3 de dezembro de 2018

Simplesmente Clarice

Lançado em agosto último pela Editora Rocco, o livro “Clarice Lispector – Todas as crônicas”, é um alentado volume de 704 páginas, fruto de excepcional trabalho de pesquisa textual de Larissa Vaz e organização de Pedro Karp Vasquez (que também assina o Posfácio).

Marina Colasanti no belo Prefácio que escreveu para o volume rememora o primeiro encontro com Clarice e sua estreia no antigo Jornal do Brasil como cronista. Identifica ainda que a colaboração da autora naquele periódico (durante os anos de 1967 a 1973) acabaria por se configurar como uma pequena amostra dos temas centrais que marcariam sua literatura: “a relação mãe-filho, a revolta contra a resignação, a busca do eu, os desvãos dos pensamentos e a transformação dos fatos cotidianos em pura metafísica”. Muito bem. Há ainda de se considerar e acrescentar, que o projeto dessa obra reúne um total de 120 textos inéditos em livro, e está dividida em três partes: a primeira corresponde ao período do Jornal do Brasil, contendo material que não havia sido publicado na coletânea “A Descoberta do Mundo”; a segunda engloba as colaborações com outros veículos da imprensa e finalmente,  a terceira, recupera esparsos do livro “Para não esquecer”.

Mas afinal quem é Clarice Lispector? E por que seu nome provocou e continua a provocar tantos e tantos estudos, e edições e reedições de sua obra, como esta que afinal resgata textos praticamente inéditos da autora, posto que foram publicados apenas nas fugazes páginas de periódicos? Sabemos pouco. Nascida em 1920 na Ucrânia no seio de uma família judia, chega ao Brasil em 1922 com os pais e duas irmãs. Morou em Maceió, Recife e finalmente no Rio de janeiro onde se formou em Direito, para logo em seguida, trabalhar como jornalista e lançar-se à literatura publicando um livro estrondoso como “Perto do coração selvagem” em 1944, portanto quando a autora contava apenas 24 anos de idade. Quando estreou no Jornal do Brasil como cronista em 1967, já tinha 9 livros publicados.

Pedro Karp Vasquez esclarece os parâmetros que orientaram a organização do material publicado nas três partes da obra. Tomou-se o cuidado extremo de não deixar escapar um único fragmento sequer dos textos originalmente publicados nos periódicos, com os quais Clarice colaborou, o que permite ao leitor de hoje, uma apreensão abrangente do universo clariceano. Com efeito, nas crônicas agora publicadas, percebe-se para além da observação das coisas que se ajustam à sensibilidade de todos os dias, a opinião da autora sobre escritores, notas e perfis sobre personalidades diversas da vida brasileira, respostas que deu a cartas de leitores, a convivência com pessoas de seu dia a dia, e até, em uma ou outra crônica, assuntos de ordem pessoal como o incêndio ocorrido em sua residência que lhe provocou graves queimaduras e, sobretudo, a sua compaixão pelos humildes. Outra grata surpresa. Aqui e ali lemos a Clarice introspectiva e intuitiva, capaz de descer fundo para abeirar-se do indizível, uma autora dona de um virtuosismo estilístico e uma lucidez que atinge as raias da incoerência e do inexprimível.

É impossível, dada a qualidade e a quantidade de textos reunidos em um volume com mais de 700 páginas, a escolha e transcrição das crônicas numa resenha. Entretanto não nos furtaremos de uma “saída” possível para tal impasse valendo-nos de um recurso que a própria Clarice levou a efeito no Jornal do Brasil já em 1967. Ela rompendo com a tradição da crônica corrida ocupando a página do jornal, chegou a publicar vários textos curtos em um mesmo dia. Leiamos uma crônica inteira e alguns trechos de outras. Observe-se a sensibilidade aguda, a emoção de nervo exposto, a nota agudíssima dos seus transes líricos.

 

“VITÓRIA NOSSA”, (um texto de atualidade arrebatadora).

“O que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.

 

 

Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos ser tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não termos nem aos outros. Não temos nenhuma alegria que já tem sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos pois isso seria o começo de uma vida larga e talvez sem consolo. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro que por amor diga: teu medo. Temos organizado associações de pavor sorridente, onde se serve bebida com soda. Temos procurado salvar-nos, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de amor e de ódio. Temos mantido em segredo a nossa morte. Temos feito arte por não sabermos como é a outra coisa. Temos disfarçado com amor a nossa indiferença, disfarçado nossa indiferença com a angústia, disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer ‘pelo menos não fui tolo’, e assim não chorarmos antes de apagar a luz. Temos tido a certeza de que eu também e vocês todos também, e por isso todos sem saber se amam. Temos sorrido em público do que não sorrimos quando ficamos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso temos considerado a vitória nossa de cada dia”.

 

“DIES IRAE” (trechos apenas dessa crônica que é um pungente desabafo da autora).

“Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita”...

... “Sim, aqui é noite escura às dez horas da manhã. É a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós não soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver. Porque se não voltar o dilúvio, voltarão Sodoma e Gomorra, que era a solução. Por que deixar entrar na arca um par de cada espécie? Pelo menos o par humano não tem dado senão filhos, mas não a outra vida, aquela que não existindo, me fez amanhecer em cólera.

Teresa, quando você me visitou no hospital, viu-me toda enfaixada e imobilizada ainda. Hoje sou a paralitica e a muda. E se tento falar, sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza também”.

 

“SAUDADE”

“Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida”.

 

“EM BUSCA DO OUTRO”

“Não é à toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei ardentemente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente à procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso não encontrei. Mas sei de uma coisa: meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada”.

 

Não é casual que as melhores crônicas, ou por outra, as que mais nos emocionam, são aquelas em que a autora (teria ela se dado conta disto?) tenha permitido que o pensamento se lhe escapasse do óbvio, para se embrenhar pelos meandros da ambiguidade a deflagrar tempestades cerebrais. Em algumas crônicas antológicas observamos em meio ao relato uniforme do texto suas frases luminosas que estremecem de súbito a superfície enganosamente calma do relato, desvelando verdades insuspeitadas, que funcionam como punhaladas certeiras em nossa sensibilidade. Com efeito, uma mestra em selecionar palavras com extrema severidade de gosto, palavras que pulsam como signos. Ao final da crônica “Pertencer”, publicada no Jornal do Brasil de 15/06/1968, Clarice Escreve: “A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho”. Assim foi Clarice, simplesmente Clarice, a nos mostrar como encontrar a gota de água em que se busca a súmula da vida, da alma, e do mundo.

 

 

 (* )Krishnamurti Góes dos Anjos. Escritor, Pesquisador, e Crítico literário. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contos e  Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 22 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional -  Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações, dentre os quais: Literatura BR, Homo Literatus, Mallarmargens, Diversos Afins, Jornal RelevO,Revista Subversa, Germina Revista de Literatura e Arte, Suplemento Correio das Artes, São Paulo Review, Revista InComunidade de Portugal, e Revista Laranja Original. ///