20 de maio de 2019

ACIDENTES LUNARES SEGUNDO TADEU SARMENTO

 

André Ricardo Aguiar

 

Poesia é avessa a definições estanques. Nem o objeto em si, nem exatamente esse algo sobre o objeto pressupõe um vaticínio. Tudo é terreno pantanoso. Tudo, por assim, dizer, é tentativa falha, aproximativa, quando se tenta abarcar uma dimensão que por si só é fragmentária, múltipla, escorregadia. Aqui temos um poeta que de tão recente, tinindo de novo, já surpreende pela originalidade. Um carro capota  na lua, vendedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura em 2016, de Tadeu Sarmento.

Tinha prometido ler várias e várias vezes esse conjunto de poemas que parece ir ainda mais na contramão – todas as peças se candidatam a carros-chefes ou não. Digo isto porque me soam como artefatos com fundos falsos.  Numa capa de aparente sisudez, como que dublados pela voz de um Borges fazendo comédia stand up, suas trinta e poucas peças promovem ficção do mais puro quilate com armaduras de poemas – e nesses poemas, num caminho de ida e volta, fulguram novas realizações semânticas, novos ângulos de uma realidade que é bem nossa: o mesmo mundinho às avessas e as mais variadas contradições em que nos tornamos, como o elefante do Drummond , famintos de “seres e situações patéticas”.

É preciso apontar que muitos dos efeitos referenciais de Um carro capota na lua são construídos com uma imensa carga de objetividade anárquica. O autor gira a sua metralhadora para os mais variados índices e padrões deste mundo e testa suas possibilidades através situações paralelas, como se antípodas tivessem química imediata. O saldo é surpreendente:

 

Instalava placares eletrônicos

Em zonas de conflito.

Enviava cartões-postais a crematórios.

Treinava pombas migratórias para

Cagarem sobre alfândegas (..)

[Currículo]

 

A impressão também é que um livro de poemas que provoca o riso nos mais variados temas minados  impõe-se outra lógica, outra cifra. Talvez a poesia feita por um contador feliz, um engenheiro cético, um operador de telemarketing que gosta de musicais. Sobretudo, é poesia de patchwork sem ser hermética – há uma chave em cada poema, mas Tadeu encheu o chão de fechaduras. Não se sabe como se entra, mas se sai mais curioso de cada poema (eles têm suas taras).

Tadeu é poeta-leitor, um leitor sem controle, onívoro. Cada um destes poemas estão em consonância com sua farra intelectual. Há associações e comparações inusitadas, mas tudo dentro de um organismo, um efeito. Nada é gratuito: “suicidas são videntes / lendo auras nas salas / de radiologia (...)

 

Ou poemas que nos brindam com o politicamente incorreto:

Jogava diariamente na loteria

Com seu número de identificação

De prisioneiro de Auschwitz (...)

[Revisionismo]

 

De toda forma, Um carro capota na lua é uma divertida maneira de descobrir que a poesia, musa de mil faces, não se prende nunca a uma tentativa de classificação única. Num país tão cheio de caçadores de definições, o livro de Tadeu Sarmento parece ser um animal de falsa extinção, embrenhando cada vez mais na floresta dos sentidos absurdos.

 

*

 

André Ricardo Aguiar é escritor paraibano radicado em SC. Tem publicado pela Patuá A idade das chuvas (poemas) e Fábulas portáteis (contos). É autor de livros infantis e um dos criadores do selo Fresta.