13 de outubro de 2026

Pluribus: o silêncio e a necessidade de um abraço

Este texto pode conter spoilers da primeira temporada.

Quando soube que Vince Gilligan, criador de Breaking Bad e cocriador de Better Call Saul, havia lançado uma nova série, fiquei animado. Principalmente porque Pluribus traz como protagonista Rhea Seehorn, que já havia me conquistado em Better Call Saul e que considero uma das melhores atrizes das séries que acompanhei nos últimos anos.

Comecei a assistir sem saber praticamente nada. Minha única informação era que a produção trabalhava com ficção científica. Não conhecia a quantidade de episódios, sua duração ou o caminho que a história seguiria. E o que encontrei foi uma série que, de alguma maneira, dialoga com Better Call Saul: os diálogos são importantes para compreender o que acontece, mas há muita coisa sendo construída nos intervalos entre eles.

Em Pluribus, por exemplo, o silêncio é fundamental.

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Carol Sturka, a escritora interpretada por Seehorn, precisa compreender um mundo que se tornou estranho de uma hora para outra. Um fenômeno transforma quase toda a humanidade em uma consciência coletiva, enquanto ela e outras doze pessoas permanecem imunes. Diante disso, Carol tenta entender o que aconteceu e quais possibilidades ainda existem para aqueles que conservaram sua individualidade.

Mas sua investigação acontece em meio a uma perda: Helen, sua companheira, morre durante a transformação. Uma das poucas relações em que Carol parecia encontrar afeto e proximidade desaparece justamente quando o restante do mundo passa a funcionar de outra maneira.

Desde o início, ela já demonstra certo desencanto com as pessoas e até com o trabalho que divulga. Depois da morte de Helen, Sturka precisa enfrentar uma solidão que ultrapassa a ausência da companheira. Há pessoas ao seu redor, mas a presença delas já não significa o que significava antes.

É nesse ponto que a atuação de Rhea Seehorn me impressiona. Em vários momentos, Carol permanece sozinha em cena, realizando ações que acompanhamos "demoradamente". Não deve ser simples sustentar o interesse do espectador nessas condições. Seehorn consegue fazê-lo com gestos, expressões e reações que nos permitem perceber o que está acontecendo com a personagem, mesmo quando ela não diz nada.

Talvez esse silêncio incomode parte do público porque a série exige que observemos e permaneçamos com Carol por um tempo que outras produções provavelmente abreviariam. Há sequências em que somos apenas espectadores de suas tentativas de ocupar aquele mundo e compreender sua nova condição.

Embora existam situações de perigo, como na viagem de Manousos, que parte do Paraguai em direção a Albuquerque, no Novo México, o que mais me interessa são as mudanças na maneira como Carol encara o que está vivendo. As reviravoltas que me prendem acontecem principalmente em suas convicções e aqui, talvez, esteja o pulo do gato pra que muita gente não perca a vontade de assistir Pluribus.

Quando ela se reúne com parte dos outros imunes, encontra pessoas dispostas a aceitar aquela realidade. Alguns ainda convivem com familiares incorporados à consciência coletiva e parecem considerar suficiente que eles continuem fisicamente presentes, ou seja, vivem uma forma de autoengano, e isso traz um questionamento: até que ponto determinada convivência preserva a relação que existia antes?

Outros enxergam no novo mundo uma oportunidade de satisfazer seus desejos. Temos Koumba Diabaté, que passa a viver cercado de luxo em Las Vegas, e esse personagem é a representação de uma dessas respostas. Sua relação com as mulheres incorporadas à consciência coletiva me deixou inquieto: o que significa buscar intimidade com alguém cuja individualidade já não existe da mesma maneira? Põe em xeque também a sua humanidade, pois facilmente é visto como um violentador, um predador sexual. 

Esses encontros, portanto, que Carol tem com meia dúzia de pessoas que ainda são humanos, mostram diferentes formas de lidar com a transformação. Carol resiste à ideia de todas essas pessoas, mas sua resistência também tem consequências. Como sua personalidade é forte e marcante, a maneira de lidar com as pessoas que são parte dessa consciência coletiva ultrapassa a gentileza, digamos assim, fazendo com que a consciência coletiva se afaste, deixando Carol efetivamente sozinha por um bom tempo.

Esse é, para mim, um dos melhores momentos da temporada. O silêncio ganha um peso quase sepulcral. Carol tenta ocupar os dias e parece, por algum tempo, encontrar uma maneira de viver sem aquelas presenças. Até que essa aparente recuperação deixa de ser suficiente.

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Um abraço passa a importar muito.

É difícil não ser tocado por essa necessidade de contato. A mulher que rejeita o novo mundo também precisa de acolhimento. Sua aproximação com Zosia, integrante da consciência coletiva, torna essa contradição ainda mais forte: Carol busca afeto justamente entre aqueles que associa à perda de Helen e à transformação contra a qual vinha lutando.

Foi esse movimento que fez Pluribus me ganhar. Carol passa pela raiva, pela resistência, pelo isolamento e pela possibilidade de aceitar uma convivência que antes lhe parecia intolerável. Não entendo isso simplesmente como uma mudança de personalidade, mas como alguém tentando descobrir o que consegue suportar.

Antes do encerramento da temporada, um novo encontro e novas informações voltam a modificar sua posição frente à consciência coletiva. O que parecia o começo de certa tranquilidade passa para um ponto em que a disputa é posta em questão novamente.

Pluribus é uma série à qual vale dedicar tempo e atenção, especialmente pelo que acontece quando ninguém está falando. Quero compreender melhor o fenômeno que atingiu aquele mundo e descobrir se ele ainda pode ser revertido nas próximas temporadas. Mas o que permanece comigo, ao fim da primeira temporada, é Carol diante do silêncio, e o quanto a necessidade de um abraço pode abalar até nossas convicções mais firmes.

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