O ready-made de Oswald

por Giovani Kurz
retirado de https://goo.gl/A0adKq

O ready- made tornou-se célebre nas mãos de Marcel Duchamp, francês radicado nos Estados Unidos e expoente das vanguardas do início do século. O procedimento consiste, em base, no deslocamento de objetos prontos (daí o nome) a um ambiente distinto, subvertendo seu significado. Pode-se exemplificar com a Fonte (1917) e a Roda de Bicicleta (1913), ou ainda com o Porta-Garrafas (1964) e L.H.O.O.Q. (1919), todas obras do próprio Duchamp. No Brasil, serviu como instrumento para, entre outros, Oswald de Andrade, figura central do movimento modernista e da virada antropofágica, na década de 1920.

Bebendo da fonte europeia e de suas vanguardas, Oswald deslocou, da mesma maneira, trechos de notícias e informes de jornal de maneira literal, reconfigurando-os, de maneira humorística, por exemplo, na coluna “Brasiliana”, da Revista de Antropofagia.
Divididos por categorias tais quais Raça, Política, Democracia, Religião etc, os fragmentos, reconfigurados, aparecem como a seguir (estes, retirados do primeiro número da Revista, de Maio de 1928):

DEMOCRACIA

Telegrama de Fortaleza (AB):
A bordo do “Itassussê” passou por este porto com destino ao norte, S. A. D. Pedro de Orleans e Bragança, acompanhado de sua esposa e filho.
S. A. desembarcou, visitando na Praça Caio Prado a estatua de Pedro II. O povo acclamou com enthusiasmo o principe. A officialidade do 23º B. C. e a banda de musica cercada de enorme multidão, aguardou a chegada de S. A. naquella praça.
Compacta massa, acompanhou os distinctos viajantes até a praça do Ferreira, onde o tribuno Quintino Cunha fez uma enthusianstica saudação em nome da população.
Na volta para bordo, um preto catraeiro, de nome Vicente Fonseca, destacando-se da multidão abraçou o principe dizendo: “Fique sabendo que as opiniões mudaram mas os corações são os mesmos”.

 

NECROLÓGIO

De um discurso do professor João Marinho na Academia Nacional de Medicina do Rio de Janeiro (Estado de S. Paulo, n. de 3-8-921):
O dr. Daniel de Oliveira Barros e Almeida nasceu num dia e morreu em outro, de doença de quem trabalha, coração cançado antes de tempo.
Entre os dois, correu-lhe a vida.


Pode-se notar que a matéria para a produção da coluna de Oswald já vem “pronta”, requisitando apenas uma edição, uma reorganização que busca o humor. Ainda mais importante: os fragmentos de texto desvinculados do contexto original são, em geral, provenientes de textos desinteressantes ou desimportantes – colunas sociais ou pequenas notas a respeito de eventos menores. Em resumo, aquilo que Paulo Honório, o protagonista do romance S. Bernardo, contemporâneo de Oswald, chamaria de “tolice” ou bagaço”. O pragmatismo de P Honório pode ilustrar o rompimento que os romancistas de 30, entre eles Graciliano Ramos, autor de S. Bernardo, procuravam traçar com os modernistas da década anterior. O ready-made de Duchamp, incorporado por Oswald e tantos outros, transforma em ponto central da obra justamente o bagaço do cotidiano – objetos banais – tanto como um representação da industrialidade crescente das primeiras décadas do século XX, quanto pela face humorística de um deslocamento inusitado. A seriedade social do romance de 30, por sua vez, provocava um novo olhar sobre essa perspectiva da década anterior e tentava traçar uma fronteira clara com seus predecessores.

O fato é que – e, deve-se dizer, é irrefutável – sem os modernistas de 22 não haveria romance de 30. O ready-made de Oswald, entre outras propostas banais aos olhos de escritores contemporâneos, abriu caminho para inúmeras obras fundamentais da literatura nacional – para citar dois exemplos, S. Bernardo, de Graciliano Ramos, e Quinze, de Raquel de Queiroz; a mais longo prazo, não se pode duvidar da sua influência no contexto de recepção da obra de João Guimarães Rosa. Da mesma maneira, não se pode tirar de Oswald o mérito pela subversão total do sistema literário vigente na virada do século, da exploração de novas perspectivas, da possibilidade literária de produzir algo muito maior.

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Crítica LiteráriaEnsaio

Giovani Kurz nasceu em 1997, em Curitiba, onde vive. Aluno do bacharelado em Estudos Linguísticos da Universidade Federal do Paraná, estreou na poesia com Nascente Periférico (Substânsia, 2014). Integrou a coletânea FLUPP Novos Poetas, também em 2014, participando, no ano seguinte, da antologia de melhores textos do jornal RelevO. Atualmente, assina uma coluna mensal no site LiteraturaBr, além de publicar contos aqui e acolá. É parte, também, da terceira edição do Livro dos Novos (Travessa dos Editores, 2016).

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