20 de janeiro de 2015

Julgamento do inominável

Quando tudo se condensou num único ponto, obteve-se o uno – nulo.

Se o relato deseja tomar corpo, a narrativa deve se valer do uso tradicional das palavras, mesmo havendo a consciência de que todo e qualquer valor e significado mundano não é mais aplicado ao inominável. Isso, algo exatamente como a lógica racional – o padrão criado para dar seguimento à existência dentro de um todo que, per si, só existe e não depende de nossa aprovação sensorial.

Escuridão. Frio?

Não é desta forma, eu sei, que você quer saber sobre a morte. A parte crítica resume-se a – inacreditavelmente – afirmar que o julgamento não se extinguiu mesmo com o fim da cognição de um ser. É preciso remoer suas ações passadas, sua conduta quando vivo, e tentar racionalizar em cima de algo que não faz mais parte do todo, para que, assim, o todo possa seguir sua linha lógica confortável, bem longe do temível desconhecido.

O caótico não é interessante à maioria.

Ruídos. Um grande filho da puta, sim. Não sei o que você via nesse cara. Estou aqui por você. É o ciclo da vida. Não precisa se desesperar tanto assim. Lembra o quanto ele te tratava mal? E aquela vez...

Situação engraçada. Consigo ouvir um pouco, sim. Não sei onde estou. Não sinto dor, não. Algumas reflexões me vêm à mente, mas acaba aí. Não sinto nada, não. Será que vou despertar? Despertar para o quê? Pra quê? Um homem me condenou. Consegui entender o que ele quis dizer. Entendi o significado, mas isso não me diz nada. Ou melhor, então isso significa que só ouvi o que ele disse. Significa? Aqui, a audição não é mais somente uma das etapas da compreensão humana. Quer dizer, é o que me resta. Ouço. Não enxergo um palmo à frente. Tentei alcançar meu nariz. Acho que não tenho mais tato, não. Que confusão. Aos 40 anos, um homem perde seu braço direito num acidente. Ele ainda continuará a sentir esse braço? Situação engraçada. Sinto frio. Esse estado letárgico é o que sempre busquei, só não lembro quando. Gosto de frio. Sempre gostei de frio.

Não é você quem vai dizer o que ele representou pra mim, seu idiota. Agora, depois de tudo, acha que tem o direito de me orientar? Tá se achando superior? Você não vale nada. Acho que ela está chorando. Essa voz me é familiar, mas tão distante. Por que ela chora? Um homem me condenou. Uma mulher está contra ele. Isso é bom? Gostaria de vê-los. Tenho a vaga sensação de que as coisas já foram bem diferentes. Falta alguma coisa. Cores? Calor?

Então fique aí se afogando na sua dor. Enfrente isso da forma mais difícil, sua burra. Seja o tipo irracional que você sempre condenou. Ruídos. Ah, por favor! Não venha dar uma de super-homem pra cima de mim. Não agora. Tenha o mínimo de dignidade nessa sua consciência de merda.

Dignidade, é? Por definição, característica de quem é digno; atributo moral que o eleva... Espiritualmente? Não. Acho que a palavra é “socialmente”. Outra sensação. Parece que tudo isso já quis dizer muita coisa. Quer dizer, algo além do que ouço agora. Só ouço. Minha mente parece estar falhando. Acho que nunca fui muito entendido das coisas, como dizem, mas agora está tudo tão mais difícil. É como um aperto no coração. Sei que sempre desejei esta sensação, mas não lembro quando e não sei como cheguei aqui. Onde? O coração bombeia o sangue pelo corpo. Isso. Batimentos cardíacos. Não posso tocar meu peito. Lembro que meus ouvidos costumavam apitar quando eu me deitava. Certa vez, o doutor diagnosticou estresse. Situação engraçada. Parece algo como...

Sai daqui!, ela gritou. Por favor, me deixe sozinha.

Acho que ela não está satisfeita com o que está acontecendo. Mas isso pode nem ser por minha causa. Quer dizer, o que eu sou? Nem sei onde estou. Mas tenho certeza que essas palavras são pra mim. Sou o alvejado. Que confusão do caralho. Qual o motivo de minha punição? Punição? Por que os significados ficam sumindo de...

Se você insiste, tá bom. Só não me procure depois. Vai ser diferente desta vez. Não quero mais saber de você. Sofra com o morto. Viva ao lado do túmulo dele. Acenda velas. Continue seguindo suas crenças estúpidas. Pra mim já deu. Não preciso aguentar tanta merda assim. E pare de gritar, por favor. Não seja ainda mais patética. Olha o show que você já deu.

Morto, é? Alguém me tocou? Algo está escorrendo e gelando ainda mais meu... Rosto? Está menos frio. Situação engraçada. Quem está soluçando? Sou eu? Meu rosto está molhado, sim. Acho que... Vou me levantar. Preciso fazer algo sobre isso? Está desconfortável, na verdade. Sinto? Apaguem essa merda de luz! Não vou me levantar, não. Foda-se. Vou é fechar os olhos.

Frio. Escuridão?

Não adianta espernear: você não irá escapar do caótico. Não precisa se preocupar. É só o que é. Chorar adianta, sim. Fique à vontade. Chore muito. Grite. Evite fazer isso em público, se possível. Quanto menos constrangimento, melhor. Se você for do tipo que gosta da dor, se corte. Tanto faz, entende? Beba muito. Drogue-se. Só fique o mais longe possível da autoconsciência. E não se esqueça de temer o mal. Ele não estará contigo. Não se iluda.

Escuridão, enfim! É impossível escapar dos clichês aqui, mas quando tudo se condensou num único ponto, obteve-se o uno – nulo.

 

por João Lucas Dusi