19 de janeiro de 2023

Inauguração, crônica de Paulo Geovane

Há um dia em que a palavra nasce. Não na língua nem no ouvido, mas no mundo - partilhada, sonora, em movimento: viva. No meu caso, tudo começou com a professora Keyla: 1996, Ibirité, Escola Estadual no Parque Elizabeth, quinta série, turma 501. A professora entra na sala de forma costumeira: pede silêncio muitas vezes, cumprimenta a turma, sorri de verdade. O menino que eu era vê nela dois mistérios difíceis de resolver: como é possível alguém ter um Y no próprio nome? e por que ela insiste em falar para alunos sem paixão? 

O trajeto da porta até a mesa dela está molhado pelas goteiras atravessando o amianto do telhado. Choveu muito, bem antes da aula de redação.

Paulo!

Assustado, escuto o meu nome, ainda sem separar bem as vozes da professora e da minha mãe - medo de ambas. Com a mão esquerda, Keyla me convoca à sua mesa. Estar na frente da turma me fazia tremer. Querido, olha, gostei tanto da sua redação. Você quer ler pra turma? Eu só escutava o ploc pesado das goteiras atrás de mim. Movi a cabeça negativamente. Eu posso ler então? Consenti.

Voltei para a minha mesa. Naquele pequeno caminho, cada fio da minha carne sentiu a felicidade em estado puro: sem entender o motivo. O porquê das coisas chega sempre atrasado e assim se mantém pontualíssimo.

A redação se intitulava "Vida". Não sei mais o que escrevi naquelas linhas. A única imagem que guardei desse dia é da professora lendo as minhas palavras, o seu corpo de pé, perto da porta da sala, aquela luz limpa e mansa, tão posterior à chuva, pousando sobre as roupas coloridas da professora. Foi a primeira vez que ouvi a minha voz fora do meu corpo. A voz ritmada da Keyla era a minha voz também. Nesse dia, a palavra nasceu em mim. Era a literatura inaugurada, desejo nascido inteiro, vínculo verbal entre outro corpo e o meu, ouvindo-o.

No final da leitura, acho que ela bateu palmas, a turma também, e a sua voz me transmitiu algumas palavras de prestígio e um incentivo muito próximo à sensação de colo: Continue escrevendo.

Keyla, não sei por onde você anda nem se está viva. Esta crônica é um agradecimento pelo seu gesto. Obrigado por plasmar em mim a consciência da escrita literária. Como aluno obediente que fui, sigo espalhando a escrita mundo afora. É verdade que as minhas palavras são menos obedientes que eu, Keyla… estamos em 2023, um ano sem espaço para as palavras passivas, a escrita submissa, a literatura muda.

A coluna “Deus me livro!” está de volta e a democracia também!

Um abraço e bom 2023 pra gente!