1 de novembro de 2026

“Love”: o amor também exige tempo para mudar

Este texto pode conter spoilers das três temporadas da série.

Quando vi “Love” entre as séries disponíveis na Netflix, não tive muito interesse em assistir. Imaginei que fosse uma dessas comédias românticas um tanto bobas, que acompanhamos sem precisar prestar muita atenção. No entanto, quando resolvi dar o play, encontrei um roteiro que pode nos incomodar de diferentes maneiras, principalmente porque muitas pessoas talvez consigam se reconhecer naqueles personagens. E isso não acontece necessariamente no primeiro momento, nem mesmo ao longo da primeira temporada.

Criada por Judd Apatow, Lesley Arfin e Paul Rust, “Love” tem três temporadas e acompanha o relacionamento de Mickey Dobbs (Gillian Jacobs) e Gus Cruikshank (Paul Rust). O que me chamou a atenção foi perceber como os dois personagens se desenvolvem e ganham complexidade ao longo da narrativa. A direção, compartilhada por diferentes profissionais, mantém uma unidade que permite acompanhar essas mudanças sem transformar cada conflito em um grande acontecimento. Muitas vezes, são as conversas, os constrangimentos e os pequenos gestos que revelam o que está acontecendo.

É curioso porque, quando terminei a primeira temporada, não gostei muito do que havia assistido. Mickey e Gus são duas pessoas absolutamente distintas, que acabam se encontrando por uma circunstância da vida, em uma loja de conveniência. Ela enfrenta o alcoolismo, dependências relacionadas ao sexo e ao amor e mantém relações que parecem aprofundar suas dificuldades. Ele, por outro lado, parece inicialmente uma boa pessoa, dessas que procuram agradar a todos.

Gus e Mickey sentados sobre um carro em cena da série Love

Mas essa aparência vai se desfazendo.

Gus me incomodou profundamente em diversos momentos. Sua necessidade de agradar parece esconder uma dificuldade enorme de lidar com a frustração. Quando as coisas não acontecem como espera, seu humor muda bruscamente, revelando uma raiva que chega a ser desproporcional. Ao terminar a primeira temporada, não conseguia compreender muito bem o que sustentaria aquela relação, nem por que deveria continuar acompanhando duas pessoas que pareciam produzir tantos problemas para si mesmas.

Ainda assim, continuei.

E foi principalmente ao longo da segunda e da terceira temporadas que comecei a perceber a qualidade da construção narrativa. Mickey passa por uma transformação que não acontece apenas em suas atitudes. Suas roupas, sua maquiagem, a postura corporal e até o semblante parecem acompanhar o processo de recuperação que procura construir. Aos poucos, vemos uma mulher que começa a se apresentar de outra maneira, como se o rosto ganhasse uma luminosidade que antes não existia.

Isso não significa que seus problemas tenham desaparecido. Uma das cenas que mais me impressionaram acontece quando Mickey reencontra uma antiga amiga e descobre que aquela amizade já não existe da maneira como imaginava. A amiga deixa claro que havia muito tempo tentava se afastar dela. É um momento duro, principalmente porque Mickey está tentando demonstrar que mudou. Mas mudar não significa que as pessoas que ferimos estejam dispostas a permanecer ao nosso lado.

As relações familiares também ajudam a compreender essas dificuldades. Sua relação com o pai revela parte das tensões que parecem acompanhá-la há bastante tempo. A mãe, embora mencionada, não aparece diretamente, e considero essa ausência curiosa. Mesmo sem conhecermos a personagem, percebemos que essa relação interfere na maneira como Mickey se enxerga e enfrenta suas inseguranças.

Já Gus percorre um caminho diferente. Ele trabalha como professor de uma jovem atriz em uma produção televisiva e deseja encontrar espaço como roteirista. Ao longo da série, surgem oportunidades profissionais que, em determinados momentos, chegam a parecer improváveis. Há sempre alguém disposto a ouvi-lo, alguma possibilidade de apresentar suas ideias ou de se aproximar de pessoas que podem contribuir para sua carreira.

E foi nesse ponto que comecei a pensar em como a série apresenta as diferenças entre as oportunidades oferecidas a homens e mulheres.

Gus é cheio de contradições. Sua aparente gentileza convive com uma vaidade enorme, acessos de raiva e dificuldade de reconhecer os próprios erros. Ainda assim, as oportunidades continuam aparecendo, seja no trabalho, seja nas relações afetivas e sexuais. O mais curioso é que, em muitas dessas ocasiões, é ele próprio quem coloca tudo a perder.

Mickey, por sua vez, precisa realizar um esforço muito mais evidente para reconstruir a própria vida. E não me parece que encontre, entre amigos e familiares, uma rede de apoio tão consistente quanto seria necessário para enfrentar suas dependências. “Love” trabalha essas diferenças sem interromper a narrativa para explicar o machismo ou as desigualdades sociais. Basta observar as situações em que os personagens são colocados e a maneira como reagem a elas.

Quando comparamos os personagens da primeira temporada com aqueles que encontramos na terceira, percebemos mudanças significativas. São pessoas diferentes, mas que continuam carregando as experiências e os problemas que as constituíram. Não há uma transformação milagrosa. Às vezes, quando pensamos que determinado comportamento foi superado, ele retorna, e uma discussão revela algo que parecia resolvido.

Talvez seja justamente assim que as pessoas mudem na vida real.

E foi essa percepção que modificou minha relação com “Love”. A série que eu havia criticado ao terminar a primeira temporada começou a me mostrar que acompanhar o desenvolvimento de alguém exige paciência. Mudar é um processo lento, muitas vezes doloroso, e que não afeta apenas quem está tentando modificar a própria vida. As pessoas ao redor também são atingidas, seja porque precisam lidar com comportamentos difíceis, seja porque já não conseguem confiar que determinadas atitudes não voltarão a acontecer.

No encerramento, Mickey e Gus chegam a um momento em que o casamento parece uma possibilidade concreta. Não quero revelar o que acontece depois, mas há algo bonito na maneira como os amigos são envolvidos nessa decisão. Quando comunicam seus planos, imaginei que estaríamos diante de mais uma situação decepcionante. Mas pessoas que talvez não esperássemos aparecem, mostrando que, apesar de tantos desencontros, os dois construíram vínculos que permanecem.

Ao mesmo tempo, os acontecimentos mostram que desejar alguma coisa não significa necessariamente estar preparado para vivê-la.

Mickey e Gus sorrindo juntos em cena da série Love

Foi ao terminar “Love” que percebi o quanto a série pode contribuir para quem se interessa pela construção de personagens, inclusive na literatura. Há uma arquitetura narrativa interessante na maneira como Mickey e Gus são apresentados e desenvolvidos. As roupas, os gestos, as relações familiares, as oportunidades profissionais e até a reação a uma pequena frustração podem dizer muito sobre quem uma pessoa é. E a série consegue tratar de questões sociais, dependências e contradições sem transformar seus personagens em exemplos de comportamento ou suas histórias em lições sobre como devemos viver.

No final das contas, “Love” me fez rever uma impressão que havia construído não apenas antes de assistir à série, mas também depois de terminar sua primeira temporada. O que parecia uma comédia romântica sem grandes pretensões revelou uma narrativa sobre pessoas que tentam compreender a si mesmas enquanto aprendem a conviver com o outro.

E talvez seja isso que mais me interesse na série. O amor não aparece como algo capaz de resolver os problemas de Mickey e Gus, nem como uma recompensa por terem conseguido mudar. Ele também precisa ser construído, em meio às dificuldades, aos erros e às tentativas de fazer diferente.

Se no início eu não conseguia compreender por que deveria acompanhar aquele relacionamento, ao final percebi que a questão talvez não fosse saber se os dois deveriam permanecer juntos, mas compreender o que acontece com as pessoas enquanto tentam construir uma vida em comum.

E isso exige tempo. Dos personagens e também de quem os acompanha.

Assista ao trailer de “Love”:

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