A filha do osmar

Por vivian de moraes
retirado de https://goo.gl/znPQ8K

a mãe disse à filha: vai à busca de seu pai e pega um trocado para o macarrão e o molho, que acabou tudo. e o pai era o osmar.

ela não era a filha única, mas era a mais velha e a única que importa para esta narrativa. pois foi a filha do osmar em busca do cujo.

osmar passava o dia bebendo cerveja num botequim, e para lá foi a nossa menina, mas qual não foi seu espanto não encontrando o pai lá no lugarzinho de sempre!

hoje o osmar não veio. mas deve chegar logo, senta aí que eu te pago um guaraná. a menina assentiu, porque ficou confusa e não sabia o que fazer. mas não se sentou de imediato. olhou os frequentadores do bar, caras tão conhecidas, que a faziam sentir vergonha e repulsa. um lhe olhava os peitinhos nascendo sem a proteção de um sutiã. outro olhava para suas pernas à larga. estava de short amarelo. sempre olhavam, osmar não percebia, ou não queria.

um bêbado, daqueles que caem na rua, de repente, desatou a rir. olha a filha do osmar! está com a boceta cheia de sangue!

a menina, então, ficou paralisada. o primeiro que lhe falara disse: senta aqui, menina, e lhe ofereceu uma cadeira. e pediu o guaraná. outro bêbado deu umas taponas na cara e na nuca do que gritara. a menina era patrimônio do bar. ela era de todos. que importava se tinha sangue na boceta?

a menina estava com lágrimas nos olhos. será que o bêbado dissera a verdade? os outros não diziam nada sobre aquilo. quis ir ao banheiro para se olhar, mas os homens não deixavam. continua o seu guaraná! o papai logo vem. mas e a vergonha, a infinita vergonha de já ser mulher, sem saber se de fato era?

foi assim que a menina “ficou mocinha”. no meio de um bar com bêbados tarados.

osmar chegou. ficou alarmado com a presença da filha. faz tempo que você está esperando?, perguntou. então o bêbado de rua disse: ela até se sujou de sangue, de tanto que você demorou.
os homens, que a olhavam com cobiça, inclusive o dono do botequim, não mudaram seus olhares. só que dessa vez osmar percebeu e não gostou. ou quis aparentar que não gostou. ele ordenou que ela se levantasse. ela recusou. tomou um tapa na cara. então levantou-se. ele disse: abre as pernas. nem precisava, dava pra ver a mancha. mas ela abriu as pernas na frente de todos aqueles homens.

de fato, havia uma mancha de sangue no short amarelo. os bêbados riam. osmar também acabou rindo. mas de repente se fez sério e ameaçou os demais: de hoje em diante, ninguém fala com a menina quando ela vier aqui me procurar. e para a menina: o que é que você veio fazer aqui desse jeito? dinheiro? macarrão? taqui. vai embora. em casa a gente conversa.

foi assim que a menina virou júlia, uma mulher. horas depois, já usando um absorvente que a mãe comprou com o dinheiro do macarrão, júlia apanhou do pai, por ter se exposto para um bando de machos. e por não ter comida pronta em casa, por culpa dela também.

júlia “ficou mocinha” naquele dia. continuaria usando o short amarelo, mas o sutiã ainda demoraria. e, ao contrário do que osmar dissera, ela continuou indo ao botequim levar recados da mãe e todos continuaram mexendo com ela. osmar se orgulhava. ele já nem se lembrara da proibição. e aqueles homens a olhavam com interesse redobrado nos dois peitinhos que apontavam, no bumbum que se empinava. osmar fingia que não percebia. não fazia diferença. em casa, a menina era dele.

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Aurora
Um comentário

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  • Ivandro Menezes
    5 novembro 2017 at 6:55 pm

    Conto ácido, com linguagem incômoda (para ouvidos mais puritanos). Cada palavra bem pensada, bem colocada, conciso e belamente triste. Vale a leitura!

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