29 de fevereiro de 2020

Cinco Estrelas

Aconteceu na rua apelidada de Estacionamento dos ubers. É onde vários motoristas costumam esperar dentro do carro o chamamento de seus clientes remotos. O chofer da nova era prescinde de trafegar por aí à cata de braços estendidos. A qualquer momento pode soar o sinalzinho sonoro dos celulares suspensos no apoio acoplado no interior dos vidros dianteiros e aí o coração acelera e os olhos ficam atentos na esperança de uma boa corrida. Como eu dizia, aconteceu na rua apelidada de Estacionamento dos ubers. Um dos motoristas saiu apressado do carro, apertou o botão da trava elétrica, pli pli, e depois caminhou até o outro lado da rua. Em pouco tempo, os demais motoristas também estariam no outro lado da rua ao redor de uma gaiola de lixo.

A gaiola de lixo estava vazia, ou melhor, estava vazia de lixo, porque dentro dela havia um cachorro de pelagem inteiramente preta, com aspecto de filhote e confuso a respeito da enrascada em que se metera. Alguém tomou a iniciativa de envolver o braço cuidadosamente ao longo da barriga do bicho, mas antes que o pudesse erguer, um grito agudo interrompeu o socorro. Uma das patas de trás estava presa num vão entre os ferros entortados da gaiola.

Não tem jeito, só com equipamento mesmo, concluiu algum experimentado em ferragens. A solução foi chamar os bombeiros. Não que eu esteja desdenhando da missão, longe disso, o fato é que eles chegaram paramentados como se estivessem preparados para apagar um incêndio florestal do nível australiano, nisso incluindo o porte de mangueiras e a presença de um caminhão-pipa. O bom é que também trouxeram uma espécie de alicate tamanho extra grande. Usá-lo para retorcer o ferro sem risco para a pata tão frágil do cachorrinho exigiu habilidade de alguém que faz costuras sem o dedal. Quando enfim concluído o resgate, houve comemoração dos que testemunhavam a cena. Parecia a volta da luz depois de um apagão.

Todos se aquietaram quando o bombeiro advertiu que, largado na rua, o filhote não sobreviveria naquelas condições em que a pata machucada exigia cuidados. Olhares de sugestionamento logo convergiram para a única mulher entre o grupo de motoristas. Provavelmente era de conhecimento geral algum histórico de ações ditadas pelo coração molenga. Ela relutou, alegou falta de espaço, falta de dinheiro, falta de tempo, mesmo assim adianto que este é um caso de consagração aos que ainda são adeptos a finais felizes.

Sentado no banco do carona, o passageiro observava cada detalhe de um lugar que lhe era completamente estranho, curiosidade, expectativa, pata dolorida. Ao lado, desde que girou a chave na ignição até quando partiu com seu utilitário meia boca, a motorista nem sequer havia consultado o celular pendurado no interior do vidro dianteiro do carro.

 

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Flávio Sanso é autor dos livros Viva Ludovico, A vida é um sorvete derretido e A base do iceberg.