22 de janeiro de 2026

Aconteceu o tempo

por Marco Severo

 

Surgiu uma situação na minha vida que passou a me impedir de comprar livros com a velocidade voraz com que eu o fazia mês a mês. Isso me deu a oportunidade para voltar o olhar, cuidadoso e atento, para dentro. Não para dentro de mim mesmo exatamente, mas para dentro da minha própria biblioteca.

Vivo em uma casa abarrotada de livros, como muitos podem imaginar que seja a casa de um escritor, dentro de todos aqueles estereótipos de mais livros do que todas as outras coisas etc etc. Nem todo escritor é assim, claro. Elvira Vigna, por exemplo, a certa altura da vida doou todos os seus livros e os substituiu por plantas. Daquelas plantas que sobrevivem em apartamentos, dentro de jarros. Depois, morreu. A Elvira, digo. Não sei o que fizeram das plantas. Aqui em casa tenho poucas plantas porque não tenho em mim o cuidado necessário para cuidar delas, que são mudas – no sentido de silenciosas. As gatas – três moram comigo – estão idosas. A mais nova agora fez 13 anos, a mais velha tem 15. No caso delas, amor e cuidado se intensificam porque elas se comunicam, ainda que hoje em dia o miado delas seja fraquinho, quase silencioso. Gosto disso, existir sem alarde. Mas penso que é justamente por causa da comunicação que elas seguiram vivas e bem. Quando a gente se comunica as possibilidades fluem, a vida acontece, nem que seja nas entrelinhas. As plantas necessitam de um afeto mais preciso, direcionado, aquele de quem tem a vocação para o cuidado específico. E eu não tenho. Sou movido a gestos de parte a parte.

Foi então que ao observar a quantidade de livros que me cercam, me deparei com o inevitável: não haverá tempo. Não importa o que eu fizer daqui pra frente, se eu me alimentar melhor, for a academia todos os dias, deixar de comer açúcar, não me colocar em atividades de risco, buscar meios de viver menos tenso e sobressaltado: daqui pra frente, olho para a frente ciente do tanto de estrada que já deixei para trás, e que o tempo que me resta não dará conta da enormidade de livros que tenho. Não sou fatalista, antes, sou alguém ciente do tanto que a vida já me deu – reconheço, agradeço, mas daqui pra frente, seja lá quanto tempo for, será sempre menos do que eu precisaria para ler o tanto que ainda gostaria – ou a quantidade de livros que disponho (e, sabemos, a previsão para que eu deixe de comprar novos títulos é tão precisa quanto a data em que eu já não estarei mais aqui).

Antes que me acusem, é claro que sei que numa biblioteca pessoal nem todos os livros estão lá para serem lidos; antes, eles são uma monumental construção de opções, de possibilidades, como dizia Umberto Eco em seu conceito de antibiblioteca, e mais do que isso: para mim, que escrevo por ofício, são também fonte perene de consulta.

De todo modo, o que me resta é tentar negociar com a Caetana, como Ariano Suassuna se referia à Morte, o que é uma maneira otimista de ousar brincar com a possibilidade de esticar o tempo – sempre implacável, não me engano.

Mas é também uma forma de ficar em paz com a finitude: quando eu não existir mais, os livros também não existirão. O que tiver ficado para trás – cadernos de anotações, amigos, amores, sonhos – se desmanchará, a passagem dos dias me transformarão em memória para os outros, e aquilo que ficar da minha biblioteca migrará para outras casas, outras mãos, outros olhos. E o tempo continuará passando, transformando outros vivos em mortos, até que nada mais meu restará.

E que bonita é a liberdade de se extinguir completamente, tornando-se um absoluto nada, depois de anos sendo tudo o que foi possível.