A senhora Sócrates
por Marco Severo
Saí da livraria com uma sacola cheia de livros, o vento gelado fazendo com que o cachecol quisesse sair voando do meu pescoço. Olhei para o céu: Vai chover, pensei. Agarrei meus livros dentro da sacola em um instinto protetor de leoa-mãe, colocando-os junto ao meu corpo agasalhado. Choveria mesmo, mas não era para já.
De longe vi que o ônibus que me levaria para o meu próximo destino se aproximava e eu corri para pegá-lo. Entrei, paguei e, no que avancei alguns passos ônibus adentro, uma senhora muito simpática, de uns setenta e muitos anos, sorriu pra mim. Resolvi ficar ali, de pé junto com ela, que se sustentava segurando-se nas barras que havia acima de nós e nos encostos dos bancos. Sorri de volta. Ela sentiu-se encorajada para dizer que aquele inverno em Lisboa estava mais rigoroso do que os anteriores. Eu disse que lamentava por ela, mas que eu, que vinha de um lugar quente, gostava daquele clima, sobretudo porque ia passar apenas alguns dias. Silêncio por alguns segundos. Então: Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim, ela leu em voz alta o que estava na minha sacola com os livros. A frase de Fernando Pessoa ressoou dentro dela, percebi quando notei suas rugas se movimentando pelo rosto, como se aquilo a houvesse atingido e ela estivesse tentando assimilar o que sentia. Ou como. É o que nos resta fazer, disse num suspiro. Nesse momento, duas pessoas que estavam sentadas em cadeiras uma disposta na frente da outra se levantaram para deixar o veículo, e nós nos sentamos. Olhou no meu rosto e disse, Meu filho morreu aos 32 anos. Eu não fiz menção de dizer nada, apenas continuei olhando para seus olhos sobre os meus. Com a morte dele, criei meus netos, porque a mão não os quis, e hoje eles sequer falam comigo, continuou ela. Percebi que o ao redor dos seus olhos ficaram vermelhos. Ela pigarreou, e eu entendi que ela estava segurando o choro.
Notei que havia nela não apenas a vontade de falar, mas a necessidade da fala. Senti meus olhos marejados e um nó na garganta. Estávamos conectados por um fio que nos unia igualmente. Ela estava ali para confiar o que sentia a um estranho; compreendendo o meu lugar, me coloquei completamente disponível para ouvi-la. Disse que enquanto ganhava seu ordenado certinho eles queriam conversa, depois que seu dinheiro mal dava para os remédios e para a manutenção básica da casa, esqueceram dela. Ou melhor, sumiram, disse, entre olhando para mim e para o chão do veículo. Eu olhava para fora, pela janela, de esguelha, na tentativa de me situar, saber se estava perto do local de descida. Não que eu me confiasse muito nisso, por isso olhava também para o GPS – era o mapa que me orientava melhor. E como se tudo isso não bastasse, acrescentou ela, tenho uma mãe quase centenária que agora está com uma doença pulmonar e se mantém viva por estar ligada a aparelhos. Os meus irmãos, todos mais novos, não têm a menor preocupação com ela. Jogaram para mim a incumbência de fazer as visitas e dar a ela os remédios. Por que o ser humano não se apaga, simplesmente? Por que tem de haver tanto sofrimento?, disse, numa indignação triste. Eu disse a ela que iria voltar no dia seguinte e vi, mesmo estando ela ali ligada pelas máquinas, a sua respiração se alterar. Como sofre, a minha mãe, e isso me dói tanto. Aliás, como é seu nome? Marco, eu disse. E o da senhora? Margarida. Seu nome é bonito, ela completou. Agradeci, sem saber ao certo se deveria dizer mais alguma coisa. Ela aproveitou minha hesitação e continuou: Será que eu fiz algo para merecer isso? Quando eu era miúda eu matava os pintinhos que me davam. Esmagava entre os dedos. Será que agora estou pagando por isso? Mas Deus não há de perdoar as crianças? Ou apesar de sua infinita sabedoria, ele não tem interesse em sondar o que vai aqui dentro de mim e pune a velha pela criança merecedora de castigo que fui? Será que agora estou pagando por isso?, repetiu.
Eram tantas as indagações, que eu percebia seu coração se afundando numa tristeza que era também um labirinto. Agora eu queria mais do que nunca que um de nós tivesse que sair do ônibus. Aqueles livros já não significavam muita coisa, eu quase os via com o mesmo olhar indiferente que teria se fossem algodão-doce. A mulher se levantou de um salto: Não sabemos. Tudo é mistério e só uma coisa é certa: nós nascemos e temos que nos acabar também. Do resto, só sei que nada mais sei.
Ela desceu do ônibus e me deixou novamente sozinho com meus livros. Alguns metros adiante foi a minha vez de seguir meu caminho, novamente a pé. Voltei a segurar a minha sacola de livros de modo a protegê-la. Eu também sei tão pouco, dona Margarida. E é por saber quase nada que sigo lendo como se minha vida dependesse disso.
Talvez dependa.
