiota. Corava ao pensar nisso; sentia-se uma adolescente.
Buscou nele os sinais que poderia captar em seu favor, e não achou nenhum. Fazia perguntas, a que ele respondia com precisão, mas nada além disso. Certa vez, fora chamada à lousa para conjugar um verbo fácil, mas ficou tão descontrolada que, rubra, errou o exercício. "Mas que idiota estou me tornando por causa desse homem", pensou, ao sentar-se novamente em sua carteira.
Até que um dia ela percebeu o que todo o mundo já sabia, e de maneira muito pouco previsível. Ela pareceu notar as mãos dele, que lhe pareciam tão longas e belas e brancas, fazendo um gesticular um tanto vulgar. Franziu o sobrecenho. Perdeu o que ele estava ensinando. Por qualquer razão ele disse, com esse gesticular que a incomodava, e pela primeira vez o ouviu; ele dizia: "J'ai rêvé à toi et... j'ai tombé du lit!". Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela se precipitou para fora da sala, correndo e deixando o material, a mochila, o smartfone, o netbook tudo dentro da sala. Ela chorava copiosamente, enquanto se repetia, rangendo os dentes e correndo: "Eu o amo tanto, por que ele tinha de ser gay?" Quando voltou, ao fim da aula, não olhou para ele. Respondeu à chamada com o coração ferido e saiu novamente, levando todos os seus pertences e uma admoestação do professor, que percebera sua falta.