Todo escritor é um mentiroso
por Arthur Petrola
Eu gosto de um bom mentiroso. Ariano Suassuna também. Ele dizia que alguém que mente pelo amor à arte de mentir é sempre uma pessoa mais interessante. Acho que uma boa mentira tem sempre um bom enredo e bons personagens, e nos interessa até o momento em que ela se torna insustentável. Um bom mentiroso é um livro que perambula em duas pernas, ou seja, um escritor.
Mas eu não gosto de qualquer mentira, nem respeito qualquer mentiroso. Valorizo aqueles que mentem na inocência e pelo entretenimento, como João Favela, que eu conheci muitos anos antes sequer de ouvir falar de Suassuna e, portanto, de Chicó.
João Favela era um homem quase caricato. Tinha um problema na coluna e braços muito longos, que ele agitava por cima da cabeça quando contava histórias, num movimento teatral. Trazia o sol entranhado na pele escurecida e no chapéu que um dia fora preto. Nenhuma plateia era pequena demais para um causo qualquer. Ainda que alguém duvidasse dele, isso não importava. Primeiro, porque a função de um narrador é narrar, é fazer de uma coisa outra maior ainda (quem quiser acreditar que acredite); segundo, porque o sertão já é um absurdo. Dentro dele cabe tanto, até mesmo a realidade.
Se por um lado, anos depois quando li Guimarães Rosa, eu entendi que o sertão é essa condição existencial e geográfica que escapa à lógica cartesiana, também aprendi que a metafísica sertaneja se entranha de violência. Riobaldo é a prova.
Mas, e se retirarmos o lúdico e o delírio? Se afastarmos João Favela e Riobaldo, o que sobra do sertão? Eu digo: sobra o sertão como inconsciente coletivo. E o inconsciente é, por si só, uma besta indomável. E sobra a literatura de Tito Leite.
Nascido em Aurora, no Cariri cearense, Tito trocou há alguns anos a vida beneditina e o hábito monástico pelo mundo secular. O absurdo talvez comece aí: o homem que conheceu o silêncio dos claustros é o mesmo que agora narra o barulho ensurdecedor da brutalidade humana que irrompe com violência física e exploração social. Um autor que aponta o dedo em revólver para o absurdo, fazendo-o deixar de ser poético para se tornar uma questão de sobrevivência.
Tito escreveu dois romances: Dilúvio das Almas e Jenipapo Western, ambos pela editora Todavia, nos quais ele arranca a carne e deixa o osso da realidade exposto para que o leitor se depare com um cotidiano imperdoável. Já escrevi em outro momento que Tito narra como se afirmasse que nada é justo e que não existe salvação. Melhor, não é necessário se salvar porque a crueza de matar e morrer se entende e perdoa a si mesma.
Em Dilúvio das Almas, Tito não romantiza: fala de uma "cultura de morte sustentada pelos poderes dos mais fortes", de um ódio que convida à barbárie e de um lugar onde "o sotaque dos moradores era o de sobreviventes". O livro lida com a impossibilidade de fugir ao passado e com a violência latente. O Riobaldo de Rosa ainda procurava o diabo e o sentido da vida; Leonardo, o protagonista, depara-se com coronéis, poeira e com a sede de vingança.
No segundo romance, Jenipapo Western, o foco permanece na luta de classes, mas com papéis mais definidos entre opressores e oprimidos. Aqui, a dualidade não diminui a complexidade; antes, a intensifica. Se João Favela contava causos para entreter com a ingenuidade de um mentiroso, no sertão de Tito Leite, as histórias são contadas porque se perdeu a inocência. Os personagens enfrentam demônios muito reais. O homem sertanejo é reduzido a "um condenado a viver feito animal arisco".
Tito faz da linguagem da violência social a sua matéria bruta literária. Escapa magistralmente do detalhamento gráfico das mortes para focar na desigualdade de poderes e posições e, portanto, no incômodo. Como ele também é poeta, falo do Tito ficcionista, afirmando ser impossível o ler sem ser atravessado por esse desconforto.
Eu gosto de Tito e gosto de um bom mentiroso. Ele é os dois. Tito mente, como todo bom autor, mas sem a doçura de João Favela e sem a dúvida de Riobaldo. A mentira literária de Tito é outra bala de revólver disparada. E, como disse Guimarães Rosa, bala é "um pedacinhozinho de metal". Algo minúsculo, aparentemente insignificante, mas capaz de fazer um estrago.
