O homem de Higienópolis

por Antônio LaCarne
retirado de https://goo.gl/KmHGRx

Ele (que não sou eu) percorria o centro da cidade de madrugada em busca de rapazes que pudessem satisfazer o seu desejo. Cada quarteirão era delimitado: havia as esquinas das travestis e as esquinas dos garotos de programa. Mas ele (que não sou eu) dirigia seu carro lentamente, numa caçada, muitas vezes andando em círculos, em busca do rapaz ideal. Nem sempre ele (que não sou eu) explorava o prazer da noite sozinho, tinha um casal de amigos como cúmplices. Ao abordarem os rapazes, ele (que não sou eu) tomava a iniciativa de perguntar o preço, o tamanho e se poderiam exibir o que existia dentro de suas cuecas. O casal de amigos permanecia em silêncio, talvez controlando o desejo, observando discretamente se alguém ao redor se aproximava, pois a cidade era perigosa. Porém, ele (que não sou eu) nunca se decidia por nenhum rapaz, apenas se contentava em vê-los sem roupa por alguns segundos, desesperados por dinheiro. Muitos deles recusavam qualquer amostra grátis de suas qualidades específicas, pois exigiam algum pagamento prévio. Então numa bela noite, ele (que não sou eu) abordou um homem por volta dos trinta anos que dizia ser de Higienópolis. O sotaque dele porventura evidenciava isso, mas o interessante é que a voz daquele homem era extremamente sexy. E ele (que não sou eu) convidou o homem de Higienópolis para o banco de trás. Quem dirigia o carro era o casal de amigos, um no volante e outro no banco do passageiro. E no banco de trás o homem de Higienópolis tirou a camisa, baixou a bermuda de nylon e se deixou ser manipulado ali mesmo. Mas ele (que não sou eu) antes de atingir o êxtase, lembrou que durante toda a sua vida havia esperado por um grande amor, independente de qualquer dote físico, e que aquilo era um exemplo gigantesco de hipocrisia íntima. O programa foi encerrado ali mesmo, e o rapaz de Higienópolis saiu alegre e satisfeito ao receber uma nota de vinte reais de um otário (que não sou eu) por menos de três minutos de trabalho.

 

Antônio LaCarne é cearense, nasceu em 1983. É autor de “Salão Chinês” (Patuá, 2014), “Todos os poemas são loucos” (Gueto Editorial, 2017). Participou das coletâneas “A Polêmica Vida do Amor” (Oito e Meio, 2011) e “A Nossos Pés” (7Letras, 2017). Seus textos estão presentes em revistas e suplementos literários.

 

 

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