Niketche – uma história de poligamia

por Nara Vidal

Quando soube que Paulina Chiziane participaria do Flipoços, evento para o qual eu também fui convidada, tratei logo de me inteirar da sua obra. Confesso que conhecia pouquíssimo e, já desanimada, me surpreendi ao encontrar um exemplar de “Niketche, uma história de poligamia”, numa livraria na Alemanha.

Conhecer pouco da obra de Chiziane não é um azar só meu. Lamentavelmente, a literatura africana em língua portuguesa é pouquíssimo divulgada ou estudada no Brasil. Reflito sobre a razão desse distanciamento já que uma língua oficial inteira nos une. Quando eu cursei a faculdade de Letras, no Rio, literaturas africanas eram uma matéria optativa, como fazer japonês, por exemplo. Não me foi apresentado nenhum autor africano que tenha escrito em português. Já de Portugal, fomos de Camões a Saramago, com afinco e para notas.  Essa espécie de atraso pode e deve ser remediada com a conscientização de escolas, universidades e leitores em geral sobre a riqueza literária africana que abrange mais que Mia Couto e Agualusa.

 

 

A vantagem desse meu desconhecimento foi a porta que se abriu para ver de perto e com muita emoção histórias como a da Rami, personagem principal em “Niketche”. Chiziane, que disse no Flipoços sobre a sua predileção por registrar a oralidade tão pujante no seu país com lendas e contos em volta da fogueira, apresenta uma mulher do sul de Moçambique que luta com as condições sociais inquestionáveis de um país cuja independência é tão recente e se debate com a diversidade cultural extrema dentro do próprio território.

A narradora me assusta vez ou outra com uma submissão intransponível ao patriarcado. Em tempos de um coro uníssono sobre feminismo, Rami nos aponta para uma possibilidade de entendimento mais humano e particular sobre a luta, o medo e a eventual conquista de cada mulher sem a generalização que pode prejudicar tanto movimentos importantes como o feminista.

O impacto gerado pelo livro é especialmente o cultural. Mulheres que se sujeitam a um relacionamento polígamo e que, num efeito matryoshka, se desdobram em várias quase que infinitamente.  No início da história, as mulheres brigam entre si pelo homem que dividem. Confrontos físicos e ofensas caracterizam o relacionamento das mulheres de Toni. Uma inegável competição entre elas define uma relacionamento destrutivo entre as mulheres, algo que muito atrasa nossa emancipação. O papel sexual é discutido e as diferenças entre norte e sul são vislumbradas. Costumes como os das mulheres do norte que têm aulas de amor, alongam as genitálias e usam roupas coloridas para agradar e seduzir o marido são sempre preocupações que valorizam excessivamente o domínio masculino. O papel de Rami, como a primeira mulher, a oficial e portanto, segundo as demais, a mais forte é questionar a poligamia e de uma forma inteligente unir suas concorrentes para que se fortaleçam com a ausência de um homem vaidoso e desleal, mas que é também fruto da cultura machista extrema daquela sociedade.

Interessantemente, no meio da história, as mulheres descobrem a independência financeira e isso muda por completo seus pontos de vista. A miséria e a pobreza de muitas desseas mulheres que se conformam com a poligamia são condições pré-existentes na prática da poligamia que, entre outras coisas, dá a elas um teto e comida. Um tema recorrente, particularmente, na literatura feita por mulheres. A room of one’s own, ensaio pra lá de brilhante de Virginia Woolf, a autora sugere exatamente que a independência financeira tem o potencial de transformar a mulher e sua vida. Um quarto só seu e tempo para escrever são os tipos de liberdade recorrentes no ensaio. De uma forma parecida, Jane Eyre, a heroína da novela de mesmo nome de Charlotte Bronte, também se vê independente quando recebe uma herança e não precisa mais se encaixar nos hábitos e sociedade machista da época. O trabalho, a independência financeira e a escolha são pontos cruciais na discussão feminista e cada uma dessas autoras desenvolve esse tema de forma brilhante e muito singular, de acordo com seu tempo e cultura.

Não há um final feliz. Mas há uma excelente história de uma autora que foi a primeira mulher a publicar um romance no seu país. Minha comoção vai além do texto da Paulina Chiziane porque abrange a oportunidade que me foi dada de olhar dentro dos seus olhos no Flipoços e descobrir que, naquela luz verde e naquela voz doce, há uma força muito particular que alguns limitam, comunmente, à expressão “empoderamente feminino”. Eu suspeito seja mais, muito mais que isso.

 

“Niketche – uma história de poligamia” (Editora Caminho – 2002 – 5 edição)

355 páginas

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