11 de junho de 2022

Dois modernistas esquecidos: Adalgisa Nery e Augusto Frederico Schmidt

Nos cem anos da Semana de Arte Moderna há discussões que bailam ora entre o caráter eventualmente paulista do evento, ora entre sua indutiva nacionalização estética, filosófica e até política. Que o diga Mário de Andrade, suas correspondências e andanças pelos interiores do Brasil, como já abordado em outros textos para esta coluna. É preciso dizer que mesmo buscando uma brasilidade nos falares, na escrita e nas consciências, os modernistas não se despiram das largas influências lexicais europeias, do aporte financeiro e simbólico das elites econômicas em progressiva decadência ou da herança subtraída de um capital simbólico acumulado pelos principais herdeiros do que seria fundado e reconhecido como modernismo. Com dois deles, talvez esquecidos, não foi diferente.

Augusto Frederico Schmidt é da segunda geração do modernismo. Conhecido por três livros que fizeram sucesso em sua época (Galo Branco, Estrela Solitária e Prelúdio à Revolução), escreveu sobre o amor, a morte, a modernidade e o existencialismo atroz que aturde a todos. A todos? Acontece que Schmidt, em sua poesia, tanto cantou o amor e a morte como a contradição: o claro-escuro da existência. Uma ambiguidade que reflete a decadência de elites econômicas da época, mas também uma admiração com as novidades tecnológicas, o progresso da ciência e da urbanização. Isso torna a poesia do carioca que chegou a ser presidente do Botafogo uma ambiguidade em termos: ora o poeta do amor e da morte, ora o poeta da modernidade industrial e da urbanização. Nos dois habita, entretanto, o epigramático de uma certa decadência: o retrato de uma época, de um Brasil que transitava do rural ao urbano e que deixava, à sorrelfa, hábitos de vida antigos, o que talvez conferisse a esses poetas um viés existencial; uma sensaboria do desnorteio entremeada pelos ares de modernização vivenciados pelo Brasil da época. É exemplo o poema (do livro Navio Perdido) que segue:

 

LEMBRANÇA

Todos os que estão neste cinema agora,
Neste cinema alegre,
Um dia hão de morrer também:
Nos cabides as roupas dos mortos
          penderão tristemente.

Os olhos de todos os que assistem
          as fitas agora,
Se fecharão um dia trágica e dolorosamente.
E todos os homens medíocres
          se elevarão no mistério doloroso da morte.
Todos um dia partirão —
mesmo os que têm mais apego às coisas do mundo:
Os abastados e risonhos
Os estáveis na vida
Os namorados felizes
As crianças que procuram compreender —
Todos hão de derramar a última lágrima.

No entanto parece que os freqüentadores deste cinema
Estão perfeitamente deslembrados de que terão de morrer
Porque em toda a sala escura há um grande ritmo de
                                          [ esquecimento e equilíbrio.

 

O mesmo viés existencial e confessional atingiu a Adalgisa Nery. Dela destaco os livros: A Mulher Ausente (1940), Ar do Deserto (1943) e Cantos de Angústia (1948). Mulher talvez silenciada pelo tempo e pela obra do marido, Ismael Nery, Adalgisa brilhou com uma poesia existencial no limite do fantástico e do absurdo. Não se falava ainda em absurdismo na poesia quando Adalgisa experimentou, em livros diversos, os liames do insólito em sua obra. Alguém poderia compará-la a um Augusto dos Anjos, mas seria incorreto atribuir aos méritos estilísticos de uma mulher a influência arbitrária de um referencial masculino. Creio que Adalgisa chegaria a colocar Augusto dos Anjos nos bancos escolares quando o assunto é a exploração do fantástico com um viés decadente, confessional e existencial. Falou da morte, da dependência afetiva, da liberdade feminina e das questões existenciais do universo: a origem da angústia, do amor e da saudade. Esta última palavra, por sinal, a que Adalgisa conferiu um significado para além daquele encontrado nas palavras em puro estado de dicionário; é exemplo o poema Cemitério Adalgisa:

 

CEMITÉRIO ADALGISA

 

Moram em mim

Fundos de mares, estrelas-d'alva,

Ilhas, esqueletos de animais,

Nuvens que não couberam no céu,

Razões mortas, perdões, condenações,

Gestos de amparo incompleto,

O desejo do meu sexo

E a vontade de atingir a perfeição.

Adolescências cortadas, velhices demoradas,

Os braços de Abel e as pernas de Caim.

Sinto que não moro.

Sou morada pelas coisas como a terra das sepulturas

É habitada pelos corpos.

Moram em mim

Gerações, alegrias em embrião,

Vagos pensamentos de perdão.

Como na terra das sepulturas

Mora em mim o fruto podre,

Que a semente fecunda repetindo a vida

No sereno ritmo da Origem.

Vida e morte,

Terra e céu,

Podridão, germinação,

Destruição e criação.

 

Ao fim e ao cabo, Adalgisa e Augusto são modernistas um tanto esquecidos pelo tempo e pela crítica. Ambos estiveram imersos em um projeto sui generis, a meu ver, de refletir sobre si e, de forma sub-reptícia, sobre a transição de um Brasil às voltas com seu próprio processo de modernização, em suas angústias, êxitos e saudosismos. Sobretudo, um saudosismo de elites em decadência (a que pertenceram ambos). A onipresença das cidades, as vicissitudes da economia, as heranças financeiras dilapidadas por contextos econômicos e sociais específicos, bem como a incerteza, o pessimismo e o ar melancólico que acompanha as mudanças drásticas por que passava o país seria parte da gênese dos versos lúgubres e evasivos em ambos. Não à toa, a riqueza desta poesia estaria nisso: naquilo que, mais do que transparece, esconde.

Sobre o autor

João Matias é escritor, sociólogo e professor. Docente na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Publicou Os santos do Chão Bravo (2022) pela Editora Caos & Letras, dentre outros. É um dos editores da Revista Blecaute de Literatura e organizador do Encontro de Literatura Contemporânea, em Campina Grande - PB.