19 de março de 2026

É pra chorar

Apesar de achar que o mundo me embruteceu um tanto, ainda hoje tenho alguma facilidade para chorar. Se não chorar propriamente sentindo as lágrimas quentes rolando pelo rosto e entrando na boca como água do mar, seguramente me emociono com tudo o que é humano e que encontra lugar na minha empatia, e para isso basta observar o meu entorno. Afinal, tem sido mesmo de chorar. Mas talvez sempre tenha sido, a diferença é que antes nem todo mundo tinha celular com câmera na mão e redes sociais onde postar.

A despeito disso, não sou muito de chorar lendo livros. Claro que eu chorei com a morte do Portuga em O meu pé de laranja lima, mas qual criança não chorou? Eu tinha uns dez anos quando li aquele livro pela primeira vez, e já existia um zum-zum-zum dando conta de que o livro era sensível, embora estranhamente, ali no final da década de 80, começo da de 90, ninguém ousasse dizer exatamente em quais aspectos, parecia haver uma timidez um tanto tácita sobre o tema, como havia para se referir a muitas outras coisas (ainda lembro da minha mãe dizendo ao telefone que fulano havia morrido “de C-A”, como se dizer a palavra câncer tornasse o falante mais propenso a também desenvolver a doença). Mas foi só. Em quatro décadas de leituras, não me recordo de um outro livro que tenha me deixado chorando de maneira copiosa, como uma fonte que não fosse secar nunca. Emocionado, sim, muitas vezes, mas nunca como no livro de José Mauro de Vasconcelos. 

Mas o histórico de publicações – e seus devidos relatos de leitura –  pelo mundo comprova (?) o que alguns corações que já cruzaram pelo meu denunciam: o meu é duro e frio, o verdadeiro iceberg que afundou o Titanic já que, embora eu também os tenha lido, não verti uma única lágrima, nem mesmo uma gota. Vamos a alguns exemplos:

O primeiro deles é um clássico, desses que são, como se diz quando a coisa parece ser forte, “incontornáveis”. Anna Kariênina. Um dos retratos mais complexos da paixão e da destruição que pode vir com este sentimento. Chora-se, pelo que andei lendo a respeito, pela inevitabilidade da derrocada de Anna, e por sua trágica humanidade. Sinto muito, Tolstói. Apesar do impacto que sua obra causou em mim, quando a li ali pelos trinta anos, não senti os olhos sequer marejarem. 

Querem outro clássico? Pois vamos a ele: O morro dos ventos uivantes, da Emily Brontë. O título em português é mesmo de fazer chorar por sua cafonice, mas não fica muito atrás do original, Wuthering heights. “Wuthering” é uma palavra arcaica, proveniente de um dialeto, que significa algo como “tempestivo” ou “que ruge”, e “heights” refere-se ao fato de que a casa onde se passa a história fica no topo de uma colina. Juntando esses dois elementos, resulta na carga dramática do título em português (que aqui resolveram chamar mesmo de “morro” porque, enfim, “colina”, apesar de sinônimo, é um negócio por demais europeu, aparentemente. Bom,  nada disso importa muito a não ser pelo fato de que a vontade de chorar se dá já desde o título, embora não pelos motivos que as pessoas alegal chorar nessa obra. É por causa do “amor obsessivo e destrutivo entre Heathcliff e Catherine”, dizem. E que “o livro dói porque mostra que o amor também pode ser prisão”. Ora não diga! Tá lá em um soneto de Camões: Amar é estar-se preso por vontade. Sim, claro que o caso do livro é uma outra coisa. Mas a analogia é antiga feito o mundo. O Brasil mesmo só tinha 98 anos quando esse poema foi publicado. E não, Emily Brontë, não rolou choradeira por aqui, embora o livro seja mesmo uma maravilha.

E essas pieguices contemporâneas feitas para causar justamente essa reação no leitor? Ou alguém não lembra de O menino do pijama listrado e de A culpa é das estrelas? John Boyne e John Green. A dupla John-John, cada qual a seu tempo e a seu modo, fizeram adolescentes de todas as idades se derramarem em quase todo país do mundo de que se tem notícia. Um, por causa de um menino em pleno Holocausto. O outro, por conta de uma trama de jovens com câncer. Ambos de prosa leve e ingênua, feita sob medida para caber nos enredos-clichê, mas que atingiram milhões de leitores e leitoras. A única razão pra eu chorar nesses livros é por não ter a conta bancária de nenhum dos escritores que as escreveram e lucraram milhões de dólares com elas.

Agora vamos para uma quase exceção? O ano do pensamento mágico, da Joan Didion, sempre eivada como uma das maiores jornalistas do mundo (e foi mesmo). Num livro de memórias fortíssimo, Joan narra sua vida a partir do dia em que perdeu o marido, subitamente, enquanto ela fazia qualquer coisa na cozinha e ele ficava sentado na poltrona ali por perto, os dois conversando à distância depois de retornarem do hospital, onde a filha de ambos estava internada, quando de repente o homem para de responder. Está neste livro um dos melhores começos de livro já escritos, mas também está neste livro todo um rame-rame descritivo sobre rotinas de hospital e decisões médicas chatérrimas, que em nada acrescentam à compreensão daquelas dores da perda e tornam o livro muito fossilizado em muitos momentos. Ao mesmo tempo, é também uma obra que movimenta dois lutos em paralelo: a da mulher que se vê sem a compainha do marido, que era para ela um alento, e o luto de filha viva: a situação da filha é crítica, a iminência de sua partida é um preparativo para ela. Em diversas partes, o livro torna-se lacrimejante pela lucidez imbatível que Joan tem apesar das dores, dos medos. Apesar de. Mas chorar, chorar mesmo, não.

Tem um caso interessante em que o filme me fez derrubar uma lágrima ou duas. Eu era adolescente quando vi, será que a ingenuidade juvenil foi a responsável? Porque quando li o livro, pelo amor dos deuses, que suplício. Estou falando do amor impossível de Robert Kincaid e Francesca Johnson em As pontes de Madison, vividos no cinema por Meryl Streep and Clint Eastwood, em atuações grandiosas. Tá aqui um daqueles raros casos em que o filme é melhor do que o livro (sim, meu povo, eles existem!). A obra de Robert James Waller é tenebrosa. Um amontoado de clichês e cenas melosas, que algum roteirista transformou em uma obra verdadeiramente boa. Sem contar que livros como este deram origem a toda a xaropada que veio depois, como Nicholas Sparks e Robin Pilcher.

Enfim voltamos ao começo. Um outro livro infantil: A árvore generosa, de Shel Silverstein. Este é daqueles livros em que a ilustração toma conta da página inteira e apenas algumas linhas ficam lá embaixo, dizendo alguma coisa junto a ela. É justamente desta união que a mágica acontece. Quem não se emocionar lendo a história do garoto que sempre volta à árvore que tem perto de si e a vê pouco a pouco se desfazendo para atender às suas demandas, pode desistir de tudo, porque há muito não tem no peito um coração. É um livro bonito sobre a união através dos afetos, mas também sobre o cuidado que se deve ter para não se autodestruir no longo processo do amor, porque não se deve deixar de ser quem é por quem quer que seja, demonstrando que até o que se convenciona chamar de amor incondicional deve ter limites. Sempre dou este livro de presente e, sempre que o leio em voz alta, me emociono, de ficar com a voz embargada mesmo. E, por ser um livro curto, muitos amigos e amigas que o recebem querem lê-lo na minha frente, e eles sim, choram. 

No fim das contas, ver quem a gente ama chorar pode ser uma forma de chorar junto.