13 de março de 2026

Todo escritor é um mentiroso

por Arthur Petrola

 

Eu gosto de um bom mentiroso. Ariano Suassuna também. Ele dizia que alguém que mente pelo amor à arte de mentir é sempre uma pessoa mais interessante. Acho que uma boa mentira tem sempre um bom enredo e bons personagens, e nos interessa até o momento em que ela se torna insustentável. Um bom mentiroso é um livro que perambula em duas pernas, ou seja, um escritor.

​Mas eu não gosto de qualquer mentira, nem respeito qualquer mentiroso. Valorizo aqueles que mentem na inocência e pelo entretenimento, como João Favela, que eu conheci muitos anos antes sequer de ouvir falar de Suassuna e, portanto, de Chicó.

​João Favela era um homem quase caricato. Tinha um problema na coluna e braços muito longos, que ele agitava por cima da cabeça quando contava histórias, num movimento teatral. Trazia o sol entranhado na pele escurecida e no chapéu que um dia fora preto.  Nenhuma plateia era pequena demais para um causo qualquer. Ainda que alguém duvidasse dele, isso não importava. Primeiro, porque a função de um narrador é narrar, é fazer de uma coisa outra maior ainda (quem quiser acreditar que acredite); segundo, porque o sertão já é um absurdo. Dentro dele cabe tanto, até mesmo a realidade. 

Se por um lado, anos depois quando li Guimarães Rosa, eu entendi que o sertão é essa condição existencial e geográfica que escapa à lógica cartesiana, também aprendi que a metafísica sertaneja se entranha de violência. Riobaldo é a prova.

Mas, e se retirarmos o lúdico e o delírio? Se afastarmos João Favela e Riobaldo, o que sobra do sertão? Eu digo: sobra o sertão como inconsciente coletivo. E o inconsciente é, por si só, uma besta indomável. E sobra a literatura de Tito Leite.

Nascido em Aurora, no Cariri cearense, Tito trocou há alguns anos a vida beneditina e o hábito monástico pelo mundo secular. O absurdo talvez comece aí: o homem que conheceu o silêncio dos claustros é o mesmo que agora narra o barulho ensurdecedor da brutalidade humana que irrompe com violência física e exploração social. Um autor que aponta o dedo em revólver para o absurdo, fazendo-o deixar de ser poético para se tornar uma questão de sobrevivência.

Tito escreveu dois romances: Dilúvio das Almas e Jenipapo Western, ambos pela editora Todavia, nos quais ele arranca a carne e deixa o osso da realidade exposto para que o leitor se depare com um cotidiano imperdoável. Já escrevi em outro momento que Tito narra como se afirmasse que nada é justo e que não existe salvação. Melhor, não é necessário se salvar porque a crueza de matar e morrer se entende e perdoa a si mesma.

​Em Dilúvio das Almas, Tito não romantiza: fala de uma "cultura de morte sustentada pelos poderes dos mais fortes", de um ódio que convida à barbárie e de um lugar onde "o sotaque dos moradores era o de sobreviventes". O livro lida com a impossibilidade de fugir ao passado e com a violência latente. O Riobaldo de Rosa ainda procurava o diabo e o sentido da vida; Leonardo, o protagonista, depara-se com coronéis, poeira e com a sede de vingança.

​No segundo romance, Jenipapo Western, o foco permanece na luta de classes, mas com papéis mais definidos entre opressores e oprimidos. Aqui, a dualidade não diminui a complexidade; antes, a intensifica. Se João Favela contava causos para entreter com a ingenuidade de um mentiroso, no sertão de Tito Leite, as histórias são contadas porque se perdeu a inocência. Os personagens enfrentam demônios muito reais. O homem sertanejo é reduzido a "um condenado a viver feito animal arisco".

Tito faz da linguagem da violência social a sua matéria bruta literária. Escapa magistralmente do detalhamento gráfico das mortes para focar na desigualdade de poderes e posições e, portanto, no incômodo. Como ele também é poeta, falo do Tito ficcionista, afirmando ser impossível o ler sem ser atravessado por esse desconforto.

Eu gosto de Tito e gosto de um bom mentiroso. Ele é os dois. Tito mente, como todo bom autor, mas sem a doçura de João Favela e sem a dúvida de Riobaldo. A mentira literária de Tito é outra bala de revólver disparada. E, como disse Guimarães Rosa, bala é "um pedacinhozinho de metal". Algo minúsculo, aparentemente insignificante, mas capaz de fazer um estrago.