O receptáculo

por Claudia Marczak
retirado de https://goo.gl/plpaCS

A solução estava ali. Um ambiente altamente higienizado, totalmente seguro. Chegou meio assustada e sentou-se à frente do responsável pelo procedimento. Ele sorria solícito, apesar da frieza do ambiente. Fez as perguntas de praxe: quantas semanas de gestação, qual o estado de saúde da mãe, se havia consumido drogas, etecetera e etecetera. Respondeu a todos os questionamentos sem titubear. Queria parecer segura de sua decisão. O homem anotou todas as respostas. Olhou-as atenciosamente em seguida. Bateu com a caneta na mesa. Meneou a cabeça afirmativamente. Em dois dias seria realizado o procedimento.

Passado o tempo determinado, chegou à clínica. Sozinha, como sempre estivera. Foi recebida por uma atendente que tentava ser simpática. Logo em seguida uma enfermeira a encaminhou para os procedimentos iniciais. Sem muita espera, sem muita angústia.

– Não sei se estou certa do que estou fazendo… – deitada na maca, já com a roupa adequada ao procedimento sentiu dúvidas.

A enfermeira sorriu e se aproximou. Tocou em suas mãos.

– Eu mesma já fiz duas vezes. É tranquilo. Logo você vai estar com a sua vida de volta.

A angústia em seus olhos fez a enfermeira prosseguir.

– É alta tecnologia. É o que faltava.

A mulher riu enquanto calçava as luvas.

– Já tinha feito três abortos antes disso. E parido dois. Agora não é mais preciso essa tortura da escolha.

O receptáculo era regulamentado pelo governo. Não era aborto. Não obrigava a mulher a prosseguir com a gravidez. Era o meio termo, o equilíbrio que faltava.  Era só requisitar e o feto seria colocado em receptáculo especial no qual ficaria até completarem as quarenta semanas de gestação. Após esse período era retirado dali e encaminhado para a adoção. Prático e simples. Sem perdas.

– Relaxa, garota. Não demora nada.

A enfermeira colocou um soro em suas veias e abriu suas pernas em posição ginecológica. Sentiu-se inebriada. Não viu mais nada.

***

O plantonista olhou a planilha e observou atento os dados inseridos nela.  O receptáculo 10.418 seria aberto às 10h41 min. Era a hora. Aproximou-se e iniciou o procedimento. Feto retirado e choro agudo pelo salão. Passou a criança para a assistente. Lavado, aspirado e aquecido o RN 10.418 foi encaminhado ao berçário. Lá fez sua primeira mamada em um seio artificial, com leite de doadoras. Foi colocado em um berço até a chegada da equipe de transição, o que demoraria de sete a dez dias. Depois disso, confirmado seu estado de saúde, seria encaminhado para o abrigo inicial. E assim foi.

***

Dois meses depois, o casal Y chegou ao abrigo inicial. Queriam uma criança. Impossibilitados de terem filhos, optaram pela adoção de recém-nascidos. Receberam uma lista com a descrição de cada um deles. O RN 10.418 estava entre eles. Saúde perfeita, bebê perfeito.

– É negro. – disse a mulher.

– Negro não, né? – respondeu o homem.

A mulher acenou afirmativamente e o escolhido foi o RN 10.495, por ser mais claro. Essa foi a primeira das dezenas de negativas de adoção do RN 10.418.

***

Todos recebiam um nome após seis meses de abrigo. Recebeu o nome de Bernardo. Passou do abrigo inicial para o de transição aos dois anos. Lá ficou até os 12 anos, quando foi transferido para o abrigo final. Ficaria nele até completar a maioridade.

Estudou, dedicou-se, foi bem tratado na medida do possível. Nunca faltou comida. Nunca faltou estudo. O carinho terminava juntamente com o turno de algumas cuidadoras. Depois disso era a noite e o aguardo pelo dia seguinte.

No dia que completou dezoito anos, Bernardo foi chamado à direção do abrigo. Recebeu uma pequena maleta com alguns pertences, uma matrícula num curso técnico de uma escola pública, uma ajuda de custo medíocre e um abraço do diretor do abrigo. Estava pronto para a vida.

***

Bernardo alugou um quarto barato e procurou emprego. Trabalhava de dia e estudava à noite. A escola era sua motivação. Apesar da falta de condições, do cansaço, encontrava ânimo pra ir às aulas e participar de cada uma delas. A de Ciências era uma de suas favoritas. A professora Iolanda era sua mentora. Mulher à frente de seu tempo, dinâmica, independente e sonhadora passou a ser seu espelho. Conversavam muito e estenderam as conversas para barzinhos e depois para a casa dela. Bernardo percebeu que era uma mulher encantadora. Tinha algo que o atraía inconscientemente. Era bonita, olhos profundamente negros, poesia no falar. Apaixonou-se por ela. Beijaram-se entre discussões filosóficas e taças de vinho.  Amaram-se naquela noite e em muitas outras que se sucederam. Estar com Iolanda era estar em paz.

Um dia Iolanda o chamou. Estava séria. Havia algo estranho. Bernardo falou que estaria ao lado dela. Ela disse que estava grávida. Ele disse que esse era seu maior sonho. Mas não poderia ser pai agora. O receptáculo seria a solução.

***

Chegaram à clínica. Um ambiente seguro e higienizado. Bernardo segurava a mão de Iolanda. Perguntas de praxe, procedimento marcado.

No dia definido Iolanda e Bernardo se encaminharam para a clínica. Estavam certos da decisão que tomaram juntos. A enfermeira os recebeu com a amabilidade prescrita nos treinamentos. Iolanda foi colocada na maca. Soro na veia e uma sensação inebriante na mente. Não viu mais nada.

Bernardo e Iolanda saíram da clínica abraçados e aliviados. Tinham a suas vidas de volta.

***

O novo feto foi encaminhado para o receptáculo. O médico olhou atentamente o prontuário. Chamou a enfermeira.

– Olha só, enfermeira, esse daqui, o 11.840 não está sozinho. Tem registro de um irmão.

A enfermeira olhou o prontuário atenta.

– É, doutor, a mãe já tinha doado o feto 10. 418.

– Transfere esse pra outra região. Não podemos ter problemas com irmãos doados.

***

Bernardo e Iolanda se sentiram mais fortes depois do procedimento do receptáculo. Sofreram juntos a perda da possibilidade de terem um filho juntos e depois de algum tempo superaram a dor. Bernardo continuou seus estudos. Iolanda continuou seu trabalho.

Anos mais tarde mudaram de cidade por conta do mestrado de Bernardo. Iolanda, já perto da aposentadoria, pensava em algo mais. Agora sim era a hora de ter um filho, mas não um bebê. Decididos, se inscreveram num programa de adoção de crianças e encaminharam-se ao abrigo mais próximo daquela região. Encantaram-se por uma menina linda, de olhos negros e vívidos, cabelos fartos e armados. Lívia era o nome da garota de dez anos que tinha luz nos olhos. É essa, decidiram. E num dia de sol de primavera seguiram os três para uma nova vida.

A enfermeira olhou a ida de Lívia profundamente emocionada. Aquela menina teria, agora sim, uma nova chance. Retornou ao balcão de trabalho. Pegou o prontuário de Lívia. Feto 11.840. Bateu o carimbo de ADOTADO. Cumpria assim, mais uma vez, sua missão. O receptáculo era, sem dúvida, a solução.

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Cláudia Marczak é professora e psicóloga. Nasceu em Santos, litoral de São Paulo. Tem dois livros de poemas publicados, Caos e Lugar Algum e um romance, A Flor da Pele, publicado pela Editora Penalux.
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