O Homem na Praça
Era fim de tarde — aquele horário em que o sol parece querer se despedir devagar, só para ver se a gente se comove. Um senhor de terno cinza e jornal na mão chegou devagar, como quem não tem mais pressa nenhuma. Ao sentar, ajeitou os óculos e deixou escapar um suspiro. Tinha o ar sereno de quem está em paz. De quem sabe que depois de muito caminhar, a vida também se contempla sentado.
De onde estava, via a cidade se desenrolando como um filme antigo. Uns meninos jogavam bola com a seriedade de uma final de Copa do Mundo enquanto o velho sorria, sem querer. Era aquele sorriso que nasce no canto da boca, cúmplice das lembranças de quando ele também era menino e também era o craque da rua.
Em um determinado momento, uma moça de vestido azul cruzou o caminho. Andava bonito, com aquela elegância involuntária de quem ignora o efeito que causa. Mas quando percebeu o olhar do homem, o passo ganhou ritmo, graça, e o vestido, vaidoso, dançou com o vento. Ele, discreto, disfarçando o encantamento, apenas ajeitou a gravata — gesto universal dos que fingem desinteresse.
Abriu o jornal, mas não leu. Ficou ali, observando por cima das letras, o desfile de carros, pessoas e sombras que o entardecer desenhava. Um canário pousou perto. Amarelinho, que só! E dava seus pequenos saltos bem pertinho do banco onde ele estava sentado. O homem franziu a testa, admirado. “Que coisa linda! ”, pensou. E por um instante sentiu-se menino outra vez, lembrando das arapucas que fazia no quintal, das traquinagens, dos domingos longos, desses quando o mundo parecia caber numa tarde de sol.
O tempo, caprichoso, parecia soprar lembranças junto com a brisa. As copas das palmeiras dançavam lá em cima, e ele pensou que talvez o vento fosse mais feliz do que os homens, porque estava sempre de passagem.
Foi então que o viu: um homem mais moço, elegante, de terno preto e bem cortado. Vinha com passos firmes, mas sem pressa. Tinha um olhar sereno e familiar, embora jurasse nunca tê-lo visto. Aproximou-se e, educadamente, pediu licença para sentar.
— Boa tarde — disse o jovem, com voz tranquila.
— Boa — respondeu o outro, com um aceno preguiçoso.
Ficaram um tempo em silêncio, assistindo ao espetáculo da tarde.
— Bonito, não é? — Iniciou o jovem no terno preto.
— Sempre é.
— Talvez porque o senhor só esteja vendo melhor.
O velho sorriu. Havia algo familiar naquele rapaz estranho.
Conversaram sobre tudo e sobre nada: futebol, infância, o preço do café, os meninos que jogavam bola. O moço ouvia com paciência, e o velho falava com prazer. De vez em quando, trocavam um olhar que dispensava explicações — como velhos amigos que se encontram sem saber de onde se conhecem.
— Desculpe a minha memória. Mas o senhor trabalha com o quê? — perguntou o velho, curioso.
— Com despedidas — respondeu o outro, sereno.
— Despedidas? Como funciona isso?
— Eu ajudo as pessoas a seguirem em frente.
— Hum — disse o mais velho tentando imaginar alguma coisa. — Mas o que o senhor faz, exatamente? — insistiu.
— Vim acompanhá-lo, se não se importa. — A resposta veio simples, como quem comenta o tempo.
O velho ajeitou a gravata, respirou fundo. — Me acompanhar?
O outro apenas acenou com a cabeça. O senhor olhou para o jovem por um momento e depois voltou-se para a praça à sua frente. Soltou um suspiro e disse:
— Entendo... — disse com certo pesar — Bem, de qualquer maneira, acho que já vivi tudo o que precisava.
— Ninguém vive tudo — respondeu o de preto. — A gente vive o que tem que viver.
— Filosofia de gente jovem.
— Apenas experiência de quem vê as coisas por um outro ângulo. – disse com um sorriso meigo.
O velho olhou ao redor. Os meninos ainda jogavam, o canário já tinha voado, a moça de vestido azul devia estar longe. Sentiu um cansaço manso, desses que vêm depois de um dia inteiro bem vivido.
— E agora? — perguntou, olhando o céu, cor-de-rosa.
— Agora, vamos dar uma volta — disse o moço, levantando-se.
O velho hesitou por um segundo, depois aceitou a mão estendida. Levantou-se devagar, ajeitou o paletó e, com um leve sorriso, acompanhou o novo amigo. Saíram caminhando pelo parque, lado a lado, trocando histórias que só eles pareciam ouvir.
Atrás deles, a vida continuava. Um burburinho se formava ao redor de um corpo caído no chão — um senhor de terno cinza, imóvel, cercado por curiosos e socorros tardios. Mas o homem já não estava ali. Caminhava tranquilo ao lado do outro, desaparecendo entre as palmeiras que dançavam ao vento.
O sol, lá no horizonte, fechava o espetáculo em silêncio. E quem olhasse bem veria, por um instante, duas silhuetas se perdendo juntas na luz do entardecer.

