A ARTE DE QUERER BEM

por Marco Severo
Retirado de:https://goo.gl/SOTC6r

Há algumas semanas, fiz uma amiga minha chorar.

Não foi por mal, eu sei. Ela me fez umas perguntas meio cabulosas, daquelas que a gente só faz pra quem conhece bem. E eu respondi com muita paciência e sem alterar o tom de voz, mas o resultado foi um aguaceiro de fazer inveja ao Cantareira.

O primeiro e vasto sentimento foi o da culpa. Mesmo que ela tenha chorado porque minha resposta desengatilhou emoções represadas, o que certamente abriu nela um processo reflexivo e muito dolorido, fazer alguém chorar, na cultura em que estamos inseridos, é algo aparentemente pesaroso.

Imediatamente vieram a mim inúmeros pensamentos. Pensei que isso iria nos afastar (não aconteceu, pelo contrário), que eu poderia ter ido longe demais (não fui), que magoar alguém é motivo de sessão de análise (pode ser que sim).

Passado esse primeiro momento, reflexões posteriores me levaram a outras compreensões: não podemos nos eximir de dizer o que pensamos de nossos amigos, quando somos convidados, por eles, a emitir opinião. Da mesma maneira, não se pode admitir dizer tudo, de qualquer jeito, sem o devido traço de autocrítica e a medida da ponderação, sob o risco de implodir o elo da amizade que une duas pessoas. Se o caso for o de não saber dizer, cale-se. Não existe essa de que é melhor dizer do que se acovardar; ao contrário: é melhor retirar-se para não tocar algo que exige tato e sutileza.

É melhor afastar-se e ser chamado de indiferente do que se aproximar da forma errada e ser chamado de brucutu.

Jamais saberemos ao certo pelo que passam aqueles que amamos, há coisas que não dizemos nem a nós mesmos, coisas que nós também temos medo de enfrentar, que dirá alguém cuja cabeça conhecemos apenas no limite em que ela quer ou consegue se mostrar.

Amizades podem se perder irremediavelmente diante de palavras mal-colocadas, portanto fazer uso delas requer um mínimo de sabedoria.

Por outro lado, se o amigo tiver convidado suas entradas opinativas, é difícil não dizer o que vai no coração. É impiedoso não fazê-lo, porque opinar requer fazer uso da verdade.

Por esta razão, hoje em dia, quando um amigo me vem com um “quero saber sua opinião sincera”, eu digo: até que ponto você quer realmente saber minha opinião ou quer apenas que eu diga o que você quer ouvir? E assim, nos acertando previamente, piso mais no freio ou não. Falar o que vai dentro de si também exige um tanto de racionalidade prévia, às vezes. E é uma maneira de saber lidar, depois, com as mais diversas erupções que só a emoção pode fazer acontecer.

Penso nisso como a arte de querer bem, que perpassa, quase sempre, pela máxima de não fazer ao outro aquilo que não gostaríamos de ver feito a nós. Isso é ter honestidade consigo mesmo. É saber dialogar com seu eu mais intrínseco.

Quem não fala suas verdades coloca em si mesmo uma venda que o cega para todas as possibilidades que advém da transparência. E isso também é ser verdadeiro com seu próprio eu.

Fazer amizades é muito fácil, mas experimente sustentá-las durante anos. Não é tarefa simples. Por isso que, com essa mania difundida por esse mundo virtual e dinâmico que optou por chamar a todos de amigos, banalizando um substantivo que carrega tanto em poucas letras, acredito que podemos ter muitos colegas. Amigo é uma outra coisa. É se fazer presente na ausência. É saber-se existente, ainda que não se saiba exatamente onde. É o nível mais próximo da união entre dois seres que tiveram a sorte de nascerem na mesma época e se encontrarem.

Mas que, nem por isso, merece sempre ouvir tudo e de qualquer jeito. Nem ser negligenciado. O nome disso é outra coisa.

Querer bem é praticar a benquerença, sem pieguice. E saber que isso não significa ser refém dos sentimentos de ninguém.

Querer bem é tarefa pra vida toda, inclusive algo para fazer com que nós mesmos cresçamos, mas não deve ser nunca martírio nem sentença. O divino existe quando você toca o outro com o melhor de si. É aí que a magia acontece.

Marco Severo é professor de inglês e tradutor. Tem um conto publicado na antologia "Cemetery stories" (2001) e também na revista Reader's Digest. Publicou o livro de crônicas "Os escritores que eu matei", pela editora Substânsia (2015) e prepara seu primeiro livro de contos para 2016.
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