Tchékhov, uma D-20 e as brenhas do mundo
por Arthur Petrola
Há alguns anos, uma companhia de teatro do Sudeste decidiu ensaiar Tchékhov em Arneiroz, no sertão dos Inhamuns. Lembro-me do espanto imediato: “O que diabos Arneiroz tem a ver com a Rússia?”. O argumento era que a aridez e o clima do sertão eram uma forma dos atores compreenderem, na pele, o Cáucaso. Eu não conhecia o Cáucaso, então acreditei.
Mas foi preciso o tempo passar para que outro cearense me fizesse viajar àquelas terras distantes novamente. Quando conheci a obra de Mailson Furtado, entendi finalmente como o leste europeu poderia estar tão próximo do Ceará, fosse em Arneiroz, ou mais pro noroeste, bem ali nas brenhas de Varjota.
Pode parecer que não tenho juízo, mas tenho e me explico. Ao seguir a máxima de Tolstói de que encontramos o universal ao pintar nossas aldeias, Mailson me fez enxergar que o mundo inteiro pode caber nas entranhas de uma cidade só.
Para quem já o leu, a comparação é óbvia. Para quem ainda não foi apresentado, este é o guia da viagem:
Mailson Furtado. Poeta, escritor, ator, dramaturgo... antes de tudo, uma cidade feita homem. Ou talvez um artista feito cidade. Ainda não decidi.
Cheguei à sua obra através de Litígio, o seu livro publicado pela Editora Moinhos. Tenho o hábito de comprar livros aleatoriamente; faço isso para me deixar surpreender por algo que desconheço, e eu desconhecia o Mailson. Mas, curiosamente, esse não foi o primeiro que li.
Enquanto aguardava a chegada do exemplar físico, o algoritmo acabou por sugerir outra obra sua: "à cidade", dessa vez como ebook. Comprei e deixei ali, no meu e-reader, à espera do fim de outras leituras. Já perto do final do ano, resolvi abrir, quase num desafio cético, mas fui fisgado muito facilmente:
"é noite na cidade
e os meninos tomam a rua
desviam de bicicletas
triscam tantas coisas
além de bola
ou parede de contar
talvez em mim também"
Fui transportado imediatamente para Arneiroz. Me vi menino, correndo para o banho depois de um dia suado, trocando a roupa encardida de terra e de brincadeiras, só para me preparar pra suar e me sujar de novo. E, no fim, dormir sem banho porque já era tarde demais quando eu voltava para casa, depois da minha mãe ter me chamado umas duzentas vezes.
Mailson diz que este é um livro sobre a sua cidade, um lugar ainda em formação, erguendo-se diante de outras urbes centenárias já nomeadas.
É também um livro sobre um rio, o Acaraú, que margeia, corta e sutura a cidade, criando genealogias ao longo do percurso e da história.
É sobre como uma cidade acorda e adormece. Sobre a rua e a vida que se transformam a cada transeunte, a cada moto que cruza o caminho do trabalho carregando um corpo, um destino.
Sobre meninos e meninas que ampliam seus horizontes vivendo entre paralelepípedos e asfalto, sem muros. Sobre depender de um rio para ter sangue nas veias e, a partir dele, inventar outros caminhos.
É, sem dúvida, um livro cearense, ainda que eu não saiba exatamente definir o que isso seja, ou mesmo se essa categoria existe. O que sei é que, ao lê-lo, concordei como nunca com Tolstói.
E foi isso que me fez chegar, finalmente, a “Litígio”. Vá sem expectativas, eu disse a mim mesmo. Não fui. Não sou crítico literário, e muito menos alguém que acredita na neutralidade das ideias e posições.
Entrei no novo livro como quem chega mais uma vez ao interior do Ceará. Dessa vez, na carroceria da D-20 marrom do meu pai, ignorando qualquer legislação de trânsito, se é que elas existiam na década de 90.
O livro evoca essa ancestralidade, memória, reconhecimento e, acima de tudo: paternidade. Não é sobre um pai em específico, mas sobre como a paternidade é a iniciação ao mundo. É ela quem corta o cordão da segurança para nos apresentar o futuro, o horizonte, o "lá fora". O livro busca entender isso, por exemplo, quando volta a uma fotografia de uma rua, a uma memória do pai que nem ele tem mais.
Visualmente, a estrutura engana: parece poema, com estrofes desenhadas no papel, mas são narrativas curtas, causos marcados na carne viva da oralidade, como o próprio livro é definido.
Há ali uma tensão urbano-rural constante. Alguns teóricos, para dar conta disso, falam de "rurbanidade", um espaço de síntese entre o campo e as cidades. A literatura de Mailson reside nessas fronteiras não visíveis, incluindo as temporais.
E, embora o Censo afirme que 87% da população do Brasil seja urbana, a estatística parece falhar em entender a nossa essência. Somos uma imensa nação de interiores que apenas mora nas cidades. Mailson prova isso com literatura.
Num dos causos de Litígio, encontramos o pai que não esconde o medo do mundo, mas ensina a lidar com ele. No diálogo com o filho que afirma estar "ariado", perguntando se tudo aquilo não "barulha o juízo", a resposta paterna não é uma proteção cega, mas uma ferramenta de sobrevivência:
"meu fii, sei não,
pra que a vida se não pra sossegar sustos?
Pra quê?"
Sossegar sustos. Talvez seja essa a melhor definição de educar alguém para o futuro. O livro se torna também um convite pra se pensar o "pra frente", o que ainda vai vir. Terminei o livro querendo começar de novo, do mesmo modo como eu fiz com o primeiro, e assim Mailson virou um dos meus melhores amigos, sem que ele soubesse disso.
P.S.: Não que importe para a leitura, mas “à cidade” ganhou o Jabuti de Melhor Livro de Poesia e de Livro do Ano em 2018.
