Foi ele que escreveu a ventania

por Nathan Matos

Rosa Rios e Mauricio Negro, em Foi ele que escreveu a ventania (Editora Pulo do Gato), realizam uma bela homenagem ao poeta Manoel de Barros, poeta das coisas miúdas, em “Foi ele que escreveu a ventania”.

De início, o que importa é saber onde Tui mora. O local onde vive faz calor, tanto que mal tem força pra falar antes de sair para a escola. A mãe resmunga, assim como a avô. Tui não fala, o menino prefere guardar forças pra enfrentar o sol escaldante que o aguarda fora de casa. A ida para a escola é de sufocar, o ar vibra de tanto calor. Tui anda, devagar, até encontrar em muro uma pichação. Parado, frente ao muro, ele lê copia o poema, que faz referência a secura da vida, do ser e dos dias.

Resolve, então, copiar o poema e levar consigo no caderno amassado. Ao chegar para a aula, Tui lembra do velho caixote da classe, que escondia os livros que poderiam ter acesso. Entre poucos livros novos, alguns de poesias o chamavam a atenção, havendo entre eles um em específico que lia e relia sempre que possível. Após o sinal soar, e ele se dirigir até o refeitório, desiste de comer, o que quer mesmo é ficar só entre as securas das coisas, das mesas, das cadeiras da sala. Não entendia porque tudo tinha que ter essa aparência.

Indo até o caixote velho, logo o leitor ficará a saber que se trata de um dos livros do poeta Manoel de Barros. No dizer do narrador, os poemas que Tui lia não eram iguais ao do muro, mas assim como aquele da pichação, o sol também surgia, “o poeta juntava essas palavras de um modo tão bonito, que Tui nunca se cansava de reler aqueles versos”.

A professora, atenta, vê que o menino, isolado, lê o livro, o mesmo, sempre. Diz que ele pode levar pra casa, que não tem problema. A felicidade de levar um livro pra casa, evidenciada pelo narrador é tamanha que o leitor pode pensar que não é verdade. Mas entre a secura da vida e das pessoas, a poesia pode preencher um espaço que nos falta, um espaço que faltava a Tui.

Naquele mesmo dia, à noite, Tui ficou a saber que o poeta, seu preferido, havia morrido, agora entendia o olhar da professora, talvez a vontade de fazê-lo levar o livro consigo, talvez fosse a forma dela deixar o poeta mais próximo dele, mesmo já sabendo que a morte se fazia presente. A poesia preencheria mais esse espaço em Tui.

Assim, vai se desenvolvendo a narrativa, breve, mas densa de Rosana Rios, junto aos tons que Mauricio Negro dá à narrativa, fazendo alusão, sempre que possível, a cores que nos remetam ao calor, à secura. A história mostrará que Tui também é poeta, que, num sonho, surge a vontade de escrever e de buscar sumir do mapa esse calor medonho, sua vontade, então, era de trazer a ventania pra todos.

E ele traz, por meio do poema que escrevera e que lera para a mãe e para a vó, Tui cria o poema “Ventania” que se transformará realidade por meio da poesia, porque tudo é possível.

Foi ele que escreveu a ventania é um daqueles livros para se ler numa noite de calor, que antecede uma madrugada chuvosa, ao lado da cama de nossos filhos. Um livro que se repetirá, sempre, no contar das histórias, porque a possível possibilita essa proximidade entre os seres e as coisas, assim como fazia Manoel de Barros.

 

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