7 de março de 2016

A primavera entra pelos pés e pelas linhas

O segundo livro de Vivian Pizzinga, “A primavera entra pelos pés” (Editora Oito e Meio, 2015), nos brinda com 22 contos que poderiam ser tratados como ensaios intimistas urbanos. Entre as páginas, a contundência e a verossimilhança das situações enfrentadas por seus personagens, de fato, exemplificam esse desvario líquido que é se manter são e vivo assim como as consequências que advêm dessas escolhas.

A escrita de Vivian é plural, rítmica e preciosa por suas reflexões e metáforas. Aliás, as frases são muito bem construídas, possuem uma harmonia musical que acalenta os ouvidos e demonstram o zelo dela na busca da melhor sentença possível. Nós, leitores, agradecemos muito.

CAPA_FRONT1Os contos são divididos em três grupos: Circunvoluções, Eletroconvulsoterapia e Ausência de pontos finais. No primeiro conjunto, os textos carregam indagações filosóficas que nos inquietam. Existe um prazo para a morte? Esta é a questão central do conto “Prazo”. Na história, a protagonista não quer morrer antes do tempo, mas quem estabelece essa data? Enredeando o mesmo tema, destaco o conto “Horas a fio”, onde Vivian descreve o arrastar das horas ao longo do dia e consegue que nós, leitores, examinemos nossas tarefas cotidianas. Ela constrói isso de uma forma indireta, como uma insinuação que nos domina. Vivian domina as entrelinhas do discurso.

No conjunto da Eletroconvulsoterapia, o leitor encontrará estímulos (como a terapia o sugere), choques urbanos, reais ou paranoicos, você julgará. Ressalto o ótimo conto “Agregado”, onde um homem sozinho encontra outra família em sua casa e passa a conviver com ela, pois sempre fora um “coadjuvante da vida alheia”. A história, carregada de indagações existenciais e ótimas metáforas – aliás, característica de todo o livro – lembrou-me o conto de Júlio Cortázar “Casa tomada”, pois ambos tratam de invasão particular. Contudo, enquanto em Cortázar os irmãos fogem com medo de quem passou a conviver com eles, Vivian coabita seu personagem com os invasores, surpreendendo-nos.

“A vida é Jazz” é outra pérola. Duas mulheres trocam anseios pessoais e uma delas confessa que mesmo com todas suas vitórias, não encontra a felicidade pretendida. Do que a outra, certeira, teoriza que a vida é Jazz, um improviso constante. O conto é carregado de sentimento, perdas individuais, e brilha por sua sensibilidade madura. No mesmo grupo, encontramos contos com temas de solidão e enclausuramento.  O conto “Subida” trata de isolamento por não responder aos próprios anseios; “O descuido que é viver” fala de uma mulher que desde cedo aprendeu com o Riobaldo de Guimarães Rosa que “Viver é um descuido prosseguido” e tenta se matar para aliviar suas dores, embora suas tentativas sejam falhas.

Na terceira parte, Ausência de pontos finais, Vivian utiliza as palavras para nomear as ações congeladas que atuam dentro das ações pessoais. É como se ela investigasse os momentos em busca das dobras invisíveis que nos cercam. O desafio hercúleo dá ótimos resultados. O conto “Cena” é precioso, pois sua pegada cinematográfica encanta. Em “Antiduração”, a autora vai atrás dos minutos dentro dos minutos, algo como uma física social atrás das curvaturas do nosso espaço-tempo-pessoal.

Outros dois contos interligam-se, “Lacunas” e “Chocolate quente”. Ambos nos apresentam Lia e Márcio, pessoas que se relacionaram no passado e que tentam preencher com palavras aquele momento embaraçado que é o reencontro inesperado. Tarefa mais do que difícil, preferem adotar a superficialidade com receio que informações bruscas demais (casei, tenho dois filhos, viajei para a França etc.) os intimide. As frases são carregadas de um cuidado extremo, como se nós fôssemos amigos dos dois e também estivéssemos embaraçados com a conversa. É impossível ler sem imaginar uma cena de cinema.

Por fim, “A primavera entra pelos pés” renova o olhar urbano. Vivian mergulha com vontade na psique dos personagens e extrai os questionamentos que nos enclausuram ou nos impulsionam socialmente. Os contos dela tem esse poder, pois são ricos tanto em forma quanto em mensagem. Polissêmicos, assim como os ares preciosos da Primavera.

 

José Fontenele é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Trabalha com Literatura.