30 de abril de 2014

A graça da sina

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O cheiro da feijoada de domingo acendia os olhares em direção à casa de Dona Augusta...

A roda de samba se formava em sua porta, a cerveja já se punha sob as mesas postas, as pessoas se aproximavam cada vez mais em bandos e a dona da festa se escondia no fogão em sua prazerosa servidão. Ela comemorava, mais uma vez, o dia da sua viuvez. Dez anos se passaram, e as lembranças de um casamento doente quase não a culpavam mais por aquele tempo. O capitão Lindomar, o dito marido “inexemplar”, destinou toda a sua história na missão de transformar dona Augusta em uma mulher forte, em uma militar sem presunções emocionais, em uma alma triste e em perfeita retidão. Depois de tanto atormentar a sua esposa com cuidados e deveres sociais, agora, a sua morte era celebrada como a abolição da escravidão.

 Ele era um homem cheio de objeções e tinha uma maneira previsível de lidar com a vida. Não gostava de dias festivos, vivia para o trabalho, era pouco sociável; tinha um jeito formal de tratar qualquer coisa, andava sempre de uniforme e não percebia outra serventia para mulher senão como um objeto doméstico e acessório. Nunca quis ter filhos, cachorro, gato ou qualquer outro elemento a mais em seu vazio familiar. O capitão Lindomar era o tipo de ser humano controlado por uma ideia errada de perfeição, algo superficialmente conservador e sem alegrias.

No começo do relacionamento, Dona Augusta percebeu a seriedade daquele homem como um trejeito atraente e gostou da imagem curiosa que ele formava, do menino sonhador que acreditava na justiça como uma referência divina! Ele, por sua vez, admirou a mulher integralmente pela sua beleza. O desenho bem delineado do seu corpo, a harmonia do seu rosto, os seus grandes olhos azuis que não precisavam de retoque algum para serem perfeitos. Casaram-se com menos de quatro meses de namoro e, aos poucos, o capitão Lindomar, antes um mero subordinado de uma baixa patente, se tornou um senhor corrompido pelo poder que alcançara. Foram dez anos associada a um militar com o nome de marido, a um personagem tão envaidecido acerca do seu papel, que o exibia sem descanso e em repetidos atos...

A morte encontrou na grandiosidade do Capitão Lindomar um perfeito pato e enquanto o dito cujo subordinava novamente os pobres soldados do seu batalhão a mais um dia de ordens grosseiras e superiores, ela encostou-se em seu peito forte e o sucumbiu à fraqueza:

“Se eu pudesse, trataria cada um desse bando com chicote e pedrada! Merecem o castigo dos céus por tamanha falta de macheza”.

Depois dessa declaração absurda e de uma rara gargalhada, o orgulho do senhor Lindomar perdeu a batalha da vida e, finalmente, se abateu. O coração duro de um homem que nunca se permitira sofrer, chorar, sorrir ou amar, foi tocado pela paz da morte e parou. Talvez, um gracejo dos céus para a sua alma completamente iludida, talvez um infortúnio para as suas certezas.  Mas de um lado ou do outro, a sentença final veio de uma ordem superior que não foi a dele.

Trágico.

E digno de samba! Dona Augusta comemorou a notícia da sua viuvez com um alívio reconfortante. O fim de sua infelicidade bateu à porta e encerrou um grave peso nas costas. Agora, oficialmente, uma mulher livre, ela já se sentia mais leve e pronta para a vida.

A graça da sina...

Divina!

por Maria Emanuelle M. Félix